Rostos sem Máscara - 43 Judite Pereira: “Ser cabeleireira é muito mais do que cortar ou esticar cabelos”

Ser cabeleireira é, para Judite Pereira, mais do que um emprego. É uma verdadeira paixão. Tem a arte da escova e da tesoura nas mãos desde criança e orgulha-se do seu percurso profissional. É escolhida por muitas noivas e já trabalhou com os melhores
“Ser cabeleireira é uma arte. Nasceu comigo. Tenho necessidade de produzir e criar coisas bonitas. Não sou uma cabeleireira de lavar cabeças e de se limitar a esticar cabelos. Quero desafios”. Estas são as palavras que Maria Judite Pereira, 68 anos, expõe quando fala de si mesma.
É uma aventureira, sonhadora, apaixonada por aquilo que faz desde os 18 anos.
Judite nasceu em Oliveira de Azeméis e veio com os pais aos oito anos para S. João da Madeira. “O pai do meu tio era conhecido pelo Zacarias Martel, um dos melhores cabeleireiros do país nos anos 50. O meu pai aprendeu com ele a profissão e eu com a experiencia do meu pai”.
Começou por ser a menina dos recados quando tinha apenas oito anos. Saía da escola de Casaldelo e ia a correr para ajudar no salão do pai “um dos grandes barbeiros de S. João da Madeira. Eu adorava varrer os cabelos, chegar os rolos, receber gorjetas. Achava as mulheres que lá iam muito bonitas”. Aquele mundo fascinava.
Abriu o seu salão com 26 anos e desde essa altura que quer aprender e manter-se atualizada, para desta forma continuar a ser uma das cabeleireiras de maior renome em S. João da Madeira.
É pelo número 53 da Rua António José Oliveira Júnior, onde está há 42 anos, que passam até hoje clientes que a acompanham desde essa altura. “A arte de cortar o cabelo vai muito além do corte, tesoura e máquina”, assume.
“Antigamente, poucas pessoas iam ao cabeleireiro. Só as pessoas da elite e as senhoras saíam sempre muito belas do salão”, recorda.
A pequena Judite estudou, mas a sua vontade foi sempre trabalhar como cabeleireira, porque vivia intensamente a arte de “mexer” nos cabelos. “Sinto que tenho uma veia artística. Ser cabeleireira é muito mais do que cortar ou esticar cabelos. Não gosto de coisas simples. Gosto de me desafiar”.
Por isso, não admira que ao longo de todo o seu percurso profissional, sempre tenha sido procurada por noivas e as grandes passerelles são “o meu mundo”. Assim, no seu currículo consta que trabalhou “com grandes nomes da moda” e em S. João da Madeira e participou em vários desfiles de moda com o estilista sanjoanense Miguel Vieira.
S. João da Madeira tem cerca de 300 cabeleireiros
Quando abriu o seu salão de cabeleireiro, esta cidade tinha apenas quatro espaços. Atualmente, garante que há mais de 300. “Não sei se há a mais ou a menos. As minhas clientes sabem fazer a separação do que querem e de como se sentem bem”. Orgulha-se de ter ainda clientes desde o dia em que abriu as portas. “Sinto-me orgulhosa ter no meu salão clientes regulares. Uma delas tem 95 anos e faz questão de andar sempre muito bem arranjada. A minha casa já foi a escola de muitas profissionais”, revela.
E quanto às mulheres de S. João da Madeira, se são vaidosas, lá vai dizendo que “já foram mais”. Conta que quando decorria um espetáculo ou evento, “todas as mulheres vinham ao cabeleireiro. Hoje isso não acontece porque muitas deixaram de ter possibilidades para isso”.
Este afastamento explica que também acontece porque a oferta de materiais de cabeleireiro que estão “à venda em todo o lado, faz com que cada vez mais sejam as próprias mulheres que se preparam em casa”.
Lembra o período difícil da pandemia. “Custou-me muito. Senti-me perdida. Faltavam-me as pessoas, as conversas e o ritmo. Não sou pessoa de parar. Dentro do salão mudo sempre tudo”.
Fez formações em Barcelona, Paris, Londres, Berlim, Alemanha, Bruxelas, Nova Iorque, Milão, Bolonha, Veneza, Las Vegas e Hollywood, Lisboa e Porto.
Quer fazer 50 anos de salão e depois “vou pensar se continuo a trabalhar ou não” (risos).
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