
Mentha 1 - Diz a lenda que Xerazade, lendária rainha persa, bebia chá de menta, enquanto contava ao rei Xarir a interminável história que adiava a sua morte e que acabou por evitá-la. Não sabemos se ao chá de menta se deve tão grande poder, mas, quando nos falta a imaginação, nada como experimentar. Por ser relaxante e aromático, este chá é símbolo de amizade, de hospitalidade e de abertura ao convívio. Quando entramos nos Souk em Marrocos e na Tunísia, ou no Grande Bazar de Istambul, não é raro oferecerem-nos chá de menta. A seguir, vem o negócio…
Mentha 2 – A mentha ausente, em “A cidade e as serras”, de Eça de Queirós. Em Tormes “…o caldo, que era de galinha e rescendia…Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia…” Mas Jacinto esqueceu-se de pedir um ingrediente. Imperdoável! Hortelã! Sem hortelã, a canja de galinha não é canja de galinha. Está visto: na Paris de Jacinto havia tudo, menos canja de galinha com hortelã.
Mentha 3 - Lascas de pão duro sobrepostas numa malga. Um refogado de poejo, com azeite, salsa, cebola e alho. Uma posta de bacalhau cozida no refogado, a que se acrescentou um pouco de água. Quando o bacalhau estiver cozido, abrir um ovo sobre o caldo e escalfar. Despejar tudo sobre as lascas de pão, não deixando que a gema do ovo se desfaça. Escorre-se a água. Um pouco de azeite por cima e temos as sopas de bacalhau, à moda da minha avó Maria da Luz.
Mentha 4 – No cais da Ribeira de Pardelhas, há uns anos: caldeirada de enguias, amarelinha e caldosa. Aqui não cometeram o erro de Eça de Queirós. Havia hortelã, muita hortelã! E também no Vale do Côa. Depois de observarmos as gravuras, restou algum tempo para passear com o guia pelo leito do rio, “está a faltar-me uma coisa no meu quintal, vou ali ver se encontro.” Daí a pouco o guia regressou triunfante, com uma touça de erva escorrendo água. “Hortelã da ribeira!”. Tem a folha mais fina, é diferente da hortelã comum que usamos na canja. “Esta é especial para caldeiradas de peixe do rio”.
Hortelã-pimenta, hortelã comum, poejo e hortelã da ribeira, quatro variedades da família Mentha, onde se agrupam – pasme-se – quarenta e nove espécies, todas odoríferas, mas todas diferentes.
E nem os poetas escapam à magia da hortelã. Fernando Pessoa descobriu-lhe uma propriedade: “Quem vende a verdade e a que esquina? / Quem dá a hortelã com que temperá-la?” Mesmo que a verdade não precise de temperos, Cesário Verde não se esqueceu de colocar “o ramo de hortelã que cheira” na giga da sua hortaliceira.
E eu, que não sou poeta, decidi beber chá de menta, antes de começar a escrever esta crónica.
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