
Aos 23 anos, conquistou o título de campeão mundial de muaythai, na categoria de -75 kg. Gonçalo Noites treina na Iron Legs Academy, em São João da Madeira, e é a prova viva de que é possível conciliar a vida pessoal, profissional e desportiva, embora nem sempre seja fácil. Em poucas palavras, o atleta resume o objetivo da modalidade – “tocar e não ser tocado”.
Jornal ‘O Regional’ – Como é que surgiu a paixão pelas artes marciais?
Gonçalo Noites – Lembro-me que, com oito anos, um amigo do meu pai treinava com o meu treinador [Pedro Alves]. Na altura, desafiou-me a experimentar kickboxing e eu concordei. Andei lá cerca de um mês, mas, como não tinha ninguém da minha idade, acabei por sair. Gostei, mas ainda não era bem “aquilo”. Com 11 anos, fui eu que tomei a iniciativa e chateei o meu pai para voltar a experimentar a modalidade. A partir daí, nunca mais parei.
A transição do kickboxing para o muaythai surgiu naturalmente?
O kickboxing e o muaythai são modalidades bastante parecidas. No muaythai, vale mais golpes – cotovelos, joelhadas seguidas, projeções para o chão. O meu treinador começou a implementar estas técnicas nas aulas e fez-se uma transição para o muaythai. De momento, fazemos tanto muaythai como kickboxing, dado que ambas estão na mesma federação [Federação Portuguesa de Kickboxing e Muaythai]. Quem faz muaythai consegue fazer kickboxing, mas o contrário já é mais difícil; quem faz kickboxing não treina as técnicas de muaythai.
Ao longo dos anos, foi aperfeiçoando a sua técnica. Quando é que se apercebeu que havia potencial para abraçar o muaythai como mais do que um desporto de interesse?
Houve um clique bastante notável. Comecei a combater passado um ano de treinar kickboxing nos escalões de iniciados/juvenis e, no início, correu bem, mas, depois, os combates começaram a correr mal. Não me entregava no combate como deveria. Sempre fui muito bom tecnicamente, mas faltava ali alguma vontade de querer jogar. Acho que me deixava ficar e a técnica não me permitia ganhar tudo, principalmente nas idades mais jovens. Talvez devido à idade, inexperiência, mentalidade… Aos 14/15 anos, houve ali algo que mudou. Apercebi-me que tinha de jogar o jogo e, se queria ganhar, tinha de fazer por isso. Com 15 anos, fiz o meu primeiro combate de muaythai e ganhei. Fui campeão nacional. Já tinha sido campeão regional de kickboxing, mas aquela vitória marcou-me. A partir daí, nos escalões juniores, nunca perdi em Portugal. Comecei a ir aos campeonatos e “limpava” os atletas, tanto os de kickboxing como os de muaythai. Com 17 anos, fui pela primeira vez à Seleção. No campeonato europeu, fui campeão europeu nos escalões de juniores. Entretanto, fui apurado para o campeonato mundial na Tailândia e fui vice-campeão do mundo em júnior. A partir daí, fui quase presença regular na Seleção.
O gosto pela vitória motivou-o a continuar?
Sem dúvida. Em quase todas as provas, conseguia uma medalha [de ouro ou prata]. No ano passado, consegui ganhar os dois jogos no mundial e no europeu nos escalões em sénior.
Foi o primeiro português a conquistar o título de campeão mundial em sénior. O que significou essa conquista e o que envolveu, em termos de treino, para esta vitória ser possível?
Este título foi o culminar de todos os anos de trabalho. Todos os treinos, dietas, combates, experiências passadas, foram importantes para alcançar o título. Nunca tinha conseguido uma medalha de ouro num campeonato do mundo – nem em júnior nem em sub-23 – e, no primeiro ano em que vou como sénior, consigo conquistá-la. Acabamos por conhecer os nossos adversários e eu sabia que era um candidato forte, mas nunca se sabe. O combate em si pode estar a correr muito bem, mas, nos últimos segundos, tudo pode mudar. Senti-me realizado. Quando toca o sino, acaba o combate e apercebo-me que é real… é algo indescritível.
Referiu que o treino, aliado à dieta, é fundamental. Na prática, em que é que isto se traduz?
