
Um apagão de electricidade sem precedentes deixou, na última segunda-feira, dia 28, a cidade sanjoanense praticamente paralisada, durante quase dez horas. O corte de energia, que teve início pelas 11h30, afetou toda a cidade, obrigando ao encerramento de estabelecimentos comerciais, farmácias, supermercados, bancos e outros serviços essenciais.
Ao longo das principais avenidas, e no centro da cidade, muitas lojas encerraram portas ou passaram a funcionar de forma muito limitada. Nas poucas que permaneceram abertas, as transações passaram a ser feitas exclusivamente em numerário, e os registos processados manualmente. Em várias entradas podia ler-se a mesma mensagem: “Encerrado, devido à falta de energia.”
Semáforos desligados, comunicações falhadas e farmácias impossibilitadas de aceder a sistemas informáticos foram muitas das consequências imediatas da falha de fornecimento eléctrico. A situação gerou preocupação junto da população, que acorreu rapidamente a supermercados e postos de abastecimento.
Durante a tarde, formaram-se filas junto a vários espaços comerciais e bombas de gasolina. A elevada procura levou à escassez de diversos produtos, entre os quais pão de forma, bolachas, queijo, fiambre, iogurtes, água e enlatados.
A procura por tabaco também aumentou, mas as máquinas automáticas tornaram-se inúteis sem energia. Só mesmo a compra a dinheiro.
A ausência de comunicações dificultou também o funcionamento de vários serviços, deixando muitos cidadãos sem acesso à internet ou a chamadas telefónicas.
Maria Resende foi uma das sanjoanenses que diz ter sentido o desespero da falta de comunicações e do corte da luz. “O meu filho tinha ido passar o fim de semana a Paris, e não sabia nada dele e a que horas chegava. Só depois das 21 horas, é que consegui ligação”. Pedro Lopes diz que também não ganhou para o susto. “Simplesmente fiquei preso no elevador de minha casa das 11h30 até às duas da tarde. Sem sinal nas telecomunicações, com o prédio sem pessoas teve que aguardar pelo representante do condomínio, que andou a fazer a ronda pelo edifício, e lá me encontrou”, explica a ´O Regional´.
A reposição da electricidade iniciou-se de forma faseada ao final do dia, mas a maioria dos sanjoanenses só viu a luz regressar já depois das 21h00.
Não há registo, nos últimos anos, de uma interrupção tão prolongada e com impacto tão significativo em S. João da Madeira. As causas do apagão continuam por apurar, mas as autoridades estão a investigar o incidente e a avaliar os danos causados.
Instituições e escolas
Na manhã de terça-feira, a Câmara de S. João da Madeira realizou um balanço da forma como o apagão da véspera foi acompanhado na cidade, numa sessão que decorreu no Fórum Municipal, com a presença do presidente e vice-presidente da autarquia, assim como do coordenador da proteção civil municipal. Estes três responsáveis tinham passado grande parte do dia anterior no quartel operacional dos Bombeiros, nas Travessas, liderando a célula de monitorização da evolução da situação no concelho, na sequência da falha elétrica que afetou toda a Península Ibérica.
A escolha das instalações da corporação sanjoanense para acolher essa estrutura de acompanhamento teve em consideração o facto de aí estarem asseguradas condições de operacionalidade, em virtude da existência de um gerador, permitindo, de alguma forma, contornar constrangimentos provocados pelo apagão no acesso e difusão de informação e no estabelecimento de comunicações. Dessa célula fizeram ainda parte o diretor-geral da empresa municipal Águas de S. João, o comissário da PSP, a técnica superior de Proteção Civil da Câmara e elementos do comando dos bombeiros.
No âmbito desse trabalho, foi realizado, em primeiro lugar, “um levantamento dos pontos críticos que podiam necessitar de intervenção municipal”, segundo revelou o presidente da Câmara, adiantando que se estabeleceu contacto com “diversas entidades gestoras de instituições ou estabelecimentos”, como a Misericórdia, com uma especial atenção à sua unidade de cuidados continuados, o Centro de Hemodiálise, o Centro de Saúde e o Hospital. “Procurou-se verificar necessidades destas instituições e de que maneira é que a proteção civil as poderia satisfazer”, revelou Jorge Vultos Sequeira.
