Cultura e Lazer

“Quem faz banda desenhada tem de o fazer por prazer”

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A nova obra de banda desenhada de Sofia Neto confronta o leitor com um universo onde a intervenção clandestina nos comportamentos de outros, a fragilidade laboral e a ausência de pensamento crítico se cruzam numa narrativa que desestabiliza e exige atenção. A autora acompanha Ana, protagonista que intervém na vida de desconhecidos através de um dispositivo de efeitos imprevisíveis, enquanto questiona a velocidade, a procura por resultados imediatos e a perda de espaço para o erro num campo artístico cada vez mais pressionado. A meio deste percurso surge a própria autora – Sofia Neto, sanjoanense cujo atelier se manteve sempre em São João da Madeira – que fundamenta o trabalho na investigação, no ensino e na observação quotidiana. O resultado é uma reflexão sobre criação, leitura e resistência num mercado reduzido, mas onde a banda desenhada continua a afirmar valor estético, crítico e narrativo.

 

Jornal O Regional - A exposição “Da noite para o dia”, que está patente no Clube do Desenho, no Porto, é uma banda desenhada que tem como protagonista Ana. Que história é contada neste trabalho e quem é essa personagem?
Sofia Neto - A exposição, que tem apoio do Criatório, é centrada numa banda desenhada com o mesmo nome, e além de pranchas originas e impressões das páginas finais inclui elementos do processo criativo e uma seleção de desenhos feitos à vista e de imaginação entre 2015 e 2025. “Da noite para o dia” acompanha Ana enquanto leva a cabo um trabalho pouco convencional: é contratada para usar um dispositivo que altera o comportamento em pessoas sem que o saibam. Um dia é abordada por Luca, que lhe propõe que use o dispositivo nele. É uma história que reflete sobre a conveniência da ignorância e sobre a força do contacto humano.

De que forma é que a Ana altera o comportamento de pessoas sem que as pessoas o saibam?
A Ana encontrou um método: primeiro tenta perceber a rotina das pessoas em que vai intervir, depois usa estratégias para os sedar e fazer emboscada onde vivem. Usa o dispositivo, que tem efeito imprevisível, regularmente, até que quem a contratou identifique a alteração que pretende e a mande parar.

As personagens que cria nos seus trabalhos espelham a sociedade atual?
Não sei bem se as personagens o fazem, mas tento que as histórias toquem em problemas contemporâneos ou intemporais. Nesta história estão latentes os temas do trabalho precário e da ausência de pensamento crítico, por exemplo.

Esta banda desenhada foi criada no contexto de uma Bolsa de Criação Literária da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e vai ser editada no próximo ano. Com esta publicação, quantos serão os seus livros de banda desenhada já editados?
A solo, será o quinto livro de banda desenhada que tenho publicado. Contando as participações em antologias coletivas de banda desenhada e trabalho de ilustração, já tenho trabalho editado em cerca de 16 livros.

O que aprendeu com a primeira experiência de ensino no Centro de Arte de São João da Madeira e de que modo essa vivência marcou a forma como hoje conduz o trabalho em banda desenhada?
Comecei a dar aulas de banda desenhada no Centro de Arte de São João da Madeira em 2014, e foi o contexto ideal para me introduzir ao trabalho de professora. Tive a oportunidade de conceber cursos e workshops, experimentar diferentes métodos de ensino, e trabalhar com alunos de idades muito diferentes. Pude também organizar conversas e workshops com outros autores. Foi uma experiência importante para criar a base para o trabalho que vim a desenvolver noutras instituições. O trabalho de ensino leva-me a descobri trabalhos e autores regularmente, a questionar e desmontar problemas relativos à criação, e a ver como outros resolvem esses problemas. Tudo isso afeta de alguma maneira a forma como abordo fazer imagens e banda desenhada.

Que obstáculos identifica atualmente no ensino de banda desenhada em Portugal e como procura contorná-los nas formações que ministra?
O maior obstáculo parece-me ser a progressiva falta de poder de compra do público. Além disso, é comum um aluno de banda desenhada procurar um resultado muito específico muito rápido, e há quem não aceite que o desenvolvimento da prática do desenho e da linguagem da banda desenhada levem tempo. Hoje a tónica está na partilha e no reconhecimento e validação imediatos, e não é dada importância ao processo, à experimentação e ao erro. O mais difícil é comunicar o valor dos dois.

