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“Claro que há magia no Natal num lar de idosos”

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Este é, na verdade, para muitos idosos que residem na Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira, um dos momentos do ano, em que por norma se ausentam do Lar onde residem para se juntarem aos filhos e netos para viverem as festas Natalícias.

“Aqui tem o primeiro senhor, o António Albernaz”. Chega acompanhado de Sílvia Fernandes, Diretora Técnica, que nos encaminha tranquilamente até uma sala da Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira. No ecrã da televisão alguns utentes assistem à transmissão do Natal dos hospitais. “Eu tinha um primo que era cantor, que também participava nestes programas, mas que, infelizmente, já faleceu”, começou por assumir o senhor Albernaz. Tirou um pouco a máscara, mas logo volta a colocar. “É só para respirar um pouco melhor. O vírus ainda anda aí, as gripes também e eu quero prevenir-me. Quero continuar a viver”, refere.
Com 85 anos, natural de Viseu tem dois filhos e uma neta. Foi durante longos anos maquinista em África. Em Portugal, trabalhou ainda como serralheiro, e diz que até se reformou muito cedo. “Nunca fui um homem de estar parado”.
Entrou há três anos para a Misericórdia de S. João da Madeira, depois da mulher falecer, e será um dos utentes que vai passar o Natal fora do lar familiar. “Estou aqui tão bem. Esta agora é a minha casa. É aqui, na verdade, que vou passar o resto dos meus dias”, assegura de olhar caído. Tudo mudou com a morte da esposa. “Era a minha companhia. Os filhos têm a vida deles. Sinto a presença deles sempre por perto e nunca abandonado ou sozinho”, mas a esposa “era a minha companheira de vida”. Para si o Natal, apesar de lhe trazer “recordações muito boas” é, atualmente, um dia como um outro qualquer. A época, conta, já não lhe permite “ter a magia de outrora, É a lei da vida. Quem andou não tem para andar”, enfatiza.
Albernaz, como é conhecido na instituição, orgulha-se da família que tem e de tudo o que construiu ao longo dos muitos anos de trabalho. Autónomo, lê o jornal todos os dias, gosta de uma boa conversa, e o lar permite este “acompanhamento”, já que não quer ser “um fardo na vida dos meus filhos. Não tenho esse direito. Eles têm que viver a vida deles, como eu vivi a minha”, com a certeza de que na noite “vou estar bem” acompanhado dos muitos amigos que ali conquistou nos últimos anos. “A vida é assim. Temos que a aceitar como é. O importante é estarmos vivos”, assegurando que o Natal é, na verdade, “das crianças”, apesar de considerar que “agora, é tudo diferente”, vinca”.

“O Natal num lar de idosos também pode ser mágico e inesquecível”

Maria Antonieta, 96 anos, residente há 24 anos na Misericórdia

Por sua vez, Maria Antonieta, de 96 anos, cobertos de genica e boa disposição, dentro do seu baú de recordações dos muitos natais que viveu na companhia do marido, que faleceu há dois anos, retira a recordação de muita felicidade. “Era tudo tão diferente daquilo que é hoje. Posso dizer que, com esta idade, olho para o passado com saudade e com a certeza de ter sido feliz”, enfatiza. O marido foi o seu grande aliado. “Chegámos a fazer 73 anos de casados”. Sem filhos, veio viver para Arrifana depois do 25 de abril, depois de ter vivido em Lisboa e Vila Nova de Gaia. Decoradora de profissão, apesar de ter estudado Belas Artes. “A minha mãe não achava piada nenhuma”. Depois andou no conservatório de música. Maria correu o mundo. “Aos 80 anos ainda fui a Berlim. Estive lá sentadinha numa das pedras do muro”, um desejo que queria realizar.
Este será mais um Natal que passará na casa que a acolhe há 24 anos. “Esta é a minha família também. Os funcionários passam também o Natal fora das famílias deles. Estão ali a trabalhar. Acabamos por nos unirmos neste sentimento de presença, ausência, mas de muito afeto entre todos. Sinto-me estimada e mimada”,. Quanto às iguarias da época é “uma mesa farta de tudo e com muita fartura”.
Maria Antonieta adora comunicar. Tem historias para contar. Muitas. Há uma que faz questão de destacar. “A palavra lar sempre me assustou. Eu dizia que não queria isto para mim e pedia mesmo para não me meterem numa casa destas, tudo isto por aquilo que ia ouvindo”. Mas a determinada altura apercebeu-se da importância que estas estruturas têm na qualidade de vida das pessoas com idade mais avançada. Apesar de dizer que “é velhota”, mas “sem bengala”, gosta de salientar que não tem idade. “Sou uma pessoa muito positiva, que se gosta de arranjar, sentir-se bonita e os lares também nos permitem isso”, e mais do que passar a noite de consoada e de Natal na Misericórdia é ter a certeza que ali é “bem tratada”.

“Eu é que quero ficar cá”

Maria José Pinho, 87 anos, vai passar com o marido, o primeiro Natal na instituição

Maria José Pinho, 87 anos, tem uma vida dedicada à Cortadoria Nacional de Pelo, em S. João da Madeira, onde trabalhou cerca de 30 anos. Maria fez-se senhora em Pindelo, Oliveira de Azeméis, onde as tradições Natalícias foram sempre muito presentes no seio familiar. O prato tradicional do almoço de Natal foi sempre a Roupa Velha, prato que, é preparado com as sobras a partir de bacalhau, couves e batata da refeição da noite anterior, explicou.
Este será provavelmente o primeiro Natal que passará na instituição onde reside com o marido e não na casa dos dois filhos. “Eles querem que se vá lá. Ainda não decidimos, mas eu é que quero ficar cá”, confessa. Lá vai contando que a memória já vai falhando, e mostrou-nos um pequeno caderno onde toma nota de tudo o que tem que fazer. “Assim não me esqueço de nada, pois infelizmente o meu marido, nesse campo, ainda está pior”. Ficar nesta época, “por opção”, não lhe custa. “Aqui temos tudo, comida com fartura todos os dias, não gostamos de frio, é sempre muita confusão” porque a família é grande. Uns vêm de Castelo Branco, Covilhã, outros de Viseu e “reúnem-se na casa mãe como sempre fizeram”.
Maria José orgulha-se da família que construiu na Misericórdia, e lá vai confessando que, no fundo, os filhos até entendem esta sua possível decisão. “Eles sabem que eu não gosto de dar trabalho e com esta idade já podemos escolher o que queremos ou não”, graceja.

“Passo o Natal aqui porque quero. Não fico contrariada”

Esmeralda Mesquita, 90 anos, faz questão de passar o Natal na casa onde reside há 17 anos

Aos 90 anos, Esmeralda Mesquita revela que a sua maior alegria é viver. Apesar de uma dor “aqui e outra ali”, continua autónoma, bem-disposta e encara o envelhecimento como um processo natural. Está na instituição há 17 anos. Tem dois filhos e nunca se sentiu só. “Tenho os melhores filhos do mundo. Sempre presentes. São, na verdade, a melhor herança que o meu marido me deixou”, assume, reforçando que “não se cansa de viver a vida”. Este será mais um ano em que passará as festividades Natalícias na “casa que me acolhe e que agora é a minha. Passo o Natal aqui porque quero. Não fico contrariada”. Esmeralda não gosta do frio. “Aqui estamos tão quentinhos, gosto de me deitar cedo e não quero ficar doente”. E atira: “O Natal é todos os dias e era importante pensarmos nisto o ano todo”. Esta época, na instituição, é repleta de convívio. “Somos uma família. Uns com maior mobilidade, lucidez, mas estamos aqui. Juntos. Unidos”. Quanto a iguarias da época revela que, “até em janeiro, comemos bolo rei. É uma fartura na mesa”, sorri.
Esmeralda não pensa em sonhos por concretizar, nem enche os pensamentos com ambições, agradece apenas ter a cabeça lucida, e quer continuar a manter as suas rotinas como até aqui. “Ainda ontem fui ao cabeleireiro, levanto-me quando quero”. Ficou viúva há 21 anos. Um casamento que durou “muitos, mas muitos anos”. “Ás vezes penso que estava bem ao pé dele, mas não sou eu quem manda. Há dias em que me sinto mais triste do que outros, mas isso faz parte da vida”, reconhece.
Quando questionada sobre o segredo para viver tantos anos, é rápida na resposta. “Sempre tive cuidados com a saúde, aqui somos sempre acompanhados por um médico”. O ambiente “calmo e familiar”, sente na Misericórdia de S. João da Madeira “um local onde encontra cuidados e muito amor”, que se juntam aos que recebe dos filhos, e isso “tem contribuído” para a sua longevidade, rematou.

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