Opinião

Viajar

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Hoje, assiste-se a um apetite insaciável em viajar. Apanhar um avião e ir a um destino qualquer. De preferência, aonde não foram ainda os amigos ou familiares. Viajar é, pois, um propósito firme de muita gente. Nem se percebe como se encaixa tanta viagem nos “mapas de férias”, o que deve, com certeza, obrigar a um estudo apurado do calendário, com um ano de antecedência.
Compram-se viagens online, que já não são tão baratas como eram antes da pandemia, mas isso parece pouco importar. O que realmente é importante para muita gente, é circular e dizer depois que se foi aqui e acolá. Viajar muitas e muitas vezes.
Tenho dúvidas se vão a lugares que lhes tenham despertado interesse em particular, ou que os motivaram por alguma curiosidade cultural.
Quando estou no Porto e sinto no céu um avião a passar de 3 em 3 minutos a desaguar bateladas de gente no aeroporto de Francisco Sá Carneiro, fico perplexo e penso como o Porto se tem transformado na última década. Uma espécie de montra que recebe milhares de turistas semanalmente e que os vou vendo pelas ruas numa espécie de estado de hibernação. Muitos deles parecem “zombies” e até com um certo ar desgraçado, pouco feliz que seria natural de quem visita algo de novo. Provavelmente também eles sentiram uma necessidade profunda em viajar e até vieram a uma cidade que descobriram num “advisor” qualquer, dizendo que era um destino imperdível. Viram também que o Porto estava bem cotado nos “rankings”.

Mosteiro de Alcobaça
Mosteiro de Alcobaça - Igreja

Depois estes turistas, atravessam sempre as mesmas ruas deambulando pelas esplanadas. Encharcam-se em copos de vinho de Porto ordinário, que até acham barato, passam pelas lojas com canetas a 300,00 , que não compram, e voltam às esplanadas. Depois impingem-lhes uma viagem de autocarro do tipo inglês de dois pisos, passam pela maravilhosa Av. da Boavista, atravessam a Av. Marechal Gomes da Costa que está em obras há um ano, e finalmente respiram fundo quando veem o mar na Foz do Douro. No regresso, levam-nos por fim, a ver os ossos da igreja de S. Francisco e porque o Porto tem muitas subidas e descidas fazem muitas pausas nas esplanadas que estão sempre prontas a recebê-los para degustarem cachorros e hamburgueres lusitanos e personalizados. À noite nas ruas proibitivas ao trânsito automóvel, mais esplanadas até ficarem bem anestesiados com “Gins” marados.
E assim se revela a frequência do turismo portuense, na sua avassaladora maioria. Haverá uma elite mas essa não conta. Hospedam-se em hotéis que nem são portugueses.
Será isto um bom sinal para a transformação do Porto? É com certeza um excelente negócio para o grosseirão do dono da Ryanair que se farta de gozar com os portugueses.
O Porto arrecada milhões de euros anualmente só em taxas de turismo sobre o alojamento, até porque somos bons em impostos (parece que querem duplicar a taxa!). A Câmara Municipal delicia-se com a receita, e dizem alguns que até é benéfico para a cidade. Traz mais desenbolbimento ! Na mesma óptica do taberneiro que encara os seus clientes alcoólicos e lhes vais enchendo o copo. Ou do alfaiate que vai fazendo um fato em cada mês para aquele cliente obeso.
O Porto vai-se transformando com esta avalanche de turismo incontrolado de gente que vem e para a qual a cidade até tem que estar preparada para os acolher com a simpatia lusitana. Entretanto os residentes do Porto fogem para as periferias pois não aguentam a pressão. Até as gerações mais novas se enjoam de tanto turismo. Entretanto as redes sociais apregoam os americanos estão a ultrapassar os espanhóis, mas os ingleses continuam em 1.º lugar. Tudo nos “ranking”.
No fundo até me parece que é contraditório quando se fala em sustentabilidade no planeta ver tanta deslocação de avião.
Por tudo isto acabo por recomendar ao Leitor aquela máxima de outrora:
– Viajar, façam-no cá dentro !
Em boa verdade Portugal tem destinos maravilhosos que ficam à frente dos chateaus franceses. Por exemplo, já foi ao Mosteiro de Alcobaça? Ou conhecer algum dos 170 castelos Portugueses? Ou ir até ao Marvão? Arraiolos? Ou ainda, Miranda do Douro, junto à fronteira com Espanha? Ou Viseu? Considerada a cidade portuguesa com melhor qualidade de vida? Por um ranking, aliás?
Não é preciso de facto ir para muito longe para relaxar e conhecer. Não somente ir para “gozar”, como frequentemente se houve.
Porque afinal não é preciso ir para muito longe para nos sentirmos mais ricos interiormente e preencher melhor as nossas vidas. É preciso de facto viajar mas com sentido de curiosidade direccionada e moderação, percebendo os destinos que se escolhe com profundidade.

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