Opinião

A Resiliência

• Favoritos: 10


São João da Madeira, face aos resultados da primeira volta das eleições presidenciais, apresenta-se como um caso de estudo no panorama político português, onde a identidade local parece funcionar como um escudo natural contra a polarização dos extremistas. Mais do que a terceira posição de André Ventura, com perda de 130 votos no concelho, face às eleições legislativas de 2025, é importante igualmente relembrar a alternância democrática entre o PS de Jorge Sequeira e o PSD/CDS-PP de João Oliveira em outubro último, sem eleição de qualquer vereador do partido Chega, o que é demonstrativo que o eleitorado prioriza a confiança institucional e a empatia pessoal, em detrimento de ruturas ideológicas.
Esta resistência não é fruto do acaso, mas sim de um tecido social enraizado numa cultura de estabilidade económica e pragmatismo empresarial, onde o “fazer” se sobrepõe ao “gritar”, em que as soluções governativas são medidas pela sua eficácia no território e não pela retórica partidária nacional.
A componente industrial do concelho, historicamente ligada ao calçado e à chapelaria, moldou uma sociedade que vê na imigração e na integração não uma ameaça, mas uma condição essencial para a prosperidade. Ao longo de décadas, a cidade absorveu fluxos migratórios – primeiro internos e, mais recentemente, internacionais – que foram integrados através do pleno emprego e da partilha do esforço produtivo.
Em São João da Madeira, a inclusão é um conceito prático.
Quem chega para trabalhar torna-se rapidamente um par, um vizinho e um colaborador, o que esvazia o discurso populista baseado no medo do “outro”.
Esta mentalidade suportada no epíteto de “cidade do trabalho” gera uma coesão que protege a comunidade de narrativas de exclusão, celebrando antes a capacidade de acolhimento como uma virtude económica e humanista.
O associativismo é outro motor da vitalidade social de São João da Madeira, com uma densidade impressionante de coletividades que promovem o contacto direto entre cidadãos de todas as origens. Com mais de 20 associações desportivas concentradas em apenas oito quilómetros quadrados, o concelho oferece uma rede de suporte social que combate o isolamento, um dos principais combustíveis do voto de protesto. Esta malha associativa permite que o diálogo prevaleça sobre a confrontação, criando espaços de convivência onde as diferenças são diluídas pela prática comum do desporto ou da cultura. É neste terreno fértil de participação cívica, evidenciado nos dias de “Cidade no Jardim” que se cultiva a moderação política, tornando os cidadãos mais exigentes com a proximidade dos seus eleitos e menos permeáveis a mensagens distantes e agressivas.
Ainda no plano desportivo, São João da Madeira destacou-se pela sua capacidade de fixar talentos, incluindo figuras internacionais que, após terminarem as suas carreiras, escolheram a localidade para viver. O exemplo histórico do húngaro Szabo, que se radicou na região, ilustra esta tradição de hospitalidade. Como Szabo, muitos outros desportistas estrangeiros encontraram em São João da Madeira não apenas um clube, mas uma casa, integrando-se plenamente na vida social e contribuindo para a diversidade cultural do concelho. Esta simbiose entre o desporto e a fixação de novos residentes reforça a ideia de uma cidade aberta e cosmopolita, apesar da sua pequena dimensão geográfica.
Finalmente, a longevidade e a força de instituições como a Santa Casa da Misericórdia, anterior à fundação do próprio concelho, conferem uma segurança estrutural que mitiga o sentimento de abandono social. Esta e também outras IPSS, com as suas variadas valências de cuidado aos mais desfavorecidos, asseguram que a rede de proteção pública e privada funcione com rosto humano e proximidade física. Quando o cidadão sente que as instituições locais respondem às suas necessidades, a revolta “contra o sistema” perde o sentido, e o eleitor tende a renovar a sua confiança em candidatos que demonstrem empatia e competência.
São João da Madeira prova, assim, que uma sociedade civil forte, inclusiva e associativa é a melhor defesa contra a radicalização política. No próximo dia 8 de fevereiro haverá a oportunidade de verificar essa robustez social da cidade.

10 Recomendações
comments icon0 comentários
0 favoritos
158 visualizações
bookmark icon

Escreva um comentário...

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *