Cultura e Lazer

Rui Moreira apresentou “Da Jugoslávia ao Kosovo”, de Amílcar Correia

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O Centro de Arte Oliva recebeu no último sábado, dia 20 de setembro, a apresentação do livro “Da Jugoslávia ao Kosovo — A Mais Breve História de Um Conflito”, do jornalista e escritor Amílcar Correia. A sessão foi conduzida por Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto e doutor honoris causa pela Universidade do Kosovo, que destacou desde o início a importância histórica e humana da obra.

“É com muito gosto que apresento o novo livro de Amílcar Correia. Tenho uma enorme admiração pelo Amílcar. É, sem dúvida, um dos melhores da sua geração. Já o disse noutras ocasiões: tenho por ele simpatia, respeito e grande apreço pelo seu trabalho”, afirmou Rui Moreira, ressaltando o valor da narrativa de Amílcar Correia. O presidente considerou ainda o subtítulo do livro particularmente sugestivo, onde “apesar de ser o conto mais breve do livro, funciona como uma síntese profunda do processo de desintegração da Jugoslávia, um tema que há muito nos inquieta.”
Na sua apresentação, Rui Moreira traçou paralelos entre a obra e acontecimentos históricos da região. “O que Amílcar nos oferece vai mais além… Uma reconstituição detalhada das raízes históricas dos Balcãs, das circunstâncias que conduziram à desintegração da Jugoslávia e da indivisibilidade desse ‘outro’ com o qual ainda hoje nos confrontamos.” Segundo ele, o livro consegue unir rigor histórico e jornalismo de campo, oferecendo uma leitura que é simultaneamente informativa e humana.
A obra de Amílcar Correia destaca-se por combinar reportagem de guerra, análise política e reflexão histórica. Nas palavras do autor: “Perante o crescente desinteresse dos Estados Unidos, o que vale aos conservadores é a força da sua comunidade naquele país, particularmente em Nova Iorque. Não fosse assim, talvez a situação já tivesse começado a mudar de forma mais profunda.”
O livro aborda os efeitos do conflito sobre a população civil, apresentando episódios de vida quotidiana e de violência. “Os vizinhos colocavam o nariz das armas fora da janela e disparavam de rajada, uns a seguir aos outros, em cadência de desafio, mas sem se sobreporem, como os cães que ladram para outros cães, de uma varanda para a outra.” Amílcar Correia evidenciou que as tensões entre Sérvios e Albaneses no Kosovo têm raízes que remontam a séculos de disputas, ressentimentos e mitos fundadores, mostrando que os problemas do presente são o resultado de complexas camadas históricas.
O autor sublinhou ainda o peso das nacionalidades e das identidades culturais, onde afirmou que “a primeira conclusão que retiramos desta leitura é o peso das nacionalidades. Dentro de uma comunidade de destino, pesam mais as identidades históricas do que os avanços políticos, as uniões circunstanciais ou as alianças espirituais.” Para o jornalista e autor, compreender estas dinâmicas é essencial para perceber os riscos de novos conflitos e a fragilidade das instituições na região.
A apresentação evidenciou também a capacidade de Amílcar Correia de transformar a pesquisa jornalística em narrativa literária. Segundo Rui Moreira, o autor utilizou técnicas do ‘New Journalism’ americano para trazer à tona histórias humanas que, de outra forma, poderiam ser esquecidas. “Estas histórias, fruto de experiências pessoais e profissionais, foram extremamente marcantes. Nunca as esqueci. Sempre as contei, mas nunca as escrevi. Só 25 anos depois tive a oportunidade de revisitar as minhas notas e memórias e recuperar essas histórias. Uma verdadeira viagem no tempo, que por vezes se revelou caótica, mas também muito gratificante”, concluiu o escritor.
Além da dimensão histórica e humana, a obra analisa a atuação de grandes potências e o papel das instituições internacionais. “O livro mostra-nos também como, no esforço de desestabilizar a Europa, ninguém deixa de olhar para os Balcãs como um lugar onde tensões ideológicas mal resolvidas continuam a marcar a vida política e social.” O autor da obra alertou para os riscos de instabilidade geopolítica e para a necessidade de uma reconciliação profunda entre comunidades, enfatizando que “as cicatrizes dos conflitos permanecem abertas, entre vidas destruídas, comunidades deslocadas, infraestruturas que nunca foram recuperadas, divisões sociais, populações fragilizadas e, inevitavelmente, pobreza”.
A sessão foi um espaço de interpretação sobre passado, presente e futuro da região, destacando a relevância de compreender as raízes históricas dos conflitos e de analisar a influência de potências externas, a fragilidade das instituições e o peso das identidades culturais.

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