
Apesar de o nome desta coluna se inspirar na palavra “horta”, durante estes dois anos de escrita vagabunda, nunca as linhas se fecharam à abordagem de assuntos correlativos: plantas, bichos, lugares, acontecimentos, pessoas, fenómenos naturais… Mas faltava falar de jardins! Falha grave, porque um jardim é uma horta artística: tem terra, tem plantas e deseja-se que as plantas tenham flores. Não é pelas flores que se faz um jardim, mas um jardim com flores é mais jardim.
O jardim mais antigo de que ouvi falar foi o Jardim do Éden, com jardineiros desobedientes, que nos deixaram a pesada herança de termos que suar as estopinhas para continuarmos a ter jardins. A seguir, a História fala-nos dos míticos “jardins suspensos da Babilónia”, de cuja existência não existem provas. E o que os torna fascinantes é essa inexistência incerta, porque ela permite-nos imaginá-los, construí-los e desfrutar das suas belezas.

Má recordação nos deixou Getsémani, o “Jardim das Oliveiras”, onde um tal Judas “executou às claras” a traição que “traçou às escuras”. Assim no-lo diz Padre António Vieira, no seu Sermão de Santo António. Os gregos e os romanos também tinham belos jardins, mas não foi isso que os tornou célebres. A História foi avançando e, que me lembre, só Versalhes nos deixou jardins de jeito, talvez com geometria a mais, fruto da ideia absolutista de obrigar a natureza a obedecer à vontade do Rei-Sol. Mas não tardariam a surgir os ideais românticos, a defesa da liberdade individual, a inspirar jardins sombrios, curvos e recatados, espaços ideais para o reencontro do homem consigo próprio. Temos alguns: Palácio de Cristal, no Porto, vários em Sintra, nos Açores e na Madeira.
Como disse no início, sempre que possível e apropriado, estas crónicas passam por S. João da Madeira, terra onde também há belos jardins e belas rotundas floridas. Todavia, esta crónica não é sobre os “jardins oficiais”, é sobre os jardins anónimos, cultivados e acarinhados por jardineiros voluntários, nos bairros e avenidas na nossa cidade, do Orreiro e Fundo de Vila ao Parrinho, de Carquejido à Devesa Velha. O jardim da foto ocupa a frontaria de um prédio na Rua Manuel Luís Leite Júnior. Não sei quem o cultiva, mas fica aqui a representar a minha homenagem a todos os jardineiros voluntários e a todos os jardins anónimos que não cabem nesta coluna.
Sendo esta a última crónica antes da pausa estival, aproveito para agradecer aos leitores que me acompanharam ao longo destes meses e recomendo-lhes que desfrutem de toda a beleza do nosso “jardim à beira-mar plantado”, expressão do poeta Tomás Ribeiro, aqui utilizada sem segundos sentidos. Boas férias!
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