
A elevação da aldeia de S. João da Madeira a vila aconteceu em 1922 e foi-lhe atribuído o estatuto de concelho em 1926.
Será, certamente, saudável trazer para a comemoração do centenário do Município a idealização visionária do que podemos trazer para o cenário de futuros possíveis, que dependam da nossa capacidade de imaginar e empreender ações que tragam riqueza, conforto e beleza à cidade.
A qualidade de vida e a coesão social, já em boa parte alcançadas, são desafios recorrentes com a ambição de levar longe o trabalho de influenciar e valorizar desenvolvimento nas múltiplas dimensões e esferas da vida, onde relevam a económica e a cultura, ambas dependentes da capacidade de empreender, acompanhando a evolução dos tempos.
A reflexão sobre o princípio da divisão administrativa do território e da organização dos poderes, com a inerente distribuição de atribuições e competências de governança pública entre os níveis central, regional e local, estará sempre na ordem do dia, desafio que não tem fim onde se tecem os valores da democracia e as vantagens da subsidiariedade. Também o ordenamento do território, entendido como a arrumação da casa, apresenta-se como tarefa permanente no desempenho das autarquias para dar resposta às novas equações socioterritoriais. Os valores inerentes à identidade concelhia trazem consigo o privilégio das respostas que alicerçam a consciência das comunidades para traçar e realizar o seu próprio destino.
A comemoração deste centenário é motivo para a busca afetiva de memórias sobre acontecimentos datados que pedem reinterpretações que ajudem a compreender o presente e a densificar o necessário trabalho de pré meditar sobre o futuro.
Daí a necessidade de investir na produção de conhecimento sobre o que significa hoje ter o estatuto concelhio face às mudanças e transferências de competências que estão em curso entre as esferas local, regional e central, onde se posiciona também o nível da União Europeia (UE).
O sucesso de S. João da Madeira assenta em atrair gente dada ao trabalho e proporcionar condições favoráveis ao investimento. Esta é uma postura política em que S. João da Madeira foi pioneiro com a instalação da 1ª fábrica de chapelaria em 1802, a que se seguiram outras. Nos finais do século XIX, então ainda como freguesia pertencente a Oliveira de Azeméis, que então era um concelho de matriz rural em flagrante contraste com a atividade industrial notada na aldeia sanjoanense, esta próspera aldeia afirma-se como um dos polos industriais e económicos mais relevantes do Distrito de Aveiro. O desenvolvimento económico refletiu-se no emprego e no crescimento populacional, a tal ponto que em 1922, em plena 1ª República, a aldeia passou a vila, tirando partido da acessibilidade à rede ferroviária nacional através da Estação da Linha do Vouga inaugurada em 1908 por sua Majestade o Rei.
A mecanização com recurso à energia a vapor, a comercialização levada aos mercados em todos os continentes, a gestão informada, organizada, prudente e ousada na justa medida dos riscos, foram predicados de uma inovação continuada.
Vimos todas as fábricas a enfrentar os tempos de mudanças tecnológicas, as fatalidades dos produtos que evoluíram ou que simplesmente passaram de moda, os desafios à procura de novas respostas e isso merece análise e reflexão.
Merece atenta consideração o facto de o desenvolvimento sanjoanense ter atravessado ruturas de regimes, períodos de grave turbulência política, sem deixar de crescer e de ter uma diplomacia de mérito próprio, contrastante com a economia anacrónica dominante o que, porventura, explica o facto de passar quase incólume às mudanças devidas às revoluções e intrigas que marcaram o fim da monarquia, a 1ª República e o Estado Novo. Dai o espanto de, à data de 1926, o processo com vista à instituição do novo concelho, que estaria já avançado na vigência da 1ªRrepública, ter prosseguido normalmente, sem encontrar oposição dos novos poderes a ponto de ser ultimado escassos meses após a Revolução de 28 de Maio de 1926 já com o Estado Novo instalado.
Além do sucesso excecional do tecido industrial da aldeia, a imprensa local (representada pelo O Regional) teve uma intervenção relevante na conquista da autonomia inerente ao estatuto de Município, ficando livre de uma dependência administrativa deslocada.
Cumpre-nos comemorar o municipalismo que, além de alicerce da nação, constitui-se como solidária estrutura administrativa pública de proximidade, também como saudável contrapoder orgânico, essencial como fator de equilíbrio dos poderes do Estado, moderando os pecados dos excessos de centralismo.
As autarquias são fundamentais para a tarefa de reforço da economia e do bem-estar, sendo chamadas a cumprir e aprofundar as responsabilidades da governança local, com a inerente autonomia administrativa, mas prestadora de contas no âmbito das regras da definidas na Lei e no respeito pelos princípios e valores da democracia representativa e participativa, auditada e escrutinada nos atos eleitorais. Esta base local da governação é fundamental para a coesão social e para reforçar o poder central do Estado como órgão de soberania num mundo de poderes difusos e de dependências complexas. A comemoração dos 100 anos do concelho é um bom motivo para densificar o conceito do municipalismo e a tradição industriosa que está na base da cultura económica sanjoanense.
S. João da Madeira, 11 de outubro de 2023
*Comissário daComemorações do Centenário do Município
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