Questionado pelo nosso jornal sobre o impacto do apagão nas escolas públicas do concelho, o autarca informou que “em oito cantinas não foi possível servir a refeição completa, porque a luz falhou enquanto as refeições estavam a ser preparadas, confecionadas”. Ainda assim, “parte da refeição foi servida”, mas não será cobrado o preço dessa refeição. Adiantou que os estabelecimentos de ensino não deixaram de funcionar na segunda-feira e que a situação já estava normalizada no momento em que decorria o encontro com a imprensa.
Abastecimento de água
O abastecimento de água foi outra das áreas que mereceu especial atenção, daí a presença do diretor-geral das Águas de S. João na célula de crise do quartel operacional das Travessas. A Câmara contactou ainda, pelas 14h00, a empresa Águas do Douro e Paiva, que abastece cerca de 50% da água da rede de S. João de Madeira, tal como acontece com vários concelhos de toda a região. Essa entidade acabou por cortar o fornecimento, por ter ficado “sem eletricidade para bombear água do Rio Douro e para a transportar às diversas estações”.
Perante esse quadro, constatou-se a necessidade de “hierarquizar abastecimentos”, por forma a garantir o “abastecimento contínuo e ininterrupto” às unidades de saúde do concelho, mesmo que o apagão se prolongasse para lá da capacidade das reservas de água da cidade, que têm uma autonomia de cerca de 24 horas, em situação de consumo normal. Assim, em algumas zonas da cidade registaram-se cortes no abastecimento de água, designadamente entre as 20h00 de segunda-feira e as 2h00 da madrugada de terça-feira.
A reposição do serviço foi efetuada depois de o presidente da Câmara ter recebido uma chamada do administrador das Águas do Douro e Paiva, a informar que “o abastecimento tinha sido reativado”. O edil explicou ainda que podem ter acontecido também problemas de abastecimento em prédios que utilizam bombas elétricas para elevar a água e que ficaram inoperacionais no período do apagão, sendo que essas situações não estiveram relacionadas com eventual falta de abastecimento público.
No encontro com a imprensa realizado na terça-feira, a Câmara Municipal informou igualmente que, enquanto a internet e as redes sociais estavam ativas, foi divulgado um número de telefone dos bombeiros – que estava operacional – que fossem reportadas possíveis situações de emergência.
Geradores e combustível
Jorge Vultos Sequeira lembrou que a autarquia colocou um gerador no Centro de Saúde, em articulação com a Unidade Local de Saúde (ULS) de Entre Douro e Vouga, tendo os bombeiros fornecido combustível ao gerador do Centro de Hemodiálise de S. João da Madeira, além de ter sido ativado. através da Autoridade Nacional de Proteção Civil e da E-Redes, um gerador desta entidade gestora da rede elétrica para colocar na captações municipais dos Ribeiros, para garantir a continuidade de seu funcionamento, caso a falha de energia nacional se prolongasse e não fosse, entretanto, reposto o serviço das Águas do Douro e Paiva.
“Também foi feito o levantamento dos pontos em que existia combustível disponível e foi constituída uma reserva de combustível em Matosinhos, no centro logístico da CEPSA”, prosseguiu o presidente da Câmara de S. João da Madeira, acrescentando que essa articulação foi feita entre o serviço municipal de proteção civil e a autoridade sub-regional de proteção civil, para prevenir eventuais “necessidades urgentes de combustível”.
Novos equipamentos
Em termos de comunicações, os responsáveis envolvidos no acompanhamento da situação em S. João da Madeira chegaram a recorrer ao SIRESP – Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal –, utilizando um conjunto de vários terminais adquiridos para a proteção civil municipal, o que se revelou “muito útil”, pois houve um momento em que foi necessário assegurar dessa forma a comunicação entre a câmara, a PSP e os bombeiros,
O presidente da Câmara deixou palavras de agradecimento a essas instituições, bem como às Águas de S. João e à proteção civil municipal, pela participação destas entidades na resposta à situação provocada pelo apagão de segunda-feira. Jorge Vultos Sequeira assinala ainda que o Município vinha já a dar passos, “antes desta crise”, que vão permitir acautelar melhor situações que possam surgir futuramente.
Referiu em concreto a candidatura a fundos europeus para aquisição de “um gerador de grande potência para a cidade”, assim como a candidatura para financiamento da construção de uma nova célula no reservatório da zona do Parrinho, por forma a que S. João da Madeira possa ter “mais água armazenada”, possibilitando ao concelho ter maior autonomia a esse nível. “São decisões que não foram tomadas de ontem para hoje, já estão tomadas há meses e que estão agora a aguardar a aprovação dessas candidaturas”, realçou o autarca.
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