
Uma feira do livro não é apenas um evento cultural que ocorre uma vez por ano para editores e livreiros expor e vender livros dos seus catálogos, mas uma oportunidade para divulgar livros, autores e leitores, não obstante oferecer um espaço de convívio e lazer para a comunidade. É certo que, nas primeiras décadas do século vinte e um, as principais feiras do livro em Portugal começaram a apresentar-se mais como parques de diversões para editoras, livreiros, autores e leitores do que eventos culturais mais lúdicos e sérios. Falo por experiência própria, devido às dezenas de sessões de autógrafos que tenho feito um pouco por todo o país, principalmente em Lisboa e no Porto, onde destaco com mais enfâse essa parafernália de equipamentos, que antigamente não faziam parte das feiras do livro, como carrinhas de Street Food, palestras para encontros literários, saraus e tertúlias, elevando estes certames a verdadeiros festivais literários encapotados.
A Feira do Livro de São João da Madeira não fugiu à regra e tem demonstrado uma vitalidade e um crescimento notáveis desde o seu aparecimento em 2022. Todavia, apesar das boas intenções por detrás deste evento, tenho constatado importantes deficiências no que toca às condições logísticas que os autores locais e reginais, emergentes ou não, tiveram de suportar este ano e nas edições anteriores. Se a Câmara Municipal de São João da Madeira e a Biblioteca Municipal Doutor Renato Araújo pretendem atrair cada vez mais público para a nossa Feira do Livro, providenciem melhores condições para autores locais e regionais que pretendam realizar as suas sessões de autógrafos em condições condignas, tal como acontece nas principais feiras do livro portuguesas e aconteceu aos autores convidados pelos organizadores da nossa Feira do Livro. Fará sentido um autor estar uma ou quatro horas a dar autógrafos ao sol, num stand que teve de pedir emprestado um guarda-sol, quando a Câmara Municipal possuía alguns que estavam a ser utilizados para o palco de encontros literários, em horas em que o sol não bate? E fará sentido os autores locais e regionais não terem direito ao mesmo tipo de divulgação que teve (e bem) a escritora Sara Dias de Oliveira, autora do livro “João da Silva Correia: o escritor inquieto”?
As Feiras dos livros não são feitas apenas para os leitores, os municípios, as editoras e os livreiros, mas também para os autores. Como uma vez disse Lídia Jorge, os autores, sejam eles emergentes ou famosos, são seres de liberdade e de libertação dos outros. Sempre que um autor faz uma sessão de autógrafos numa feira do livro, é uma oportunidade para um leitor partilhar uma experiência, receber um testemunho e um conselho, para além de um autógrafo, e abrir o seu coração para uma novidade literária e para o alargamento de novos horizontes, novas filosofias e novas linguagens. Que o executivo camarário sanjoanense que tomar posse após as eleições autárquicas de 12 de Outubro tenha em conta estas chamadas de atenção e faça da nossa feira do livro um espaço digno de promoção da leitura, da cidadania e de todos os autores, sem excepção, que aceitam abdicar de parte do seu precioso tempo com a escrita, sair do conforto dos seus lares e disponibilizando-se para darem a conhecer as suas obras e o seu percurso literário.
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