Opinião

O furação CHEGA

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1. Mudou tudo na vida política nacional no domingo passado:
• Acabou o bipartidarismo entre PS e PSD. A bipolarização entre estes dois partidos deu lugar à tripolarização. Agora, há três polos bem marcantes– PS, PSD e Chega.
• O PS tem um dos piores resultados da sua história, perdendo em dois anos 12 pp, em grande medida por causa do Chega, que lhe tirou vários deputados. Tudo, apesar de durante anos a fio, os socialistas terem andado a dar palco a André Ventura. Saiu-lhes o tiro pela culatra. E, ao contrário do que se possa pensar, o PS não terá condições de regressar ao poder a curto prazo. A maré é a favor do Chega e não do PS.
• A AD teve uma vitória com sabor muito amargo, passou a ter um caminho muito estreito pela frente e só imitando a governação de Cavaco Silva no governo minoritário de 1985 pode aspirar a ter sucesso. O que tudo obriga a ter um governo forte, experiente e com permanente iniciativa. Se não for assim – e não é fácil repetir 1985 nem fazer um governo forte – o futuro da AD é muito incerto.
• O Chega é o grande vitorioso do dia 10 de março. Mudou numa noite o que vigorava em Portugal desde o 25 de Abril – a hegemonia exclusiva de PS e PSD no xadrez partidário; europeizou a vida política portuguesa – passámos a ter um partido populista forte, seguindo a tendência da Europa, o que prova que as modas lá de fora chegam sempre cá, ainda que com atraso; fez diminuir brutalmente a abstenção, levando a votar milhares de pessoas que há anos andavam arredadas da democracia, o que tem inegável mérito; e tornou incontornável que se olhe para uma realidade nova com olhos diferentes – mais de um milhão de eleitores que merecem atenção e respostas a sério.
2. Como várias vezes disse, os eleitores do Chega não são pessoas racistas ou xenófobas. Muito menos um bando de fascistas. São, apenas e só, pessoas zangadas. Zangadas com a política em geral e com o governo em particular; zangadas com os impostos altos que se pagam; zangados pelo estado miserável da saúde; zangadas pela falta de oportunidades para os jovens; zangadas pela falta de ética na política; zangadas porque não sentem um combate eficaz à corrupção; zangadas porque os grandes casos da justiça, de Sócrates a Salgado, começaram, mas nunca acabam, dando a sensação de que a justiça é forte com os fracos e permissiva com os poderosos.
A solução não é maltratar estas pessoas que estão zangadas e desiludidas. O caminho não é ostracizar estes milhares de eleitores. O rumo não é fingir ou fazer de conta. Só há uma resposta eficaz: governar bem. Resolver os problemas concretas de pessoas concretas. Dar respostas eficazes a reclamações tão justas quanto necessárias. Mudar a forma de governar, de dialogar e de comunicar.
Tudo mudou a 10 de março. Quem não perceber isto e continuar na mesma onda vai bater com a cabeça na parede. Quem perceber esta realidade e mudar de vida pode ganhar um novo estatuto no futuro. Não é fácil. Mas também não é impossível.

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