
1. Começámos a semana com uma grande notícia: segundo as previsões da Comissão Europeia, o nosso PIB vai crescer este ano mais do dobro da média da UE e acima do crescimento previsto para a generalidade dos nossos “concorrentes” mais diretos, os países de Leste. A Leste, só mesmo a Roménia continuará a crescer mais do que nós, o que significa que em 2024 nos ultrapassará no ranking europeu do PIB per capita.
Em qualquer caso, esta foi uma boa notícia. Uma notícia que serviu imediatamente para o Governo se congratular com as previsões, tomando-as como mérito seu. É natural que o faça. Se as previsões fossem de sentido contrário, também o Governo estaria a esta hora a ser criticado. Uma notícia que motivou também alguns comentários no sentido de que, finalmente, estamos a mudar de rumo e de tendência. Segundo alguns opinadores, deixámos de crescer “poucochinho” para, finalmente, termos crescimentos robustos e sustentáveis.
2. Se assim fosse, tudo seria excelente. O problema é que, infelizmente, não é. Como Portugal tem uma tendência para as meias-verdades, só se falou das previsões da Comissão Europeia para 2023. Mas omitiram-se as previsões relativas a 2024. É que, também segundo a Comissão Europeia, no próximo ano voltaremos ao “rame-rame” habitual: já não cresceremos acima dos 2% mas abaixo dos 2% (1,8% em concreto); haverá então 17 países dos 27 da União a crescer mais do que Portugal; e todos os países de Leste, nossos “concorrentes” directos, crescerão, todos eles, bem mais do que o nosso país. Esta é a outra meia-verdade que ficou por contar. Afinal, ao copo meio-cheio de 2023 volta a juntar-se o copo meio-vazio de 2024!
3. O que me preocupa não é esta tendência nacional para realçar o que é bom e encobrir o que é mau. O que verdadeiramente me inquieta é a falta de ambição. Terminado o epifenómeno de 2023, voltaremos a ser em 2024 um país sem ambição. Contentamo-nos com pouco e resignamo-nos perante a realidade. É isso que não pode ser. Temos de ambicionar crescer muito mais. Se o fizemos no final do século passado, entre 1985 e 2000, qual a razão por que não o fazemos agora? Temos de ambicionar subir salários. Não é com baixos salários que logramos ter sucesso no país e mobilizar os nossos jovens talentos. Temos de ambicionar aumentar pensões. Se 80% dos reformados têm pensões até 700€, não podemos parar enquanto não dermos a volta a esta vergonha nacional. Temos de ambicionar impostos mais baixos. A classe média está asfixiada de impostos e, sem uma classe média dinâmica e empreendedora, o futuro perde força e nitidez.
É desta ambição que precisamos. E não vale a pena contrariar, invocando a tradicional lamúria de que somos um país pequeno. Na UE até somos um país médio. Na população e no território. Mas, para os que teimam na ideia da pequenez, importa recordar-lhes que a Irlanda e a Dinamarca, países mais pequenos que Portugal, lideram todos os rankings de crescimento e competitividade. Afinal, o problema não é a dimensão. É a falta de ambição.
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