
Em ano de comemoração do V Centenário de Camões, seria imperdoável que esta coluna hortícola não falasse do nosso maior poeta. Não que se lhe conheça currículo agrícola, mas, em boa verdade, no contexto da sua época e das épocas anteriores, poucos serão os assuntos ausentes do seu saber enciclopédico. Além de numerosas referências na obra lírica a “alegres campos, verdes arvoredos”, a maior horta plantada por Camões está no Canto IX de “Os Lusíadas”, na muito conhecida “Ilha dos Amores”, uma espécie de “resort” divino, a fazer inveja a quintas do lago, vilamouras e comportas.
As belas Ninfas, instruídas por Vénus para premiar e compensar os bravos navegadores lusos, viviam rodeadas de generosas plantas que ali cresciam, “sem ter necessidade de cultura”. Mesmo sendo de origem divina, as ”aquáticas donzelas” precisavam de se alimentar e de manter a sua boa forma física. Nada de “fast food”, alimentos processados ou demasiado calóricos. No divino menu posto à disposição das deusas e também dos famintos viajantes, causticados por meses de biscoitos e de carne salgada, constam as “cerejas, purpúreas na pintura”, as “amoras, que o nome têm de amores”, “a romã, mostrando a rubicunda cor”, “a vide, cuns cachos roxos e outros verdes” e “as peras piramidais”, sujeitas às bicadas dos pássaros. Muito curiosa a referência ao pêssego, “pomo que da pátria Pérsia veio, melhor tomado no terreno alheio”, querendo o poeta dizer que o pérsico pêssego ainda é mais saboroso em Portugal do que na sua terra de origem.

Além das “ervas secretas” que atapetavam “fermosos leitos”, havia também plantas de maior porte, abrigando os ninhos de amor em que nautas e ninfas se alojaram. Não faltam referências a sombrosas árvores, que também protegiam do sol a fina pele das belas ninfas, numa época em que ainda não tinham sido inventados os protetores solares. Comecemos pelas de fruto, a laranjeira, “a cidreira cos pesos amarelos” e o limoeiro, com “fermosos limões ali cheirando”. Na secção das “árvores agrestes”, aparecem os álamos, os agudos ciparisos (ciprestes), os loureiros, os ulmeiros e as murtas.
Curiosamente, tratando-se de uma ilha exótica, todos esperaríamos que a flora e a fruticultura da ilha fossem também exóticas: bananas, maracujás, líchias ou quiabos… Mas não: Camões socorreu-se das plantas e dos frutos dos seus tempos de Coimbra, do Ribatejo e de Lisboa, honrando, também floristicamente, a pátria que o viu nascer. A horta de Camões é a horta ou o pomar mediterrânico, que milhões de portugueses ainda hoje cultivam. Até na flora, é bem português o nosso maior poeta!
Ilustração de Pedro Proença, (Os Lusíadas, Edição do Expresso)
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