
A cultura do futebol infecta as mentalidades e os lugares públicos, fanatiza, estupidifica as pessoas e acobarda os políticos. Quase nenhum político, intelectual ou artista em evidência se atreve a dizer que não gosta de futebol ou, mais simplesmente, que lhe repugna toda esta horrorosa atmosfera e cultura futebolísticas que nos submergem e nos sufocam, onde quer que nos encontremos. Hoje, como no tempo cinzento do salazarismo pelintra e acomodatício, ser do futebol é estar do lado seguro, é ser da malta, é ser de confiança, é merecer o voto das maiorias. O futebol infecta os lugares públicos, devora frações pantagruélicas de jornais, revistas e noticiários de televisão. O futebol faz tudo isto e muito mais: polui ruas, estradas, praias, aldeias e cidades, devora orçamentos, gera o fanatismo, a competição mais doentia e até o ódio e a violência. Dizia Orwell, que dominou como um mestre a arte da objetividade fria, o desporto nada tem que ver com o fair-play: está intimamente relacionado com o ódio, o ciúme, a gabarolice, o desprezo por todas as regras e o prazer sádico de ser espectador da violência, corromperem as próprias raízes. O futebol profissional arrasa tudo, corrompe tudo: praticantes e espectadores, dizia Frank Guilford: – não há vencedores, há apenas sobreviventes. Leibniz, um filósofo que provavelmente não gostava de desporto violento, afirmava: -A educação pode tudo, até faz dançar os ursos. O futebol, tal como hoje existe é promovido e venerado, pelo mais baixo trabalhador ou funcionário ao mais alto dirigente, que não faz dançar os ursos, mas transforma os homens em ursos. O verdadeiro desporto não deve ser convertido em “espetáculo” porque não foi concebido como tal: não é para se ver, é para se praticar. O futebol profissional é a corrupção deste verdadeiro espírito do desporto, e das mais eficazes e mais sinistras fábricas de fanáticos. O psicológico Huxley definia um fanático se sobrecompensa conscientemente as suas dúvidas secretas. O futebol é, pois, essa fábrica de fanáticos que, aquecidos à mais elevada temperatura e gritando em excesso, duvidam, no fundo e secretamente, de si, do seu clube, da sua seleção nacional e do seu país. Por isso se compensam, se sobrecompensam, obscenamente, afirmando, até à caricatura, e ao ódio, a excelência de tudo em que, afinal, não sabem bem se acreditam. Quem se lhes opõe ou duvida de tais certezas é inimigo, porque lhes abala o “edifício” de (in)certezas. A proeminência histérica e obsessiva deste, desporto-rei, imposta aos jovens desde a mais tenra idade infetada no que há de mais delicado e sensível: a sua capacidade de definirem valores. A cultura futebolística em vigor promove a maior inversão de valores que pode infligir a uma juventude. A competição violenta e parcial, a inveja, o ódio, a gabarolice vácua e projetada em intoleráveis decibéis, a grosseria triunfalista não são valores que uma sociedade civilizada apadrinhe e promova. É ver o ar de babadice cúmplice e carinhosa que os políticos adotam e os pivôs televisivos promovem, com o seu tempo televisivo, sempre tão precioso e tão caro, dizem eles, passa a ficar infinitamente disponível, quando se trata de futebol. Quando achará a Grande Informação ser importante projetar, num momento nobre do seu canal, nomes grandes da arte, da literatura, da ciência, da música, da filosofia?! Assim enriquecendo o leque de preocupações de um programa que se não deve confinar nem à política do futebol nem ao futebol da política? Sim, é importante conservar o segundo canal da televisão pública, mas como plataforma onde se respire um ar não demasiado poluído pelos ruídos extremistas, invasores e intolerantes desta histérica cultura do futebol sobre o Ex Mundial que saldou por uma catadupa de revelações vergonhosas, todas elas a confirmarem o enterro definitivo e verdadeiro espírito desportivo. Que desporto é este quando se pagou a um treinador 3500 contos por mê! Com isenção de Impostos?! Prémios em tempo de austeridade!! São estes exemplos que se doam a uma juventude que, de dia para dia, se afunda mais num pântano ou num vazio de valores, onde se não vê sombra nem de cultura nem de ética nem de gosto: num país onde o afundamento ético é tal que uma maioria parlamentar acha modo de violentar afrontosamente a Constituição, congeminando uma vergonhosa “lei de exceção”, para Barrancos, passando por cima do facto de que está aqui em jogo o princípio constitucional da igualdade de todos os cidadãos perante a lei…e permitindo assim aos que violam a lei há mais de 50 anos o que se não permite aos que a tenham violado apenas há poucos meses! Por outras palavras, o crime longamente repetido compensa, por se ter tornado tradição! Observava esse grande Romain Rolland, que por toda a sua educação, por tudo o que vê e ouve à sua volta, a criança absorve uma tal soma de mentiras e de parvoíces, misturadas com verdades essenciais, que o primeiro dever do adolescente que vise ser um homem são de vomitar tudo isso.” O nosso dever como educadores é, propiciar à juventude, e outro esse vomitório fundamental, que os purgue de toda essa infame cultura futebolística. Este meu texto pretendeu ser isso mesmo: um saudável vomitório. Nem no tempo de Salazar a loucura futebolística foi tão longe, digo-o com grande tristeza. Ressuscitando dos meus arquivos este texto que é hoje mais atual do que nunca. A corrupção que ele denunciava como sendo inerente ao desporto profissional está hoje aí à mostra em toda a sua sumptuária obscenidade: negócios sujos, fuga aos impostos, compra de árbitros, vendas de jogadores como se fossem gado, porcarias de toda a espécie. Não gostaria de confusões: gosto do futebol, como desporto bonito e às vezes surpreendente e pratiquei na minha juventude. Mas o futebol, como todo o desporto é fundamentalmente para ser praticado e não para ser VISTO e explorado comercialmente, da forma mais nauseante. A este respeito, recomendo mais uma vez aos nossos políticos e às pessoas, em geral, a leitura do que sobre isto escreveu esse grande ensaísta e admirável escritor, que foi Sílvio Lima, antigo Professor da Universidade de Coimbra. As suas obras foram publicadas em dois belos volumes, pela Fundação Calouste Gulbenkian. Nelas se inclui o notabilíssimo texto intitulado ENSAIO SOBRE A ESSÊNCIA DO ENSAIO, que é um verdadeiro modelo do que deve ser o espírito ensaístico. Nenhum professor deveria ignorar este belo ensaio, muitíssimo bem pensado e documentado e melhor escrito. Como ensaísta, em Portugal, Sílvio Lima não fica abaixo de ninguém.
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