Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

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Aquele número quatrocentos e oitenta do jornal dirigido por José Soares da Silva foi uma desmedida deificação da pátria. Nunca uma perífrase, a do melhor país da Europa e do Mundo, se ajustou tão bem ao significado nacionalista, no passado e no presente. Reproduzimos a página dois, onde, na colunazinha da esquerda, surgiu o texto do nosso jesuíta. Na do meio, com engenho e lógica e a associação festiva do nosso jornal ao programa das comemorações dos centenários, sempre à volta dos cuidados renovados da pátria, as fotografias ovais, devotas e quietistas, do marechal Carmona e do professor Salazar. Foi Belmiro António da Silva quem, no meio da página, prestou homenagem aos feitos heroicos dos nossos antepassados, aos seus exemplos de bravura e de patriotismo, de fé e de coragem. Com esses modelos, todos nós aprendíamos a servir melhor Portugal, preparando-nos para as contingências e os acidentes da existência nacional. Ao estimular a memória dos primeiros dos nossos reis, o da primeira e o da última dinastia, tínhamos em vista o presente, o do marechal Carmona e do professor Salazar; e com eles, seguindo-os pressurosos, prepararmos o nosso futuro. Todos os colunistas anuíam com Belmiro. Veja-se o caso do padre Jaime Boavida: com as comemorações centenárias e com o seu significado, Portugal inteiro vai entrar em festa. Por todo o lado, de monte em monte, de cidade em cidade, profetizava o nosso padre, para dar a conhecer o que fomos e fizemos em terras remotas e, à face do que estava a fazer Salazar, o que iríamos ser no futuro.
O padre Boavida confiava no alvoroço controlado. O ano de 1940 era, na sua matriz, o ano do velho Portugal que se faz jovem, com uma nova geração a seguir um Chefe que sabe o que quer e que, melhor do que ninguém, soube encarnar as virtudes e as aspirações nacionais de um povo que Deus fadou, providencialmente, para ser o pregoeiro do seu nome através dos mares e dos continentes. Com Salazar, em todas as montanhas e em todas as cidades, os nossos concidadãos recuperavam a consciência da sua vocação, decididos a marchar avante nos caminhos da civilização cristã, de que fomos sempre arautos intimoratos. O padre acreditava ser de justiça rememorar os feitos dos nossos heróis de todos os tempos, acendendo nos corações portugueses aquele braseiro vivo e intenso da fé e do amor pátrio que tanto nos mobilizou em eras passadas. O selo português era imorredouro. Era um selo que se tinha derramado por todo os cantos do mundo, pelo vasto império, desde o risonho e ditoso jardim à beira mar plantado até aos confins da África, da Ásia e da América. Entre os risos de alegria e as lágrimas de enternecimento, o recolhimento da memória e, sobretudo, a esperança no futuro, os altares da pátria ficaram cheios de lumes e de flores. O nosso padre tinha uma crença profunda: diante de tantos altares incertos, se tivermos em conta o número reduzido de habitantes e a sua adrenalina desigual e desequilibrada, que nem sempre nos favoreceu, restava-nos, em 1940, com a chama da audácia, ir ajoelhar para recobrarmos as forças e alentos para novas empresas. Um sacrifício elevado e transcendente pela honra e pela liberdade da nossa terra.
Enquanto a Europa se debatia em guerras e dissensões de morte e destruição, Portugal afirmava-se só, sem companhia, pacato, uma ou outra vez fraldiqueiro neste cantinho abençoado pelas chagas de Cristo em Ourique e pelo sorriso de Nossa Senhora de Fátima, num anseio santo de paz e de caridade, de ordem e de progresso que abranja todos os homens no mesmo amplexo de amor de irmãos de Cristo. As dezasseis páginas do nosso jornal tornaram-se constantes e invariáveis. Independentemente da qualidade dos textos, todos comungavam da mesma maré alta e dos mesmos frémitos de entusiasmo. Com a sua proverbial oratória, como exemplo, o diretor do nosso colégio aproveitou o espaço concedido para lembrar a fortaleza moral do peito ilustre lusitano. José Cerqueira de Vasconcelos tinha algumas boas ideias sobre a estrutura do nosso povo: essa estrutura só pode ser sustentada por uma consciência nacionalista que retempere as energias e crie a força viva e estimuladora da individualidade política. Portugal nascera da vontade estoica de um príncipe, mas o remate natural dessa autonomia foi, como pensava Cerqueira, a ambição constante e deliberada de criar uma vontade coletiva. Foi essa vontade que criou a fisionomia de Portugal. O professor apreciava clássicos como João de Barros. Para o cronista do século XVI, que viveu numa época de desencravamento, a nação portuguesa, hoje mais que nenhuma outra, conserva a gravidade e desejo de honra que antigamente sabia ter o povo romano. O tempo avançou desde Barros, mas a realidade espiritual lusitana, no juízo de Cerqueira, independentemente de todas as escravidões naturais e de todos os egoísmos particularistas, conservou os mesmos atos de fé e a mesma redenção moral, a nobreza moral do ilustre peito lusitano. 1940 eternizava esses valores. Como o fizera Vasco da Gama, quando revelou os seus compatriotas ao samorim de Melinde na sua excelência de lealdade firme e obediência.

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