
Ciências Informáticas, Audiovisuais, Engenharia, Automação ou Robótica são das áreas que mais interesse despertam nos jovens que optam pelo ensino profissional, motivados pela aprendizagem de uma profissão e a perspetiva de empregabilidade.
O Agrupamento de Escolas Serafim Leite tem trilhado um percurso sólido no ensino profissional. Este ano, num total de 436 alunos que ingressam no ensino secundário, 224 optam pela via profissionalizante. Nesse universo, 76 frequentam o 10º ano. O interesse dos estudantes por este percurso formativo, explica a diretora do Agrupamento de Escolas Serafim Leite, Helena Resende, tem-se mantido constante ao longo dos últimos anos e só “não cresce mais devido ao desconhecimento do seu potencial”. Captar mais alunos é, aliás, um dos desafios do país para os próximos anos. O governo quer, até 2030, atingir a meta dos 55% de alunos a frequentar o ensino profissional. De acordo com estatísticas da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEESTE), entre 2018 e 2021 existiam 2.132 cursos do ensino secundário profissional. Mais de metade concentrava-se em cinco áreas: Ciências Informáticas (13%), Hotelaria e Restauração (12%), Audiovisuais e Produção dos Media (9%), Turismo e Lazer (9%) e Desporto (9%).
No Agrupamento Serafim Leite, as áreas de Ciências Informáticas, Eletrónica e Automação ou Marketing, Comunicação e Audiovisuais são das que registam maior procura e há fatores que o justificam. Entre eles, garante Helena Resende, está “a vocação dos alunos” ou a “perceção que têm relativamente à colocação no mercado de trabalho”. “Os cursos das áreas de Ciências Informáticas e de Eletrónica e Automação têm uma percentagem de colocação no mercado de trabalho que ronda os 100% e apenas não permanecem nas empresas os alunos que fazem uma opção diferente, como, por exemplo, prosseguir estudos”, acrescenta em entrevista ao jornal “O Regional”.
Maioria dos cursos com “grau de relevância máxima” na região
Na definição da oferta formativa, agrupamentos e município têm uma palavra a dizer, seguindo orientações da Agência Nacional para a Qualificação do Ensino Profissional e do Sistema de Antecipação de Necessidades de Qualificação (SANQ). O tecido empresarial é também auscultado, através da Associação Comercial e Industrial de S. João da Madeira, e a verdade é que a maioria dos cursos do agrupamento Serafim Leite, sinaliza Helena Resende, “apresenta um grau de relevância máxima” na região.
A aprovação recente de dois Centros Tecnológicos Especializados, nas áreas de informática e industrial, vai permitir ao agrupamento munir-se de “equipamento inovador” e tecnologia de ponta que contribuirão, destaca a diretora, para “o desenvolvimento dos setores de atividade considerados estratégicos” na Área Metropolitana do Porto.
“Formação em contexto real de trabalho prepara os jovens para a vida ativa”
São mais de duas centenas de empresas – do concelho e da região – que trabalham em estreita parceria com o Agrupamento Serafim Leite, uma ligação que é “de vital importância para o sucesso dos cursos profissionais e da aprendizagem dos alunos”, realça Helena Resende. Além de competências técnicas, a formação em contexto real de trabalho proporciona experiências fundamentais para o desenvolvimento dos jovens, permitindo-lhes aprofundar também competências sociais e de comunicação. “Incute responsabilidades diferentes e prepara os jovens para a transição para a vida ativa. No caso em que os alunos optam por prosseguir estudos, a formação em contexto de trabalho revela-se igualmente importante pois ajuda a tomar decisões quanto à área a seguir”, sublinha a diretora. A cada ano letivo, são realizados cerca de 100 estágios, mas não apenas em solo português. “Temos um número significativo de empresas/estágios no estrangeiro onde os alunos fazem formação em contexto de trabalho no âmbito do Erasmus VET”, exemplifica.
Em perspetiva, Helena Resende considera que ligação entre o ensino e o mundo empresarial tem sido benéfica para todos os intervenientes. “São dois mundos que, antes do ensino profissional, não se associavam, mas que agora colaboram, partilham experiências e criam sinergias”, frisa.
E quais as áreas em crescimento e que terão ainda mais peso no futuro? Helena Resende entende que a oferta formativa do agrupamento está em linha com as necessidades atuais e futuras, destacando, em concreto, as áreas das Ciências Informáticas – na vertente de programação e manutenção de hardware, mas também as áreas da Eletrónica, Automação, Domótica e Robótica.
“Estágios são alicerces da ligação das empresas com o ensino”
Ao longos dos últimos anos, a CEI - Companhia de Equipamentos Industriais tem trabalhado em estreita parceria com as escolas e recebido alunos dos cursos de Mecatrónica, Informática e Multimédia. Álvaro Gouveia sublinha que a empresa líder em soluções de Corte para a Indústria do Calçado e para a Indústria de Rochas Ornamentais é uma porta aberta a todos os alunos, sem exceção. “Procuramos integrar qualquer tipo de estagiário independentemente das suas dificuldades físicas, mentais, emocionais, raciais, religiosas, etc. A CEI é conhecida nas escolas por aceitar qualquer aluno”, destaca o empresário, sublinhando a importância de “desenvolver na equipa competências de integração de pessoas”.
“No estágio e à semelhança do que acontece com os nossos colaboradores, procura-se fomentar o seu empoderamento e o crescimento pessoal”, explica o empresário. O aluno inicia o estágio com a leitura de um livro e, de seguida, passa por todas as secções do chão de fábrica, até ao momento de desenvolver o projeto específico de estágio, onde “a componente técnica é acompanhada de uma forte componente de desenvolvimento de competências humanas”.
