Opinião

A Igreja e a Política

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1. Quando um político é suspeito de um crime grave – corrupção, prevaricação, fraude fiscal, branqueamento de capitais –, o que é que normalmente sucede? Toma a iniciativa de suspender as suas funções. Ou é afastado do cargo que exerce. Mesmo antes de qualquer julgamento ou condenação. Com o propósito de, dessa forma, não contaminar o órgão ou a entidade de que faz parte. A suspensão é, nestes casos, uma medida cautelar e preventiva. A pena, se for o caso, só vem mais tarde, com o julgamento e a eventual condenação.
Tudo isto é hoje relativamente consensual em Portugal. Quase toda a gente concorda que assim seja. É uma questão de elementar higiene política. É um imperativo de transparência e sensatez no funcionamento do nosso sistema democrático.
2. A questão dos abusos sexuais na Igreja devia ser tratada da mesma forma. Com a mesma coerência de procedimentos. Claro que falamos, no caso da Igreja e da política, de duas realidades completamente diferentes. Mas os princípios e as regras de orientação devem ser as mesmas. Um padre suspeito de abusos sexuais é em tudo semelhante a um político suspeito de corrupção. Ambos são suspeitos de crimes graves. Ambos devem ser julgados. Ambos, havendo provas, devem ser condenados. Mas, até lá, até ao momento do julgamento e da eventual condenação, devem ser suspensos ou afastados de funções. Como forma cautelar de não contaminarem a respectiva instituição e não continuarem dentro dela a sua actividade criminosa. Isto parece tão óbvio e tão sensato que até custa admitir que se pense e actue de modo contrário. Infelizmente, porém, assim tem sido.
3. Claro que alguns recordam que dentro da Igreja nunca ou quase nunca foi assim. O padre abusador ou era escondido ou era transferido. Havia pedido de perdão à vítima, quando havia, e pouco mais. É verdade. Mas essa realidade pertence ao passado. Prescreveu com a chegada do Papa Francisco. Segundo o Santo Padre, pedir perdão às vítimas não chega. É preciso ir mais longe. É preciso agir, reparar, afastar, julgar.
Como várias Igrejas no mundo já fizeram. Como alguns Bispos em Portugal já decidiram fazer. Tudo, ao contrário de outros, que ainda teimam em manter-se acantonados no passado.
Daqui a poucos anos, estas posições mais fechadas vão ser consideradas obsoletas. Quase incompreensíveis. Uns verdadeiros “tesourinhos deprimentes”. Convinha, porém, não demorar muito tempo a mudar de vida. Primeiro, para cumprir a mensagem do Papa Francisco. É que não chega falar dele. É preciso seguir o exemplo dele. Depois, porque a Igreja não é um brinquedo ou uma circunstância. É uma instituição nuclear da nossa sociedade. Fundadora da nossa nacionalidade. Inspiradora da nossa abertura ao mundo. Responsável ainda hoje por uma notável papel na educação, saúde e acção social. A Igreja tem de ser valorizada. Não pode ser descredibilizada.

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