
Este ano São João da Madeira celebra 100 anos de independência e liberdade.
Celebrar cem anos de concelho não deve ser apenas cumprir um calendário, inaugurar placas e/ou multiplicar sessões solenes. Estes atos fazem parte, mas não são nem podem ser o ponto alto desta celebração. Bem sei que ainda falta algum tempo para o 11 de outubro, mas as festividades já começaram.
Celebrar este marco deve levar a um exercício de pensamento e reflexão coletiva. É bom recordar o caminho percorrido – aproveitando estas datas para lembrar e prestigiar quem teve um papel fundamental nesta caminhada –, mas também é necessário perceber o que queremos traçar para o futuro.
O que queremos para o futuro de São João da Madeira?
Numa cidade pequena em território, mas grande em ambição, quase tudo nasceu de uma vontade teimosa de fazer diferente: na indústria, no associativismo, na educação, na cultura, na vida cívica. Houve sempre, entre nós, uma ideia muito própria de progresso – menos feita de aparência e mais feita de trabalho, de proximidade e de orgulho no que é nosso.
É por isso que o centenário não pode ser apenas uma celebração do passado. Seria pouco, e até injusto para com a herança que recebemos. Quem construiu esta cidade não o fez para que um século depois nos limitássemos a contemplar fotografias antigas com uma nostalgia confortável.
É necessário ação nos pontos mais críticos ou sensíveis que a cidade tem: na dificuldade de fixar jovens, no custo de viver com dignidade, na necessidade de reforçar o comércio local, na defesa do espaço público, no cuidado com os mais velhos, no desafio de manter viva a identidade industrial sem a transformar numa simples peça de museu.
Poucas coisas são tão perigosas como uma comunidade satisfeita com a sua memória, mas pouco exigente com o seu futuro.
O centenário devia servir precisamente para isso: para aumentar a exigência. Exigência sobre quem governa, naturalmente, mas também sobre quem comenta, participa, vota, educa e vive a cidade todos os dias. Uma cidade não se esgota no município; faz-se nas escolas, nas empresas, nas associações, nas famílias, nos cafés, nas ruas, nas conversas em que ainda se discute o bem comum sem cinismo nem indiferença.
Talvez a pergunta certa, neste ano especial, não seja “o que fomos?”, mas antes “o que queremos merecer ser?”.
Cem anos depois, São João da Madeira tem razões para se orgulhar. Contudo, o orgulho para ser saudável não pode transformar-se em complacência. Cem anos não são apenas uma data, são um teste de maturidade. Como sabemos, uma cidade madura não é a que se limita a festejar o que foi, mas sim a que discute com seriedade e ambição sobre o seu presente e futuro.
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