
No dia 8 de janeiro de 2026, tive o prazer de integrar, pela segunda vez, uma mesa de voto na minha cidade. Ao longo desse dia passaram pela minha mesa mais de 500 pessoas, mais de 500 cidadãos distintos, cada um com as suas convicções, expectativas e desejos para o futuro de Portugal.
Na fila vi de tudo: pessoas que votavam pela primeira vez, outras que votavam pela quinquagésima vez, e até uma senhora de 99 anos, que levou consigo uma lupa porque, apesar de já não ver bem, não abdicou de cumprir o seu direito. Ao longo do dia passaram por mim dezenas de mulheres de todas as idades. As primeiras chegaram logo de manhã, várias senhoras com mais de 70 anos, e fizeram-me pensar que, em tempos, não tiveram este direito. Algumas apoiadas em bengalas ou andarilhos, outras com a sua lupa e os “óculos de sair ao domingo”, vieram exercer um direito que lhes foi, durante demasiado tempo, negado.
O dia foi avançando e a fila ora crescia, ora diminuía. Ouvíamos conversas, risos, opiniões trocadas em voz baixa. Mas, entre todos esses murmúrios, houve algo que me marcou profundamente, e pela negativa. Ouvi maridos a segurarem as mulheres e a dizerem: “Não te esqueças de votar em quem te disse” ou “Tens de votar naquele de quem falámos em casa, por Portugal”. Ouvi filhos a levarem as mães e a afirmarem, sem pudor: “Ela não tem capacidade para votar, não sabe escolher, tenho de ser eu a fazê-lo por ela.”
Essas vozes incomodaram-me. Muito. Porque revelam que, mesmo depois de tanto caminho percorrido, ainda há quem não compreenda, ou não queira compreender, o que significa a democracia. O voto é secreto. O voto é individual. E ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de dizer a outra pessoa em quem deve votar, nem de decidir por ela sob o pretexto da idade, do género ou de uma suposta incapacidade.
Atrás da divisória, estão seguras. Ali, estão sozinhas com a sua consciência. São capazes. Sempre foram. E não importa quantas vezes lhes digam o contrário.
Votem. Saiam à rua. Exerçam o vosso direito. Eu faço-o sempre. Faço-o por mim, pelo futuro, e pelas minhas avós que um dia não o puderam fazer. E faço-o, sobretudo, para que os meus netos um dia votem por escolha própria e não porque alguém, em algum momento da história, lhes disse que não podiam.
Porque a democracia só pode ser construída assim, com liberdade, respeito e memória.
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