
Setembro já entrou e as férias vão acabando aos poucos. Sabemos que as plantas não têm direito a férias, mas também não podem ser abandonadas quando se ausenta o seu cuidador. Há agora sistemas de rega automática, que resolvem o problema eficazmente, mas os cinco metros quadrados desta horta não justificam tal investimento. Como se resolve então o problema? Costuma dizer-se que quem tem amigos não morre na cadeia, neste caso, quem tem amigos e vizinhos não deixa morrer a horta. Aqui fica o meu público agradecimento a quem, durante alguns dias, matou a sede dos tomateiros, da rúcula de amarelo florida, das alfaces, dos pimentos policromos, das couves e da flora restante, que conseguiu resistir a semanas de calor intenso e sufocante.
Menos sorte do que os meus viçosos legumes tiveram os milhares de árvores calcinadas pelas nossas serras, pintando agora de negro o que antes era vivo e verde. Dantes, quando as aldeias eram povoadas por mais gente e rodeadas por mais hortas e pomares, os incêndios morriam à nascença. Pastores, resineiros e agricultores caíam sobre as primeiras labaredas e o assunto ficava resolvido. A minha avó tinha muito medo das “uchas”, nome que se dava aos incêndios. Durante os anos da minha infância aldeã, apenas me lembro de ter ajudado a dominar um incêndio. Demoramos meia hora a apagá-lo. Alguns anos depois, houve um que durou dias e apagou toda a paisagem da minha infância aldeã.
A horta, como a vida, está permanentemente sujeita a imprevistos, uns positivos outros negativos. Além dos impiedosos ataques da passarada, o único imprevisto do meu verão agrícola foi o aparecimento de uma toupeira. Esta coluna hortaliceira não será o sítio mais apropriado para divagações filosóficas, mas não posso deixar de refletir sobre a nossa constante tendência para dividir o mundo em bons e maus. É certo que todas as civilizações, cada uma à sua maneira, definiram os conceitos de Bem e de Mal. Nesse particular, agrada-me mais a visão da filosofia chinesa, o Yin Yang representando forças opostas que coexistem e equilibram o universo. A dita toupeira, que esburacou, durante semanas, os canteiros da minha horta é, por si mesma, um sinal desse equilíbrio. Deve ter devorado umas dezenas de lagartas-roscas, mas, em contrapartida, não se desviou convenientemente da raiz de uma aboboreira e enviou-a desta para melhor. Mas as couves estão saudáveis, a rúcula prolifera e as alfaces começam a ganhar corpo.
Para maior felicidade, encontrei ontem a chuva a regar a minha horta e, hoje, uma equipa de limpeza a cortar os matagais circundantes. Mais vale tarde do que nunca!
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