fotografias com HISTÓRIA com fotografias - António José Pinto de Oliveira – o fundador da OLIVA (V)

As máquinas de costura “Oliva” revolucionaram o mercado e a marca tornou-se um ícone da cultura portuguesa. No final da década de 1940, este acessório, totalmente fabricado em S. João da Madeira – à exceção das agulhas – fazia parte do quotidiano dos portugueses, graças às ações de comunicação e marketing levadas a cabo por uma vasta equipa de publicitários, designers e fotógrafos, de altíssima qualidade. O logótipo criado estava presente nas praças e fachadas das cidades portuguesas, em anúncios luminosos e azulejos, nos veículos da empresa e nos de transporte público, nos jornais e revistas, no cinema – através dos filmes “A costureirinha da Sé” e “Sonhar é Fácil” – e, mais tarde, através da televisão.
Paralelamente, foram criados cursos de corte e costura um pouco por todo o País, frequentados por milhares de jovens, e inventaram-se concursos anuais de aventais de chita e “Miss Oliva”.
A marca apoiava ainda associações desportivas da região, designadamente a Sanjoanense e Ovarense (ciclismo), bem como o desporto e as atividades culturais praticados pelos seus colaboradores, em representação do “Centro de Cultura e Recreio OLIVA”, fundado em 1951.
Por esta altura, a “A. J. Oliveira, Filhos & C.a, Lda.” ocupava uma área de 28 000 m2 e a sua população fabril era de 550 operários, boa parte deles oriundos das freguesias vizinhas. Do ponto de vista social, as condições oferecidas aos trabalhadores permitiam-lhes “um viver menos doloroso, um nível de vida mais digno, isento de todo o carácter ou aspeto de esmola ou favor”, como defendia António José Pinto de Oliveira, com a modéstia que o caracterizava. Na verdade, trabalhar na “Oliva” significava muito mais do que isso, “dava importância às pessoas, dignidade e estabilidade financeira”, como era comum dizer-se. Por isso, ingressar na empresa era o desejo de todos.
Em 1953, sem poder contar com qualquer dos seus descendentes para darem continuidade ao projeto que iniciara em 1925 e assumirem lugar de relevo na administração, como era seu desejo, o empresário António Oliveira decide dar sociedade aos seus principais colaboradores que, desde 1947, já integravam o Conselho de Administração e ceder, a um grupo financeiro, 30% do capital da “Oliva”. São, assim, admitidos os engenheiros Gil da Silva e Melo Queiroz, José Maria dos Santos e Fernando Novais.
Em 1955, inaugura-se a fábrica de tubos para canalizações e usos gerais, uma aspiração com mais de 15 anos e que só não se concretizou antes, por ter “sofrido assédios de toda a classe de interesses contrários, nacionais e estrangeiros”. Esta circunstância fez com que a área da “Oliva” e a população fabril aumentassem significativamente. Dois anos depois, no almoço comemorativo do seu septuagésimo aniversário, ao dirigir-se aos 900 operários da empresa, António José Pinto de Oliveira afirma: “O talento que por vezes se me atribui é pura lenda. Não o é, todavia, a dedicação com que me entreguei à nossa empresa, pois que lhe dei realmente o melhor do meu esforço e o exclusivo de 30 anos de vida.
Agora, ao entrar na decrepitude, quando a memória falha, as pernas fraquejam, as palavras tardam, a energia amolece, a disposição para trabalhar se reduz, sinto que pouco ou nada mais poderei dar-lhe e reconheço que seria este o momento para uma poética ‘retirada em beleza’.”

Tal não aconteceu. O fundador da “Oliva” não se sentia com coragem para uma total renúncia e manteve-se por perto, mesmo depois de se ter retirado de S. João da Madeira para o remanso da moradia que mandara edificar na Rua Agostinho Campos, no Porto.
Em 1958, foi a figura central do “I Congresso Nacional da Oliva”, realizado no edifício do Cinema de Arrifana – que ainda não tinha sido inaugurado –, coincidindo com o 10º aniversário da fábrica de máquinas de costura, mas, a partir de 1961, António Oliveira afasta-se, deixando ao engenheiro Gil da Silva a liderança da administração.
Com mais tempo para se dedicar à família, sobrou-lhe tempo também para participar nas atividades da Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira, onde se tinha mantido como mordomo, depois de uma fugaz experiência como Provedor.
Fez parte da comissão administrativa presidida por Benjamim Valente, na qualidade de secretário da Mesa e foi nesse cargo que se manteve em dois triénios sucessivos. A sua presença foi decisiva para a construção do novo Hospital, contribuindo, com o donativo de 1 000 contos, subscrito pela família Oliveira (cunhados Benjamim Valente e Diamantino Espírito Santo e tia Ângela Oliveira), para aquisição dos terrenos para implantação do edifício hospitalar, em Fundo de Vila, que veio a ser inaugurado em 1966.
Em 1976, António José Pinto de Oliveira sofre um duplo revés, com o desaparecimento da sua esposa e companheira de sempre, Auta Braulina, e ao assistir – sabe-se lá com que dor – ao descalabro da empresa que fundou. A 15 de novembro de 1981, com 94 anos de idade António Oliveira faleceu no Porto e foi sepultado em S. João da Madeira, como era seu desejo.
No seu testamento, entre inúmeros donativos, deixou 5 000 contos à Câmara Municipal de S. João da Madeira, como auxílio para a solução do problema social, e 5 000 contos ao Hospital, para melhoria do equipamento médico-cirúrgico. Segundo Manuel Pais Vieira Júnior, numa palestra proferida no Rotary Clube de S. João da Madeira, em 1991, António Oliveira “justificou as disposições do testamento, com o facto de, embora natural do Porto, ser sanjoanense pelo coração, ser em S. João da Madeira que decorreu toda a sua vida activa; ser a terra onde jazem seus Pais e onde quer ser sepultado catolicamente com humildade. Esquecido de muitos, mal compreendido por tantos outros, ignorado pelos novos, o seu funeral foi simples, quase sem assistência, refletindo os sentimentos de indiferença e ingratidão predominante nesse momento.”
Em jeito de nota de rodapé, diremos que António José Pinto de Oliveira continua a não ser reconhecido como devia por S. João da Madeira, a quem tanto deu. Outros, por muito, muito menos, tiveram direito a monumentos que perpetuam a sua memória.
Assim é a vida, assim são as pessoas, assim é a ingratidão.
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