
Os apelos desesperados de António Guterres e dos especialistas da ONU ressoam no vazio do incumprimento de metas mínimas. As cimeiras sobre alterações climáticas, em vez de ocasiões para avaliar o progresso de compromissos e para ajustar políticas à dimensão da catástrofe em curso, tornaram-se momentos de um fracasso que, antes de o ser, já toda a gente espera.
A cada ano que passa, perde-se a credibilidade deste processo. Não só pelo perfil destas cimeiras, patrocinadas por poluidores, infestadas de lobistas e realizadas sob ditaduras brutais, como a do Egito do general al-Sissi (60 mil presos políticos) ou a dos Emiratos Árabes Unidos, que acolherá a COP do próximo ano. O atual contexto de confronto entre potências, crise energética e inflação, com o aumento dos lucros dos setores fósseis, traduz-se no adiamento da retirada de investimentos nestes setores e no aumento das emissões.
Cada vez mais longínqua, fica a meta da cimeira de Paris (aumento máximo da temperatura média em 1,5ºC), já de si insuficiente, como resulta evidente das recentes tragédias do Níger e do Paquistão (ocorridas com mais 1,1ºC de temperatura média face ao período pré-industrial). De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Ambiente, as atuais políticas, mesmo corrigidas pelos objetivos (não cumpridos) fixados em cimeiras anteriores, levarão a um aquecimento de 2,4ºC a 2,6ºC. Esta irresponsabilidade implica horrores de escala sem precedente histórico. A negligência perante este cenário é um crime contra a humanidade.
A única perspetiva de alteração de rumo é oferecida pela mobilização global dos povos, em nome de respostas ao aumento do custo de vida que sejam fatores de justiça climática. Esse movimento, popularizado pela jovem ativista sueca Greta Thumberg, deu os seus primeiros passos antes de ser interrompido pela pandemia e reemerge agora em diversas partes do mundo. Na Europa, destacam-se as manifestações da campanha Enough is enough, ligadas ao mundo sindical inglês, e a dinâmica lançada pela esquerda francesa.
O ponto central destes movimentos é a recusa do egoísmo nacional que ignora o clima em nome dos negócios. Por cá, a Iniciativa Liberal representa bem a defesa da liberdade do mercado para continuar a devastar o planeta. A caricatura dessa posição vem do Chega, que acaba de propor o licenciamento da prospeção e exploração de petróleo na costa portuguesa, ignorando a recente proibição dessa atividade pela Lei de Bases do Clima. Pelo contrário, a resposta à pressão da inflação deve vir do lado da defesa dos rendimentos e da oportunidade de reconversão económica a partir da criação de emprego na transição energética, seja nas áreas da produção de energia renovável, da reconversão do parque habitacional para a eficiência, na modernização do transporte coletivo e da produção industrial, ou na adaptação do território às alterações climáticas irreversíveis. Esses “empregos para o clima” e essa planificação ecológica são a verdadeira resposta à incerteza económica.
Em Portugal, as recentes mobilizações de estudantes desmascaram a hipocrisia dos discursos oficiais e das respostas de mercado. Claro que haverá sempre mais atenção dos media sobre um disparate inconsequente num país qualquer (como o pseudo-ataque a um quadro de Van Gogh). Mas o movimento por justiça climática - e a sua resposta radical aos crimes que estão a ser cometidos contra a natureza e contra a humanidade - será um protagonista permanente da vida democrática global, também em Portugal. É urgente que cresça.
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