
Uma maioria absoluta é mesmo uma arma de dois gumes: dá aos governos amplos poderes de decisão. Mas dá-lhes também uma responsabilidade muito maior: não têm desculpas para não governar; não tem alibis para não resolverem os problemas.
Olhemos para os últimos dias. Aí estão os efeitos da maioria absoluta em todo o seu esplendor. É o caso típico da saúde. Faltam médicos, fecham serviços de urgência, chegou mesmo a haver uma fatalidade num parto realizado num hospital, onde não havia especialistas em obstetrícia. Legitimamente as populações queixam-se. Só que agora, com uma maioria absoluta, já não há desculpas para não se resolver o problema da falta de médicos. Só que a resolução desta questão não passa só por discursos. É preciso pagar melhor aos médicos. E dar-lhes uma carreira atractiva. Doutra forma, eles saem do SNS e vão para o sector privado.
O mesmo se diga da vergonha que se passa com o SEF nos aeroportos. Filas intermináveis, passageiros indignados pelas horas de espera, sem informações e sem condições, uma má imagem para Portugal e para o turismo português. Ainda esta semana Mia Couto, um grande escritor moçambicano, expressava publicamente a sua indignação pela situação. Perante este quadro tenebroso, é difícil compreender que o Governo não resolva. Não chega anunciar planos de contingência. É preciso que eles funcionem. Com uma maioria absoluta não há motivo para não pôr ordem na casa.
O terceiro exemplo é no domínio da descentralização. O que vemos é a confusão total. Autarcas contra autarcas. Autarcas contra o Governo. Remendos e mais remendos. Todas as semanas o Governo anuncia mais correcções ao que anteriormente já tinha sido corrigido. Só que os autarcas não se sentem convencidos. A descentralização não avança como deve ser. Deixou de ser factor de união para passar a ser factor de clivagem. Com uma maioria absoluta não há justificação para que o processo não seja bem conduzido.
E o que dizer da trapalhada em que está envolvida a questão sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa? Desde que António Costa é PM já tivemos todas as versões possíveis e imaginárias: já se disse que seria no Montijo; já se admitiu que pudesse ser em Alcochete; depois, não era preciso uma Avaliação Ambiental Estratégica; a seguir, abriu-se concurso para fazer a Avaliação Estratégica que antes se negou; agora, mais recentemente, o Governo já admite voltar ao Montijo e já admite deixar cair a Avaliação Estratégica que colocou em concurso. Tudo confuso, certo? Mas, pergunta-se: se o Governo tem maioria absoluta, por que é que não resolve?
Aqui está a sedução e o risco da maioria absoluta. Uma maioria é sedutora porque induz a ideia de que agora é que vai ser. Vamos governar e vamos avançar. Mas uma maioria é também um risco. Arrastando-se sem solução os problemas do país, passa a pender sobre os governos o risco do desgaste, resultante da incapacidade de resolver e decidir. Convém pensar nisto. Antes que seja tarde.
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