
Normalmente, esta coluna não se dedica à ficção. É uma coluna de pés assentes na terra, quase sempre com hortas, plantas, temas e pessoas terrenas e com ligação à natureza. Mas, desta vez, deu-me para a ficção. Imaginei que, em São João da Madeira, fechavam todos os supermercados, mercearias, padarias, restaurantes, cafés e estabelecimentos onde houvesse comida. Imaginei ainda que, à volta da cidade, se erguia um muro intransponível. Abrenúncio! Para tornar a ideia mais romântica, em vez do muro, imaginei que um daqueles reis antigos punha cerco à cidade. Lisboa e o Porto tiveram cercos desses. O cronista Fernão Lopes relatou-nos o cerco de Lisboa pelo rei de Castela! Terrível!
Em qualquer dos casos, pela minha parte, tentaria sobreviver com as couves, as alfaces, os alhos franceses e as favas da minha horta, produtos atualmente disponíveis. Depois, teria que esperar que as curgetes e os feijões produzissem as respetivas vitualhas. Carne? Nem vê-la. Alguns sanjoanenses ainda teriam o privilégio das galinhas e dos coelhos, mas não é o meu caso. Peixe? O Rio Ul não suportaria a presença simultânea de 25.000 pescadores.
Lembrei-me então das árvores. Inspirado na história da alfarrobeira, decidi investigar as árvores de fruto existentes no espaço público sanjoanense. Socorri-me, mais uma vez, do excelente inventário municipal “Arvoredo em meio urbano” (https://arvoredourbano.cm-sjm.pt/) e fui à procura de árvores de fruto. Para os sanjoanenses sem horta, essa seria uma solução ilusória. Se tivermos em conta a sazonalidade da produção frutícola e o facto de algumas destas árvores serem improdutivas, a coisa não se afiguraria fácil para os sitiados. Fome, muita fominha…
Vejamos o que encontrei no espaço público e em espaços sob administração da Câmara (escolas, terrenos municipais…):
8 abacateiros|113 ameixoeiras| 1 amendoeira | 2 bananeiras | 175 cerejeiras | 35 laranjeiras | 7 limoeiros | 53 macieiras | 15 nespereiras | 22 pereiras | e não procurei mais.
Deixemos a ficção e voltemos à realidade. Nas grandes cidades, muita gente vive entre paredes de cimento, sem saber onde se semeia, como se rega e quando se colhe. Algumas crianças pensam que os ovos e as cenouras nascem nos supermercados. Felizmente, com o apoio da Câmara e dos professores, há crianças envolvidas em projetos hortícolas. Mas agora, com as novas tecnologias, há outra alternativa: em vez de saberem apenas o nome dos jogadores do seu clube, podem dedicar-se a outro passatempo: descobrir o nome das árvores. É um bom passatempo, podem crer! E quando chegar o rei de Castela, serão os primeiros a saber onde podem encontrar a fruta!
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