
Pré-adolescência. Férias. Jogos de futebol na rua, campo improvisado, mesmo inclinado, as balizas, os melhores pedregulhos que por ali estavam. As equipas, a minha rua contra a rapaziada de outra rua que por ali apareciam, claro, que havia pré combinações. Durante os encontros havia temperamentos que se confrontavam. A sorte é que tínhamos pessoas mais velhas a assistir, melhor dizendo, olheiros, não fosse aparecer por ali um novo Eusébio! Bem, mas quando aconteciam confrontos físicos, os mais velhos conseguiam parar a refrega e convidavam-nos a jogar “À bulha”.
As duas equipas “futeboleiras” faziam um círculo e eram convidados a ir para o meio dois contendores, um de cada equipa, frente a frente. Nesta altura, o indivíduo mais velho, explicava as regras do jogo “À bulha”. Eram simples. Os dois adversários frente a frente, a um metro ou dois de distância. O árbitro cuspia para o chão entre os dois adversários e fazia a seguinte proposta: quem primeiro pisar a saliva e arrancar um cabelo do adversário era o vencedor. Isto dito assim parecia fácil! Após pisarem a saliva, seguiam-se momentos de verdadeira agressividade, na tentativa de conseguir o dito cabelo. Por vezes as lutas tomavam proporções quase incontroláveis e o árbitro tinha de atuar, no sentido de separar os contendores. Estes momentos de luta eram raros. O que em verdade acontecia era que os jogadores acabavam por desistir do confronto, mas, mesmo o melhor das “Bulhas” era quando acabávamos todos a rir das nossas figurinhas.
Os jogos das “Bulhas” são hoje para mim saudáveis memórias. A “Bulha” podia ser hoje uma federação desportiva, com regras e equipamentos próprios. Nestas lutas, para além da saliva e do cabelo, era por vezes proposto aos oponentes que, para conseguirem a vitória, tinham de derrubar o adversário. Lá estão vocês a pensar. “Este indivíduo lembra-se de cada uma! À bulha!” Não lembra nem ao Diabo! Isso é o que vocês pensam! Estão a ver e a ouvir aquele presidente americano... ele inspirou-se no jogo da Bulha. Pisar a saliva até foi fácil, tirar o cabelo é que está a ser difícil. Até podíamos estar todos a rir do comediante em que este senhor se tornou. O problema é que esta bulha está a tocar em todos nós e todos os dias temos a perda de vidas humanas.
De repente, a bulha está a generalizar-se e não há juízes que a consigam travar. Hoje ao recordar esses tempos de pré-adolescência, dou comigo a pensar como éramos inteligentes, e, acreditem o Salazar estava-nos a preparar para a Guerra Colonial. Muitas vezes éramos colocados perante o dilema de pisar a saliva e arrancar o cabelo ou ... preferíamos o abraço e ir apanhar e comer fruta para um quintal qualquer. Às tantas, o que os mais velhos nos queriam mesmo dizer, é que... ó, pessoal, a luta não vos leva a lado nenhum. Mantenham-se em paz!"
Na música, vocês conhecem aquela expressão “Amor à primeira vista!”. Aconteceu comigo, tardiamente reconheço, mas mais vale tarde que... Bem, pessoal, se tiverem oportunidade deliciem-se com L´ Arpeggiata e Christina Pluhar. Fantástico!
Nos livros, ao dar uma volta pela minha biblioteca... Sim, tenho uma pequena biblioteca, é pá! Toda a gente tem e quem não tem devia ter, mas isto sou eu a dizer! Bem, na minha volta deparei-me com um escritor que nos ajudou a todos a evoluirmos nas questões sociais e sexuais. Estou a falar de Wilhelm Reich.
Digam não às Bulhas!
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