Sociedade

“São João da Madeira é provavelmente a cidade mais segura do distrito”

• Favoritos: 104


Bruno Borges, de 47 anos, entra em ação quando a cidade dorme. guarda-noturno há 25 anos, 17 dos quais com um olhar atento sobre São João da Madeira, é a única figura deste género a patrulhar atualmente a cidade, das 24 horas às 6 da manhã, numa missão que abraça com paixão e compromisso. Trata-se de um serviço que chegou à cidade em 1993, ou seja, há mais de três décadas. “Quando o profissional anterior saiu, em 2008, entrei eu”, recorda Bruno, que hoje continua a desempenhar esta profissão com dedicação. “É uma profissão que amo, apesar de todos os riscos, porque saio de casa e nunca sei se vou voltar a entrar e o que vou encontrar pela frente”.
Apesar da exigência e imprevisibilidade do trabalho, diz que gosta dos desafios que encontra todos os dias. “Para se ter uma profissão destas é necessário gostar, ser firme e até destemido”, a que se junta “muita colaboração familiar”, destacando a importância do apoio dos que lhe são próximos. “Só sobrevive nesta profissão quem gosta, porque isto retira-nos vida familiar, retira-nos vida social. É muito complicado”, afirma.
Calmo e sereno, sublinha que não recebe qualquer apoio oficial do Estado ou do município. “Quem me paga o ordenado são os aderentes de um serviço, são clientes que eu arranjo e que escolhem os meus serviços e que confiam naquilo que faço. Há clientes de empresas, nas quais entro para verificar se está tudo bem. Tenho clientes que começaram comigo". Faz isto duas a três vezes por noite. Conta a 'O Regional' que entra sempre mais cedo ao serviço e que só abandona quando sente que a sua missão terminou.
A licença para exercer a profissão é emitida pela Câmara Municipal de São João da Madeira e renovada de três em três anos. E a estreita colaboração com a PSP é uma constante no seu trabalho. “Eu dou entrada e saída de serviço na esquadra, no livro de ponto, como se fosse um funcionário público”, explica, complementando que, apesar de a maioria dos clientes serem empresas, “a minha licença dá-me o direito de trabalhar em toda a área geográfica da cidade, abrangendo freguesias e comércio local”.

Carro particular é o mesmo de serviço

A sua viatura particular transforma-se, todas as noites, num carro de serviço. O seu equipamento de defesa inclui algemas, arma de fogo, gás pimenta e arma elétrica.
A experiência acumulada ao longo destes anos permite-lhe conhecer São João da Madeira “de olhos fechados”. Mantém-se atento não só aos seus clientes, mas a todo o espaço urbano. “Mais do que um guarda-noturno dos meus clientes, estou atento a toda a cidade, sempre em estreita colaboração com a PSP.
Mesmo que não sejam meus aderentes, se estiver a decorrer um assalto ou uma ou outra situação que seja duvidosa, sinto obrigação de atuar”, diz.
Sobre a segurança local, acredita que “São João da Madeira é, durante o período noturno, uma das cidades mais seguras do distrito de Aveiro”. E esclarece: “Há pequenos furtos, pequenos incidentes, mas nada alarmante. Qualquer furto é sinal de preocupação, mas o que vemos é uma cidade bastante segura”.
A profissão de guarda-noturno não está isenta de perigos. Bruno admite: “É muito, muito risco mesmo.” Já passou por “situações complicadas” e até teve de fazer uso da arma de fogo. “Foram disparos para o ar, em zona limpa e segura”, revela.
Relata, ainda, um episódio marcante que nunca esqueceu: “Uma vez, assisti a um suicídio à minha frente. Foi em 2014, no dia 17 de abril. Vi um homem a saltar para o rio. Saí do carro, liguei para a esquadra e para os bombeiros e tive que ir ao rio buscar o corpo.
Ele acabou por falecer. Foi uma situação muito dura para mim”, confessa.
Apesar de muitos desconhecerem a existência do guarda-noturno, Bruno garante que a maioria conhece os seus serviços e diz ser “uma figura respeitada na cidade.” Acrescenta também que, durante a noite, é reconhecido pelas pessoas que o veem circular.
Sobre o futuro da profissão, Bruno fala com alguma preocupação. A formação para novos guardas-noturnos ainda não está regulamentada, apesar da lei existir. “Há uma lei para dar formação, mas ninguém sabe quem a vai dar, porque não lançaram a portaria”. Acrescenta que, apesar da existência da profissão há 30 anos, em São João da Madeira, não lhe parece viável que existam mais guardas-noturnos, “devido aos custos elevados que a mesma acarreta para estes profissionais”.
Ainda assim, Borges é a prova viva de que paixão e dedicação podem superar dificuldades. “Fazer aquilo que se gosta é meio caminho andado”, conclui.

PSP destaca papel do guarda-noturno na segurança da cidade

O Comandante Distrital, Superintendente Rui Manuel de Almeida Conde, em declarações à nossa reportagem, esclarece que a atividade de guarda-noturno consiste na prestação de serviços de vigilância e proteção de bens e arruamentos de domínio público, durante o período noturno, entre as 22h00 e as 07h00, na área geográfica do respetivo município.
Esta função, com carácter subsidiário e complementar ao trabalho das forças de segurança, exige a obtenção de uma licença emitida pela Câmara Municipal da área de jurisdição para o seu exercício legal.
Este responsável acrescenta que a atividade de guarda-noturno desempenha um papel fundamental na segurança local. “Para além da vigilância noturna, os guardas-noturnos colaboram com a PSP, ao informar sobre situações que possam ser relevantes para a prevenção e repressão de atos ilícitos e comportamentos incivilizados”, remata.

104 Recomendações
3865 visualizações
bookmark icon

Farmácias abertas

tempo