Opinião

A origem das nossas romarias

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A primeira romaria de S. João da Madeira, a que se convencionou chamar “Festas Sebastianinas”, é uma tradição que já vem do fundo dos tempos. Remonta, seguramente, ao tempo da construção da primitiva igreja de S. João da Madeira que, em meados do século XIX, foi substituída pela atual. Um dos santos venerados no pequeno templo, à época, era o mártir S. Sebastião, cuja imagem original “muito imperfeita e truncada, feita de gêsso ou matéria parecida, foi encontrada debaixo da soleira da porta principal da igreja velha, aquando da sua demolição”, de acordo com o testemunho deixado pelo padre António Maria de Almeida e Pinho.
S. Sebastião foi um dos mártires romanos dos primeiros séculos da Igreja Cristã. Nascido em França, foi para Itália, onde se alistou no exército romano, tornando-se um dos soldados prediletos do imperador Diocleciano, que lhe concedeu a patente de comandante da Guarda Pretoriana. Converteu-se ao cristianismo, divulgou a doutrina entre os soldados e, por isso, foi perseguido e condenado à morte. O seu corpo foi atado a uma árvore e, sobre ele, foram atiradas flechas que, no entanto, não lhe tiraram a vida.
Após a sua morte, em 287 da Era Cristã, S. Sebastião passou a ser venerado como “santo padroeiro contra a peste, a fome e a guerra”.
É muito provável que a “igreja velha”, cuja entrada dava para a via militar romana, na sua passagem por S. João da Madeira – onde, hoje, termina a Rua João da Silva Correia –, fosse visitada por inúmeros romeiros, durante as suas peregrinações, e o culto deste santo tenha assumido uma importância especial.
No final do século XIX, a romaria em honra de S. Sebastião tinha deixado de estar confinada à área envolvente do templo e a imagem do santo, tal como a conhecemos hoje, percorria as ruas do povoado como figura principal de um cortejo religioso, que Belmiro Silva, na legenda que acompanhava a foto ao lado, publicada no jornal “A Grei Sanjoanense” em 1953, descrevia assim:
“Eis uma fotografia antiga do centro da nossa terra – a praça, de 1895. Uma procissão – a do Mártir S. Sebastião – passa. Pouca gente comparativamente com o que hoje se vê. Pobríssima ornamentação: umas bandeiras esqueléticas. As mulheres de xaile e lenço. Os homens, de suíças uns, barba à passa-piolho, outros. De grandes bigodeiras, todos!”.
Em 1924 – há precisamente cem anos – a romaria continuava a chamar-se “Festas Sebastianinas”, embora elas fossem, a partir de então, também em honra de S. Tiago, padroeiro dos chapeleiros. Por essa altura, S. João da Madeira era já uma “populosa e industrial vila”, empenhada em mostrar a quem tinha as rédeas do poder, também por esta via, a capacidade de realização das suas gentes, não estivessem elas totalmente sintonizadas com o espírito do Grupo Patriótico Sanjoanense. Não admira, pois, que a primeira página d’O REGIONAL, na sua edição de 13 de julho desse ano, tenha sido inteiramente dedicada à divulgação das festas, “sem dúvida as mais importantes do distrito e que maior número de forasteiros atraem”. Para que assim fosse, a organização contava com a colaboração da “companhia do Vale-do-Vouga”, que disponibilizava comboios especiais para os que quisessem assistir às festividades.
Três dias de festa, abrilhantados por “reputadas bandas de música”, com inúmeros motivos de interesse, desde logo a iluminação, fogo e salva de morteiros, a tradicional procissão do domingo à tarde e, em jeito de encerramento, a “festa das merendas” da segunda-feira, no Carvalhal do Morgado.

O figurino manteve-se assim por longos anos, mas foi a partir da segunda metade da década de 1940 até final da de 1960 que a “Festa Grande” – como passou a ser denominada – se tornou num evento de maior grandeza, mais pelo número e variedade das atrações do que propriamente pela qualidade das mesmas. Carrosséis, carrinhos de choque, poço da morte, barracas de tiro, de matraquilhos, de farturas, de rifas, vendedores de algodão doce, de refrigerantes e de camarinhas passaram a ser presença habitual, proporcionando muita animação, divertimento e convívio, durante os três dias de festa. Por ter deixado de existir o Carvalhal do Morgado, o dia das merendas mudou-se para o Parque dos Milagres.
A diversidade chegou também à música e as bandas passaram a partilhar os palcos com grupos musicais da nova vaga, como aconteceu em 1965, com a atuação de três “conjuntos”: Os Dragões, de S. João da Madeira, Os Espaciais, de Oliveira de Azeméis e Sombras, do Porto, que fizeram as delícias dos foliões mais jovens e abriram as portas a outros artistas do panorama musical português, que por aqui passaram nas edições que se seguiram.
Em momentos diferentes do ano, realizam-se outras festas/romarias em S. João da Madeira, designadamente a Festa do Parque, em honra de Nossa Senhora dos Milagres, e a do S. João da Ponte, em honra deste santo popular. Estes dois momentos festivos surgiram quase em simultâneo, no final dos anos 30 princípio da década de 40 do século passado, e chegaram até aos nossos dias.

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