Álvaro Gouveia não tem dúvidas de que os programas de estágio “são os alicerces da ligação das empresas com o ensino” e que têm promovido a “construção de um futuro mútuo”. E esse futuro, afirma, tem vindo a erguer-se. “Esta ligação já permitiu, através da Associação Comercial e Industrial de S. João da Madeira, o apetrechamento das escolas através da plataforma de partilha de recursos onde os alunos têm materiais para desenvolver os seus projetos nas escolas”, exemplifica, lembrando ainda o surgimento recente de laboratórios colaborativos, onde os alunos contactam com o ambiente industrial através de equipamentos reais das empresas.
Destacando a “forte ligação” entre o tecido empresarial e as escolas em S. João da Madeira, Álvaro Gouveia entende também que os programas de estágio têm sido fundamentais para “um ajuste permanente” da formação às necessidades das empresas. “Hoje em dia, a postura das empresas é proativa e integrada com as escolas e se houver ligação entre ambas a formação técnica e humana será sempre conseguida”, realça.
A CEI tem trabalhado em estreita colaboração com o agrupamento Serafim Leite e os resultados têm sido vantajosos, afirma Álvaro Gouveia. Este elo de ligação tem permitido o aprofundamento das componentes de integração de alunos, “tão crítica para as empresas atuais que sentem dificuldades de integração de pessoas”, mas também a “necessidade de inclusão da Inteligência Artificial regenerativa no desenvolvimento dos currículos”.
Sinergias com empresas permitem “orientar mais eficazmente as aprendizagens”
No ano letivo 23/24, perto de 600 alunos ingressam no ensino secundário do Agrupamento de Escolas Oliveira Júnior e há 220 a optar pela via profissional. Cerca de 55 estudantes ingressam, este ano, no primeiro ano dos cursos profissionais de Técnico de Análise Laboratorial, Técnico de Desporto e Técnico de Multimédia, e há ainda seis dezenas de estudantes, no 11º e 12º ano, a frequentar os cursos de Técnico de Apoio Psicossocial e Técnico de Multimédia.
A oferta formativa desta unidade de ensino tem procurado responder às necessidades do tecido empresarial da região, esclarece a subdiretora do Agrupamento de Escolas Oliveira Júnior, Paula Azevedo. “Grande parte do tecido económico da região inclui empresas na área da química e física, o que justifica a oferta do curso de Técnico de Análise Laboratorial, em conjunto com o de Multimédia, atendendo à aposta das empresas em novas tecnologias digitais”, detalha. Também o curso de Técnico de Apoio Psicossocial tem revelado ser “uma mais valia para as instituições de apoio às famílias”, sustenta Paula Azevedo, uma vez que é “integrado em equipas multidisciplinares, promovendo cuidados sociais e de saúde às pessoas vulneráveis da sociedade”.
Na área desportiva, não faltam instituições e empresas na região que se dedicam a essa área, pelo que o curso de Técnico de Desporto se revela “fulcral” para “a manutenção da saúde física e mental das pessoas, numa sociedade contemporânea onde se constata um aumento na inatividade física devido à natureza cada vez mais sedentária de muitas formas de trabalho, à mudança de modos de transporte e ao aumento da urbanização”, realça a subdiretora, que perspetiva que as novas tecnologias, a sustentabilidade ambiental e o apoio social serão áreas com potencial de crescimento na região nos próximos anos.
As parcerias entre o agrupamento e o tecido empresarial têm-se revelado profícuas, considera Paula Azevedo, já que “permitem orientar mais eficazmente as aprendizagens e a formação dos alunos, tendo em conta as exigências e atividades desenvolvidas pelas empresas”. O feedback dos estágios que os alunos realizam nas empresas é, por isso, extremamente positivo e comprovado “pela percentagem de empregabilidade dos alunos” após a conclusão do ensino secundário.
E são muitas as aprendizagens que os alunos experienciam no seio das empresas, destaca a subdiretora do agrupamento, como o contacto com diferentes equipamentos, a aplicação de aprendizagens adquiridas em contexto de sala de aula, o aperfeiçoamento de competências ligadas ao saber estar em ambiente de trabalho ou ainda o estímulo da autonomia e iniciativa no desempenho de diferentes funções.
“Crescemos todos juntos, em parceria”
A Cipade, empresa sediada em S. João da Madeira e que produz colas para diversos setores industriais, tem acolhido alunos do Agrupamento de Escolas Oliveira Júnior em contexto de estágio, geralmente na área da qualidade, explica a administradora, Isabel Pinho. “Acho muito importante a passagem deles pelo mercado de trabalho antes de terem a formação concluída porque dá-lhes alguma orientação. É importante eles perceberem o que é um laboratório, como é que se trabalha, qual a realidade das empresas”, considera.
Por ano, a empresa criada em 1968 tem capacidade para acolher um ou dois estagiários e o feedback tem sido “muito positivo”. “Muitas vezes os alunos vêm num ano e querem vir no ano seguinte”, afirma a empresária, que destaca também os laços que se mantêm muito para lá do período de estágio. “Temos várias pessoas que já passaram por aqui e que nos visitam. Volta e meia vêm cá cumprimentar-nos e isso para nós é muito gratificante”, realça.
Isabel Pinho vê benefícios na articulação entre empresas e escolas. “É bastante útil esta interação e esta proximidade, também para as escolas perceberem quais as necessidades das empresas. Podemos tirar mais-valias, tanto a indústria como o ensino, crescemos todos juntos, em parceria”, remata.
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