
Os nossos cidadãos estavam em forma e ativos como sempre. Nas poucas ocasiões em que tinham tempo para ler os jornais da terra, não o desperdiçavam excessivamente a labutar ingratidões, com queixinhas melindrosas e conotações ofensivas, ou a arranjar bodes expiatórios. Que os havia, como todos sabemos, desde a falta de telefones diretos ao Porto, a luz frouxa e mortiça nas ruas e vielas ou os enervantes atrasos do comboio de Espinho. Peguemos num jornal, do ano de 1922, dos últimos dias de janeiro. Tudo pode ter acontecido num domingo cinzento, sem sol, quando ler um jornal era uma atividade aceitável. Sentemo-nos para o folhear, com uma chávena de café quente na bandeja. Não podíamos ficar a par de tudo o que acontecia na nossa terra e no mundo. Estamos a ler a página três. As más notícias circularam naquele dia 15 de janeiro. Eis o crime ocorrido no Couto, o lugar de Vila Nova enquanto teatro de uma perversa iniquidade. Outra vez uma baiuca, suja e mal frequentada, como o desagradável lugar dos maus hábitos, o repreensível sítio do delito e da transgressão. Eram vinte e duas horas, noite cerrada e fria. Nem a brincar, Margarida Rosa de Jesus, a dona da taberna, ficou sem motivos para rir com a sorte do irmão, o marchante José Leal, conhecido na terra pelo ´José da Joaquina´. Com o seu ar arrapazado, um ar de maluqueira, o filho da Joaquina enfureceu-se à brava com Manuel de Oliveira, conhecido na região pelo ´Janita´. Aparentemente, foi o consumo de tabaco, e não o excesso de vinho, a causa derradeira da altercação. De qualquer modo, a discórdia acabou muito mal: José foi mortalmente atingido no peito por uma facada que lhe varou o coração. Manuel, o assassino, que vivia com Rosa, a irmã da vítima, foi preso pela GNR e levado para a cadeia de Oliveira de Azeméis. O nosso leitor lamentou a ocorrência, para mais sabendo que José deixava na aldeia viúva e filhos menores. Infelizmente, o que estava feito estava feito.
Quando o nosso patrício foi para a cama, relatos e histórias como estes não inspiravam particulares sentimentos de indulto ou de compaixão. As notícias nem sempre eram para levar excessivamente à séria, sobretudo quando falavam de ervas daninhas. Os músculos contraiam-se, irritadiços, com atrabile, adulterados pelo mau gosto das pessoas inferiores. Um esgar de repulsa, neurasténico, quando os nossos bons vizinhos deparavam com aquelas histórias de tipos censuráveis, que frequentavam as tabernas e que deviam ser corridos por isso. O tom da voz era pouco brando e macio, as sentenças deixavam de ser prudentes e cautelosas quando se referiam às excessivas entradas naquelas espeluncas. Mas havia outras notícias, ainda mais pesarosas, que deixavam nós entalados na garganta. Como esta, que estamos a ler agora, meia página abaixo: dois dias depois do crime do Couto, uma imprudência fatal tinha ceifado a vida de uma criança com apenas vinte meses de idade. Cena tocante e dolorosa. A criança tinha-se aproximado tanto de uma lareira que o fogo pegou o seu vestido. A menina estava abandonada em casa, na companhia de uma irmã mais velha, também menor. Bem gritou esta por socorro, mas, quando os vizinhos apareceram, já era tarde demais. A vítima foi levada à farmácia Laranjeira. Foram-lhe prestados os socorros necessários, mas a menina, na sua beleza inocente, não sobreviveu ao desastre. Fechemos os olhos para pressentir a negligência, o mau aspeto de uma criança queimada. A semana estava a ser realmente sinistra e funesta. Ficou ainda mais desgraçada, quando um temporal horrível assolou o país no dia em que a filha de Manuel Branco morreu queimada. Em S. João da Madeira, felizmente, ao contrário do que aconteceu na Murtosa, não houve mortos para lastimar; apesar da ventania ter sido muito forte, a tempestade apenas ocasionou o desmoronamento de alguns telhados e beirais, meia dúzia de pinheiros tombados e outros danos de menor monta. Mas, naqueles dias, os serviços religiosos não tiveram mãos a medir. No dia 20 de janeiro, nova fatalidade local. A má notícia veio de uma fábrica de serração a vapor: na ´Cardoso e Companhia Limitada´, um operário foi colhido por uma máquina; a perna ficou esmagada, a cabeça contusa. Levado para a farmácia Laranjeira, onde recebeu os primeiros curativos, o operário seguiu, num estado muito melindroso, para o hospital da sede do concelho. Terá sobrevivido?
