
Quantos de vós já comeram, ou lembram-se se ter comido, ou até já ouviram alguém falar que comeu um arroz de cricos? Lembro-me, de quando miúdo ter comido um excelente arroz de cricos, feito pela minha mãe. Naquele tempo, fosse o que fosse que nos pudessem dar para meter na barriga era sempre bem vindo, era excelente. Pois a fominha era tanta! Bem, estas coisas não interessam...
Nesta altura estão vocês a perguntar, mas afinal o que são cricos?! Vamos manter o suspense... aliás, se leram bem já vos dei uma pista, se estiveram atentos ao arroz. Por aqueles tempos em que a minha mãe fazia das tripas coração para nos cozinhar algo a que pudéssemos chamar comida. Um arroz de míscaros com chouriço preto. Na capoeira existiam galinhas, coelhos, e, de vez em quando eram chamados para nos alimentar. Por esses tempos, já conseguia estrelar um ovo, pudera, tinha-se de aprender rápido as lidas da cozinha. Quanto mais não fosse para lavar a loiça... Nos tempos de agora , como será? Rápido aprendi a torrar o pão, pôr-lhe um fiozinho de azeite, polvilhando de seguida com açúcar. Hoje em dia, só lhe acrescento a canela, e que delícia! E uma gemada com açúcar e uns bocaditos de pão, oh! A estas delícias chamávamos nós matar a fome. Bem, passávamos a vida a matar a fome! Não devia de ser, mas infelizmente há muita boa gente que nem uma torradinha consegue, quanto mais azeite, açúcar e etc.

Ah!... Lembrei-me agora que estávamos a falar de cricos, estas coisas vêm-me à memória... Peguei no dicionário da nossa língua, e lá estava, molusco bivalde, também conhecido como berbigão. Daí o arroz ser mesmo excelente!! Para mim, e em homenagem à minha mãe, será sempre um arroz de cricos.
Na música, “Zappa plays Zappa, House of the Blues”, 2015
Nos livros, “Vidas seguintes”, de Abdulrazak Gurnah.
Boas patuscadas de cricos.
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