Cultura e Lazer

“Terra Inesgotável” encerra-se no Museu do Calçado com elogios à audácia e à cooperação entre comunidades

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A vereadora Irene Guimarães, abriu a sessão destacando que o Museu do Calçado “não é um depósito apenas de memórias, mas algo dinâmico, que pretende transparecer o que é realmente a arte e aquilo que representa muito das vivências e da história de São João da Madeira”. Sublinhando a importância da instituição para a identidade local, recordou que “o município só tem de estar grato pelo trabalho que aqui é feito, um trabalho que continuará a representar a cidade e a levá-la mais longe”.
Seguiu-se a intervenção da diretora do Museu do Calçado, Sara Paiva, que começou por sublinhar o caráter singular da instituição, afirmando que “o Museu do Calçado não é um museu de património industrial, não é um museu de território, não é um museu de design, mas é o único museu sobre calçado em todo o país”. Explicando que o museu “não cabe em gavetas”, mas antes “ocupa todas elas”, representando um espaço de pertença, cooperação e partilha. Foi essa ideia que levou a equipa a convidar o curador Pedro Carvalho de Almeida e o designer Abhishek Chatterjee para desenvolverem a exposição, resultado de “dez anos de investigação”, que surpreendeu muitos pela sua atualidade. “É muito curioso, porque é provavelmente surpreendente para muitos que o Museu de Calçado acolha uma exposição que trabalha sobre o hoje. Muitas vezes os museus continuam fechados nas suas redomas, e esta exposição foi recebida com uma audácia feliz e necessária”, afirmou.
Sara Paiva defendeu que o museu “não é apenas um museu, mas um co-museu”, um espaço de cocriação e diálogo entre comunidades, artistas e instituições. “Todas aquelas expressões que se têm vindo a diluir, a cooperação, a coletividade, a cocriação, são para nós fundamentais. Queremos abrir portas a outras coletividades, municípios e criadores, assumindo um papel fulcral para o desenvolvimento da nossa ideia de museu”, afirmou. A diretora destacou ainda a dimensão sustentável da exposição, explicando que “quando falamos em sustentabilidade num calçado, a primeira coisa em que se pensa são os materiais, mas sustentabilidade é muito mais do que isso”. Para Sara Paiva, trata-se também de “conhecer os pequenos círculos: quem colocou a semente do linho no chão, quem fiou, quem bordou, quem colou os sapatos e os trouxe até nós, e partilhar essas histórias com quem nos visita”.
O curador da exposição, Pedro Carvalho de Almeida, reforçou essa visão, sublinhando que “a exposição teve início no Dia de Portugal e das Comunidades, e não havia outra hipótese senão prestar homenagem às artes tradicionais portuguesas, às raízes culturais e às comunidades de produção artesanal”. Para o curador, “o calçado aqui surge como veículo de disseminação de cultura, como pretexto para trazer à superfície o trabalho de quem muitas vezes fica esquecido nas povoações de baixa densidade, onde ainda se guardam os saberes ancestrais”.
Pedro Carvalho de Almeida recordou ainda o percurso da mostra, que ao longo de dois meses integrou oficinas de selagem manual, bordado de arraiolos, feltragem e fabricação de sapatilhas DIY, além de conversas e seminários que “deram a oportunidade de mergulhar nos bastidores da exposição e compreender o processo que lhe deu origem”. Defendeu que “Terra Inesgotável” representa uma viagem por Portugal através dos têxteis tradicionais e das suas matérias-primas locais, destacando que “a lógica subjacente centra-se na divulgação daquilo que é produzido manualmente, segundo técnicas tradicionais e com profundo significado cultural”.
A sessão contou também com uma mesa redonda intitulada “Legados de uma Terra Inesgotável”, moderada por Sara Paiva e Pedro Carvalho de Almeida, que reuniu Ana Pires, investigadora têxtil; Helena Cardoso, designer; Fátima Pombo, diretora do ID+ da Universidade de Aveiro; e Florbela Silva, do CTCP FabLab. Seguiram-se as homenagens ao Prémio European Heritage Europa Nostra Awards 2025, atribuído à tecelagem de Almalaguês, e a José Carlos e Pinho, bem como a doação de peças da exposição a vários municípios, entre os quais Cabeceiras de Basto, Felgueiras, Tondela, Coimbra, Arraiolos e São João da Madeira.
O encerramento ganhou um tom poético com o momento musical “Cantares do Tear”, interpretado pelas Mulheres de Bucos, da Casa da Lã, cuja atuação evocou o verdadeiro fio condutor da exposição: a ligação entre o passado e o presente, entre a terra e o trabalho manual. Nas palavras de Sara Paiva, “esta exposição não se limitou a abrir portas, lançou sementes”.

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