À exceção do domingo, treino todos os dias. Em alguns dias, treino de manhã e ao final da tarde. Como as categorias são distinguidas por peso, na preparação tenho de ir perdendo peso e já é quase normal toda a gente fazer um “corte” de peso para o combate até à pesagem. Depois, voltamos à hidratação e ao reforço de hidratos de carbono para conseguirmos combater. Posso fazer uma dieta rígida para o combate e sou acompanhado por um nutricionista, porque tenho de perder peso, mas não posso baixar o rendimento nos treinos. A dificuldade dos treinos vai aumentando e a dieta acompanha essa intensidade.
Trabalha há dois anos como engenheiro de software, sendo que, todos os dias, treina na Iron Legs Academy. De que forma concilia a vida pessoal e profissional com a vertente desportiva?
Acabo por ter de abdicar de algumas coisas. Afinal, trabalho o dia todo e treino ao final da tarde… Às vezes, posso ir ter com uns amigos à noite, mas nunca dá para muito tempo. No dia seguinte, é dia de trabalho e de treino. É difícil conciliar tudo, principalmente com a dieta. Perto das competições, a dieta começa a apertar e ter de fazer a minha vida normal é um desafio. No entanto, ninguém me obriga a fazer o que faço; eu é que escolhi abdicar de algumas coisas.
Quais são os teus objetivos desportivos para os próximos tempos?
Este ano, estou a experimentar o lado mais profissional da modalidade; ou seja, fazer combates sem proteções. Comecei o ano com alguns azares, nomeadamente uma lesão e alguns combates que foram cancelados devido a um adversário lesionado. Por isso, combati só uma vez sem proteções – só com luvas – em kickboxing, em K1. Ganhei o combate; já não combatia desde o europeu e deu para “matar” as saudades. Já não combatia em Portugal desde 2019, penso eu.
No futuro, pondera enveredar pela vertente profissional, fazendo do muaythai um estilo de vida a tempo inteiro?
Não. Gosto do muaythai e sempre consegui conciliá-lo nos tempos de escola/faculdade/vida profissional, mas sempre encarei a modalidade como um hobby; não como um hobby “normal”, até porque é algo que levo a sério, mas sem nunca querer abdicar da outra parte da minha vida. Por exemplo, os meus amigos dão-me feedback de apoio para seguir uma carreira profissional, mas sei que a família… sei que custa ver os combates. Vejo isso pela minha irmã, que também treina em combate, e já me custa vê-la em cima do ringue. Por isso, o facto de os meus pais não quererem que siga a vertente profissional a tempo inteiro é normal. Por outro lado, sei que sou bom no que faço em termos profissionais.
Numa modalidade que conhece tão bem, quais são as suas referências?
A minha maior referência é o Diogo Calado. Foi alguém que conheci logo no início da minha carreira de muaythai. A nível atlético, admiro-o muito. Participei nos jogos mundiais nos Estados Unidos em 2022 e o Diogo foi meu colega de quarto. Tivemos imensos momentos de partilha e foi ótimo poder falar com ele de todas as vertentes do muaythai. A treinadora dele, a Dina Pedro, ajuda-nos muito; é uma das melhores treinadoras em Portugal. Sempre fomos muito próximos da equipa dela e foi ela que me convocou a primeira vez para ir à Seleção. Há uma proximidade especial e estou extremamente agradecido a ambos, por motivos diferentes.
Dada a presença assídua da Iron Legs Academy, que papel assume o clube na sua vida?
Já é uma segunda casa. São muitos anos ao lado da equipa e do meu treinador. Conheço-o desde os 11 anos e já passamos por muitas fases, preparações, campeonatos… Nas preparações, sofre-se um bocadinho fisicamente para poder estar na máxima performance no combate. Já passei por muito aqui, mas sempre foi algo que quis fazer. Gosto e não troco por nada. De uma relação treinador/atleta, a minha relação com o Pedro foi evoluindo para amizade. Há uma relação próxima que ultrapassa a vertente atlética.
O que acha que os atletas da Iron Legs Academy pensam das suas várias conquistas?
Os mais pequeninos ficam fascinados com os títulos. Os mais velhos reconhecem o valor das conquistas, principalmente aqueles que já combateram; ver um colega de treino que teve alguns sucessos desportivos dá-lhes uma motivação extra. Acho que consigo inspirá-los e mostro-lhes que é possível. Não fiz nada de diferente; fiz uma escolha. Trabalhei para isso e, com empenho, outros atletas conseguem alcançar estes patamares.
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