
Índio foi, dos jogadores de futebol que passaram pela A. D. Sanjoanense, provavelmente o melhor de todos.
Não só pelo que fez mas, sobretudo, pelo que mostrou ser capaz de fazer.
Nasceu a 1 de março de 1931, em Cabedelo, município da região metropolitana de João Pessoa, no estado de Paraíba, Brasil. Foi batizado com o nome de Aloísio Francisco da Luz e veio para o Rio de Janeiro com apenas cinco anos, pouco tempo depois de ter perdido o pai, para viver com o irmão mais velho, que era oficial da Marinha. Despertou para o futebol com a idade de 10 anos, nas brincadeiras de escola e, depois, nas “peladinhas” nos subúrbios da cidade.
Por essa altura, começa a ser tratado e conhecido pelo apelido “Índio”. – Porquê esse apelido Índio? – pergunta da jornalista Ludmila Mendonça, numa entrevista feita a Aloísio Luz, em 2011, no âmbito do projeto “Futebol, Memória e Património”, uma parceria da Fundação Getúlio Vargas com o Museu do Futebol. – Quando nós éramos pequenos, – explica Aloísio – nós íamos no cinema assistir filme dos índios. Quando nós voltávamos do cinema, aí nós fazíamos tudo… Eu organizava tudo, aí eles falavam: Puxa, esse camarada parece um índio mesmo! Aí pegou Índio, pronto, pegou… Mas eu aprendi a gostar desse nome… Até minha mãe me chamava de Índio.
Iniciou a sua carreira como jogador profissional, em 1947, no Bangu Atlético Clube e, em novembro de 1949, estreou-se pelo Flamengo, ainda como juvenil. A afirmação do jovem avançado aconteceria numa digressão do Flamengo pela Europa, entre maio e junho de 1951. Dos 10 jogos disputados na Suécia, Dinamarca, França e Portugal, Índio foi titular em todos e marcou seis golos, um deles frente ao Belenenses, no Estádio do Jamor.
Nos anos que se seguiram, Índio revelou-se um atacante versátil, rápido, exímio no jogo aéreo, muito “raçudo”, lutando sempre até ao último minuto, o que o fez cair nas graças da “torcida”. Para além de tudo isso, Índio era um jogador muito inteligente.
Estas qualidades chamaram a atenção do selecionador brasileiro, à época Zezé Moreira, que o integrou no “escrete canarinho”, em 1954, e por lá se manteve até 1957.
Depois de ter deixado o Flamengo, onde marcou 144 golos em 218 jogos, sagrando-se o décimo “artilheiro” de todos os tempos do clube “rubro-negro”, Índio representou o Corinthians durante duas épocas, sendo transferido para o Espanyol de Barcelona, em 1959. Nas três épocas em que defendeu as cores do clube catalão, disputou 35 jogos e marcou 13 golos.
A vinda para Portugal, em 1962, continua envolta em mistério. Na entrevista atrás referida, as respostas de Índio não são claras no que toca a esse assunto. Diz que um treinador amigo dele, cujo nome não refere, lhe pediu que viesse fazer parte da equipa que orientava no nosso país. – Qual o time? – pergunta a jornalista. – Sanjoanense, responde-lhe Índio.
Esse misterioso treinador só poderia ser Lorenzo Ausina, técnico guatemalteco do Lusitano de Évora, emblema que Índio veio representar nas épocas 1962/63 e 1963/64. O jogador só é contratado pela Sanjoanense, em julho de 1964, quando o clube tinha como treinador o espanhol Manolo Ibañes. Muito provavelmente, por um lapso de memória – algo que Índio admitia acontecer-lhe com frequência aos 80 anos de idade – não referiu a primeira equipa que representou em Portugal. Mesmo assim, o lapso não deixa de ser estranho, até porque, durante o tempo que viveu em Évora, Índio perdeu um filho que se encontra sepultado no cemitério daquela cidade alentejana.

Quando chegou à Sanjoanense, a equipa estava apostada no regresso à I Divisão, objetivo que Manolo Ibañes tinha definido como prioritário e, para isso, contava com o apoio incondicional da Direção. Foram contratados Gonzalez e Jambane (ex-Feirense), Álvaro Alexandre e Pimenta (ex-Sporting), Índio e Coró (ex-Lusitano de Évora) que se juntaram aos jogadores da época anterior, muitos deles da “cantera” da ADS.
A época 1964/65 arrancou com o “amigável” Sanjoanense – Beira-Mar, jogo que assinalou a inauguração do relvado do Estádio Conde Dias Garcia.
Desde logo, deu para perceber que a Sanjoanense possuía um plantel de grande qualidade e que, por isso, era legítimo ambicionar a subida de divisão. Aos primeiros três jogos do Campeonato Nacional da II Divisão corresponderam outras tantas vitórias da Sanjoanense e o entusiasmo entre os adeptos não parava de crescer. Porém, foi sol de pouca dura. Seguiu-se uma série de resultados negativos que traziam descontente a massa associativa, conforme refere O REGIONAL de 20 de dezembro de 1964. Ibañes foi dispensado.
Independentemente do que aconteceu, quem, como nós, teve o privilégio de ver atuar com a camisola da Sanjoanense esse extraordinário jogador que foi Índio, sem dúvida um dos melhores do mundo do seu tempo, só pode dar-se por feliz. Ao mesmo tempo, lamentar que Índio não tenha ficado por cá mais uma época. O tempo suficiente para poder festejar a conquista do Campeonato Nacional da II Divisão e o consequente regresso ao escalão máximo do nosso futebol. Bem merecia!
Aloísio Francisco da Luz (Índio) faleceu a 19 de abril de 2020, aos 89 anos. Sobre a sua vida, está a ser preparado um documentário e um livro, projeto que tem a assinatura de Fábio Henrique e de Nelson Meira, para ser lançado brevemente.
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