
Como acontecia com quase toda a nossa pequena elite, e como convinha a um católico da altura, Serafim Leite simpatizava com Salazar e o Estado Novo. Tinha nascido no lugar da Quintã, no dia 6 de abril de 1890; numa terra pequena, como Salazar, que era um ano mais velho; numa família simples e remediada. À semelhança do que sucedeu com alguns dos mais seletos conterrâneos, o verdadeiro acontecimento da sua meninice foi a ida para o Brasil. Fez primeiro os estudos primários com um tio padre, antes de ser internado nos Carvalhos, num seminário preparatório da diocese do Porto. Parece dado como certo que, por esses anos, ainda sem a devida inclinação e predisposição para aquele género de vida. Decidiu então seguir o pai até ao norte do Brasil. Tinha quinze anos quando iniciou negócios com a borracha no oeste do Pará, numa antiga aldeia índia perto do rio Gurupatuba. A aldeia, que na língua dos tupis significava lugar de muitos seixos, chamava-se agora Monte Alegre. Pelo Brasil tinham andado a deixar obra, no século XVI, os padres missionários Manuel da Nóbrega, português e jesuíta, e José de Anchieta, também jesuíta, mas nascido nas Canárias. Ambos muito inquietos e apreensivos, como era de esperar, com a nudez dos índios, eles e elas. Habituaram-se, por isso, a tentar levar-lhes a roupa que, como escreveria muitos anos depois Serafim, num livro publicado em Coimbra, se impunha para a decência e resguardo do pudor cristão. Os dois padres serviriam de modelo a Serafim, a vários títulos e pretextos: não só a saber guiar com destreza uma frágil e pouco resistente canoa, nas suas viagens solitárias por rios maiores do que o normal, a transbordar, a subir margens, como também a aprender a falar a língua dos tupis. E habituou-se também, como Nóbrega e Anchieta, a escrever regularmente, com atenção aos detalhes e às vivências extravagantes, ocultando-se atrás de um pseudónimo com indícios de nostalgia e lembranças afetuosas. Serafim Leite, guarda-livros de um comerciante de Monte Alegre, tornara-se João Madeira. Publica o seu primeiro conto em 1911, Joel e Fátima, numa gazeta local.
O conto de Serafim foi visto como uma predição, a epifania maravilhosa que estava para se revelar. Todos sabemos como, seis anos depois, o nome Fátima se tornou familiar em Portugal, no ano em que fomos forçados a ir para a guerra e a Rússia se tornou bolchevique. Serafim tinha regressado à Europa no começo dessa guerra. A monarquia tinha caído há quatro anos, o estado da pátria era lastimável, detestável, com o desvario dos sucessivos governos republicanos. Quando chega à Bélgica, onde estava exilado o tio padre, Serafim sentia-se mais próximo do que nunca de Nóbrega e de Anchieta: queria professar na congregação religiosa católica fundada, em 1534, por Inácio de Loyola. Acabou por escrever uma das mais notáveis histórias da Companhia de Jesus. E por revelar que só a podia ter concluído com sucesso, muitos anos depois de Nóbrega e de Anchieta, por ter convivido com selvagens brasileiros. Ouviu-o com atenção um repórter do nosso jornal, em janeiro de 1940: Realmente convivi muitos anos com os índios do Alto Rio Negro, selvícolas do Padaueri e do rio Vaupés. Aprendi a língua geral deles, que é a mesma que os índios falavam no tempo de Anchieta e Nóbrega. Esse contacto com os índios permitiu-me, ao escrever a história da Companhia de Jesus, fazer coisa diferente que um trabalho de gabinete, coisa mais prática e mais real. Ao conhecer in loco o ambiente, os costumes e o modo de vida dos selvagens, compreendia as preocupações dos padres na educação dos índios e compreendia também como estes se deixavam enganar pelos colonos. Quatro séculos depois de Nóbrega e de Anchieta, era possível reconstituir perfeitamente o ambiente que os missionários encontraram ao chegar àquelas regiões. O tempo passara ali sem grande pressa, assim pensava Serafim: O índio é o mesmo, o colono é mais ou menos o mesmo, embora o Estado vele mais pelos selvagens.
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