
No edifício que ladeia a capela de Casaldelo, que pertence à paróquia um grupo crianças e jovens, de diferentes idades, reúne-se todos os sábados, entre as 16h e as 19h, hora a que se deslocam em conjunto para a eucarístia
Uns entraram na secção dos mais novinhos. Outros chegaram já perto da adolescência. Todos afirmam que ser escuteiro torna as pessoas melhores, mais atentas aos outros. Todos têm, contudo, dificuldades em explicar, afinal, o que é ser escuteiro. “É algo que só quem sente consegue perceber”, indicam. Mais do que a fé, move-os um conjunto de valores, entre os quais destacam o espírito de união e entreajuda e a capacidade de olhar o outro sem tecer julgamentos.
Organizam-se em secções e patrulhas. Cada secção tem métodos e objetivos adequados à faixa etária. As secções são orientadas por chefes, que tiraram um curso para assumir essas funções.
Sábado. Pouco depois das 16h, organizam-se no exterior para fazer uma saudação inicial. Ali, também, aproveitam para cantar os parabéns à Bianca, que faz 10 anos, e para promover uma oração pela paz, sugerida pelo Nuno.
“Aqui somos felizes”
Entre os seis e os nove anos integram a secção dos ‘lobitos’. Bianca Tavares está nos escuteiros desde 2018/19, quando pediu à mãe para experimentar. “Gostei e fiquei”. “Aqui somos felizes e fazemos atividades, o que é melhor do que estar em casa”, indica.
Sobre o que já aprendeu nos escuteiros, Bianca conta: “já aprendi a ser como sou, toda a gente tem que respeitar as regras, fazer o que os chefes mandam, como eles dizem não estão aqui para ganhar dinheiro, mas para nos ver felizes, o que também os faz felizes”, lembrando um dia que pintaram a sede, o que é “divertido”.
Chegou a não vir às atividades dos escuteiros, porque tinha medo da covid-19, mas, agora que regressou, assegura que ainda gosta mais.
“Ainda não conheci outro, mas acho que este agrupamento pode ser aconselhado”, conclui a lobita sanjoanense.
Já Luísa Rodrigues, de oito anos, conta tinha uma amiga na escola que dizia que os escuteiros eram uma atividade “gira” e decidiu vir também. Entretanto, a colega já abandonou o agrupamento e Luísa ficou.
Diz que também já trouxe um colega para os escuteiros. Convence-os dizendo que “é muito divertido e que deviam experimentar”.
Sobre as atividades que mais gostou, remete para um acampamento no ano passado. Já tinha acampado antes, mas “nunca sem os pais”, conforme frisa, o que tornou tudo num desafio.
Além disso, a lobita sanjoanense partilha que também gosta de andar nos escuteiros porque gosta de passear.
“O que eu faço pode deixar as pessoas felizes ou tristes”
Dos 10 aos 14 anos são ‘exploradores’, como o Nuno Macedo e a Sofia Gonçalves, ambos de 13 anos.
Nuno já tinha dito à mãe que queria experimentar. “Só que ela dizia que eu já tinha muitas atividades”, mas um dia lá conseguiu convencer a progenitora a deixa-lo, pelo menos, experimentar os escuteiros.
O que o motivou a querer entrar foi “ver imagens, pessoas divertidas, todas juntas”. “Eu era uma pessoa muito envergonhada e achava que se conseguisse entrar no grupo podia aprender também a falar mais abertamente”, conta a ‘O Regional’.
Entrou aos 11 anos, diretamente para os exploradores, onde ainda se encontra. “Cá não é preciso ter medo, podemos falar abertamente”, frisa.
“Quando cá cheguei tinha medo, só tinha dois colegas, mas senti que as pessoas queriam interagir comigo, mesmo que eu me tentasse fechar não dava e rapidamente fiz amigos”, acrescenta o jovem.
No entender de Nuno, “hoje em dia as crianças isolam-se muito umas das outras”, sendo que nos escuteiros isso é impensável.
Quanto a atividades preferidas, Nuno diz que gosta de estar com outros acampamentos. “Apesar de estarmos aqui todos para o mesmo, cada agrupamento tem a sua forma de ser”, explica.
Como valores do escutismo, o ‘explorador’ aponta o companheirismo e a consciência, quer ambiental, quer para com os outros, bem como a humildade de admitir os erros. Sabe que as suas ações têm sempre influência na vida das pessoas à sua volta. “O que eu faço pode deixar as pessoas felizes ou tristes”, o objetivo é fazer por que fiquem sempre felizes, sustenta, admitindo que, antes, não pensava nas consequências das suas ações, se motivava ou desmotivava uma pessoa a fazer o que gosta. Agora sim.
Já Sofia, desde criança, gosta do contacto com a natureza e de se sentir livre. Andou noutras atividades, mas conta que não conseguia atingir essa sensação. Como tinha familiares que foram escuteiros e que partilhavam histórias consigo, decidiu experimentar também esse contexto, entrando em 2019, diretamente para os exploradores.
“Houve um dia em que toda a gente podia experimentar e conhecer escuteiros e eu fui e gostei, senti que um novo mundo se abriu para mim”, afiança.
Sofia também era introvertida e tímida. “Sinto que os escuteiros deram me uma oportunidade de fazer mais amigos”, diz.
As suas atividades preferidas são as que envolvem jogos e saídas para zonas de natureza.
Sobre os valores do escutismo aponta o respeito e apoio ao próximo. “Fazer o bem porque também nos faz bem”, ser mais responsável, mais autónoma, uma pessoa melhor, “crescer mentalmente” e “ser mais forte” foram outras aprendizagens.
Artigo disponível, em versão integral, na edição nº 3883 de O Regional,
publicada em 17 de março de 2022
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