Opinião

fotografias com HISTÓRIA com fotografias - 99 anos a cantar vitória

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No próximo sábado, passam noventa e nove anos sobre a promulgação, pelo então Presidente da República, general Óscar Carmona, do Decreto nº 12456, de 11 de outubro de 1926, que eleva São João da Madeira à categoria de concelho: “Considerando que a vila e freguesia do concelho de Oliveira de Azeméis, com as suas numerosas fábricas e oficinas, que empregam alguns milhares de operários, constituem hoje o centro industrial mais importante do distrito de Aveiro e sustenta ativas e grandes transações com o país e as colónias, para o que dispõe de meios de comunicação, mantendo também muito notáveis e benéficas instituições de carácter social, criadas pela iniciativa particular,” (…) “Artigo 1º – A freguesia de São João da Madeira, distrito de Aveiro, é desanexada do concelho de Oliveira de Azeméis e constitui um concelho de 3ª ordem, com sede na vila do mesmo nome.” (…).
Esta vitória – porque é de uma vitória que se trata – é o culminar de uma luta que o povo de São João da Madeira vinha travando, há mais de meio século, com a sede do concelho a que pertencia. Na obra que publicou em 1873, “Portugal antigo e moderno”, Pinho Leal refere que “a rivalidade de Oliveira de Azeméis” estava a impedir que São João da Madeira se tornasse “uma estação comercial de muita importância” e que, por via disso, atingiria em poucos anos “as proporções de uma grande e florescente vila.”
No início da década de 1920, essa luta endureceu, muito por obra e graça do Grupo Patriótico Sanjoanense (GPS), criado a 12 de abril de 1923. Constituíam-no 12 figuras gradas da terra (António Henriques, António da Silva Correia, António Madureira, Augusto Palmares, Durbalino Laranjeira, Inocêncio Leal, Francisco Nunes da Cunha, José da Silva Correia, Manuel Luís da Costa, Manuel Vieira Araújo, Avelino Martins e Joaquim Dias da Silva) e tinha como propósito “labutar pelo engrandecimento de São João da Madeira”. O último dos componentes do grupo haveria de dar lugar, algum tempo depois, ao doutor Renato de Araújo.
Nesta pugna, teve igual importância o jornal O Regional, que tinha surgido no primeiro dia de janeiro de 1922, assumindo-se, desde logo, como porta-voz dos anseios do povo sanjoanense.

Por essa altura, o País vivia um período conturbado da sua história, marcado por uma instabilidade política, com reflexos na economia nacional. Não obstante, um novo episódio protagonizado pela sede do concelho, em fevereiro de 1924, exacerbou o ânimo dos sanjoanenses, levando à publicação de um suplemento ao número 55 de O Regional, com a manchete “ACUDAM! Um escândalo em perspetiva! Luz elétrica para Oliveira de Azeméis, à custa do concelho! Uma bagatela de 400 contos! ACUDAM!”. Um título assim era, ao mesmo tempo, um grito de revolta e uma súplica ao Governo, para que alguma coisa fosse feita, face a tamanha injustiça.
Pelos vistos, não caiu em saco roto e os vaticínios de Pinho Leal começaram a concretizar-se com a promulgação, a 5 de julho desse mesmo ano, do Projeto de Lei de elevação de São João da Madeira à categoria de vila.
Dois anos depois, com São João da Madeira a exibir um ritmo de crescimento sem paralelo no distrito e até no País, estavam criadas a condições para a desejada autonomia administrativa. O Governo, conhecedor das razões que sustentavam a velha aspiração do povo sanjoanense, através da ação desenvolvida pelo seu ministro do Interior, vice-almirante Jaime Afreixo, outorgou-lhe esse privilégio, a 11 de outubro de 1926.
Se é verdade que a vitória que São João da Madeira alcançou se ficou a dever, antes de tudo, ao esforço e tenacidade do seu povo, nunca é de mais enaltecer o importantíssimo papel que tiveram aqueles que o conduziram em todo o processo de emancipação, designadamente António Henriques, como mentor do Grupo Patriótico Sanjoanense, e o dr. Renato de Araújo, distinto médico sanjoanense que, à época, exercia o seu múnus em Lisboa, onde residia e gozava de muito prestígio.

Teatro Cine Avenida

Para nós, que aqui falamos de história com fotografias e de fotografias com história, é frustrante não podermos ilustrar este texto com imagens dos momentos mais significativos que se seguiram à promulgação do documento, tais como o encontro da Comissão Administrativa com o ministro do Interior, jantar no palacete do dr. Renato de Araújo, no Estoril, receção à Comissão Administrativa na estação do caminho de ferro e no Teatro-Cine Avenida.
Alguma coisa há de existir, não do “nosso” Carlos Alberto da Costa que, por esse tempo, ainda não tinha descoberto os segredos da “câmara escura”, mas de Abílio Gomes e, muito provavelmente, de amadores dispostos a eternizar esses momentos.
Gostávamos de saber. Sem esses importantes testemunhos, restam-nos as narrativas do padre António Maria de Almeida e Pinho e do corpo redatorial de O Regional, publicadas nos números 126 e 127 deste semanário.

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