Eram estes os factos com ecos que os nossos concidadãos ficaram a saber naquele dia 29 de janeiro de 1922. Havia ainda outras desgraceiras para contar, como aqueles surpreendentes casos de gente que corria o risco de dar em doida, com parafusos a menos. Um desarranjo emocional. Uns meses mais tarde, ainda havia quem recordasse o que tinha acontecido ao filho mais velho de Manuel Vaz da Silva, o ´Travessas´. Aos vinte anos, até então bastante sossegado e humilde, o rapaz tinha endoidecido, atormentando a família com inúmeras diabruras. Mais um caso para deplorar. Algumas notícias podiam ser atiradas diretamente para o caixote do lixo. Acabada a leitura do hebdomadário, o nosso concidadão levantou-se para descansar. Sabia que amanhã seria mais um dia árduo de trabalho e havia muita obra, da cabeça aos pés, para terminar. A leitura tinha acabado. Trabalho e honestidade eram a lição do nosso concidadão. Nos vidros da janela apareceram algumas gotas de chuva. Os dias não estavam quentes nem soalheiros, não havia indícios que o estado do tempo fosse melhorar nas próximas semanas. O comboio continuava a ser pouco pontual, embaraçando o tráfego de passageiros e de mercadorias; durante a noite, a luz iluminava mal as ruas e vielas, tornando-as perigosas e arriscadas; ainda não se conseguia fazer uma ligação telefónica direta ao Porto e ao mundo. O tipo de coisas a que estávamos habituados. Alguns de nós, referindo-os desdenhosamente, ficavam revoltados com os fraquinhos melhoramentos materiais. Nesse aspeto, parecia impossível mantermo-nos todos muito disciplinados, brandos e ordeiros, numa lassidão mal-humorada, à espera que as obras caíssem do céu. Notava-se como era preciso haver mudanças.
O nosso antepassado tinha crescido e envelhecido. Tinha aprendido com a vida. Entre amizades e rivalidades, contendo a respiração, nenhuma vez fora indolente ou preguiçoso. Acreditava que, atendendo ao modo como fez a sua vida, podia ser um bom modelo para a comunidade, uma ressonância legal e competente. Como tinha sido importante, desde o primeiro dia de 1922, o aparecimento daquele jornal para lhe dar voz e o ajudar a esclarecer a opinião pública, para defender os interesses da nossa abençoada terra. O nosso patrício estava ao lado daqueles rapazes com o sangue a estuar nas veias, cheios de ilusões e devaneios, alegres como o alvorecer de um dia de primavera, que não queriam malbaratar mais o tempo. Ele era um desses rapazes, ainda que um pouco mais velho. A pequenina Manchester lusa, com as suas chaminés e com os silvos estridentes das suas máquinas a vapor, não podia refrear o fôlego. Ao ler o jornal, o nosso concidadão começou a acreditar que era possível manter uma atitude moral mais requintada e esmerada, uma determinação ética mais enérgica e sofisticada. Para conservar a face limpa, convenceu-se de que era preciso vedar a entrada das crianças na sua fábrica. As enormes portas de ferro tinham de ser fechadas para ser possível derramar luz nos espíritos dos mais pequenos, espalhar as boas práticas e as melhores doutrinas; para que todos, percebendo que não estavam a mais neste mundo, aprendessem a defender o progresso material e imaterial da ditosa terra onde tinham nascido. Quem não desejava acender as lâmpadas da instrução entre um povo laborioso, mas ignorante, às vezes obtuso, para que qualquer um, como regra geral, numa postura de superioridade, pudesse vir a ser, no futuro, uma força viva, um industrial, um comerciante, um intelectual?... Na infância, ´estudar primeiro, levar todos à escola, os ricos e os pobres, instrui-los, fazê-los homens´..., havia um tamanho ajustado para as crianças... E depois...´e depois, sim, que vão lutar e sofrer, trabalhar e moirejar, que é essa a sina de todos.
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