De que modo a investigação que desenvolve sobre banda desenhada influencia as práticas pedagógicas que constrói e a leitura crítica que procura transmitir aos alunos?
O meu trabalho de investigação começou por se focar na banda desenhada, na forma como a imagem comunica a narrativa e como o leitor pode encontrar diferentes camadas de informação nos desenhos. Ultimamente tenho estudado o papel do ilustrador na criação de conteúdo em que combina texto, imagem e formato, nomeadamente em revistas ilustradas para crianças. Investigar é questionar práticas, ideias e refletir sobre elas, que acaba por ser uma parte integral no planeamento de aulas e uma ferramenta importante para qualquer artista. Manter um diálogo entre o que fazemos e o que os outros fazem e alimentar o pensamento crítico fazem com que continuemos a evoluir, e tento mostrar isso a alunos. Sem isso, a aprendizagem reduz-se ao desenvolvimento de técnica.

“Quero que o leitor seja capaz de reconhecer intuitivamente um gesto ou atitude no desenho”

Nas bandas desenhadas que cria, a que dá mais importância – à história ou ao desenho?
A história e o desenho aparecem ao mesmo tempo, e alimentam-se um ao outro. Não os consigo dissociar. Dou muita atenção ao desenho pela responsabilidade que tem em narrar, sobretudo aos corpos e gestos.

Nas suas criações de banda desenhada, o que procura transmitir, valorizar e partilhar?
Gosto de criar histórias que afetem e destabilizem o leitor, de lhe tirar o tapete quando se sente seguro e de deixar pistas nos desenhos. Gosto de explorar relações entre personagens e de trazer figuras, momentos e reações observadas no dia a dia para histórias que invento. Quero que o leitor seja capaz de reconhecer intuitivamente um gesto ou atitude no desenho, ou que sinta que cada personagem tem vida além da história.

O que é que a fascina na banda desenhada, enquanto expressão artística e narrativa?
A forma como qualquer pessoa com um lápis e papel pode criar uma história com a complexidade e improbabilidade que quiser. Não é preciso saber desenhar ou escrever de uma certa maneira, basta comunicar de maneira eficaz.

Apostar nesta forma de expressão artística e narrativa, a banda desenhada, é um ato de resistência, se pensarmos que há cada vez menos leitores de literatura em geral e que a banda desenhada se destina a um nicho pequeno de leitores?
A DGLAB indica um aumento dos hábitos de leitura entre os jovens, provavelmente alimentado pelo consumo de Mangá, banda desenhada japonesa (http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Paginas/Habitos-de-compra-e-leitura-de-Livros-em-Portugal.aspx). E Portugal tem vindo a valorizar a banda desenhada de maneira institucional – em 2024 a banda desenhada passou a integrar a Academia Nacional de Belas Artes, este ano foram reforçadas as bolsas de criação literária da DGLAB e anunciou-se agora a criação de um Prémio Nacional de Banda Desenhada de três categorias de 10000 euros cada. Se fazer banda desenhada é um ato de resistência, será sobretudo pela realidade precária dos autores e do facto da pequena dimensão do mercado português não garantir a sobrevivência profissional de um autor. Nestas condições, quem faz banda desenhada tem de o fazer por prazer.

Acredita que a banda desenhada pode ser um incentivo para as pessoas lerem mais e diversificarem os géneros literários que possam ler?
Há quem argumente essa capacidade da banda desenhada de atrair leitores. Acho que deve ser valorizada, mas é importante não se reduzir a banda desenhada a essa função. Com livros como o Maus, por exemplo, demonstrou-se que a banda desenhada é capaz de contribuir para a comunicação de assuntos pesados e violentos de maneira inesperada e impactante, articulando texto e imagem. Ler banda desenhada trabalha a literacia visual e outras dimensões cognitivas e de interpretação. É uma experiência particular que tem valor por si.

A pouca procura da banda desenhada em Portugal estará relacionada com a fraca divulgação e a fraca promoção?
Não sei responder com certeza, mas imagino que passe também pelo trabalho institucional e de bibliotecas de incentivo e facilitação de acesso a banda desenhada atualizada desde cedo.

Quando e como despertou em si o interesse pela banda desenhada, a ponto de ter feito toda a sua carreira académica e desenvolvido a sua atividade profissional em torno desta área?
Banda desenhada do meu pai, que encontrava em livrarias e bibliotecas sempre me afetou de uma maneira muito particular, sobretudo o desenho e a forma como carrega uma história. Sempre desenhei e procurei reproduzir esse afeto em mim e noutras pessoas através do desenho.

O seu atelier continua a ser em São João da Madeira?
O meu atelier foi sempre em São João da Madeira, em casa.

E continua a não prescindir do estirador para trabalhar?
Sim, o estirador que uso foi-me comprado pelos meus pais quando comecei o curso de artes visuais na escola secundária. Continua a ser o meu espaço de trabalho e gosto que o tampo manchado apareça como fundo de fotografias de trabalho.

“Sempre desenhei e procurei reproduzir esse afeto em mim e noutras pessoas”

Também tem estado ligada ao Encontro Bienal de Ilustração de São João da Madeira (EBIS), um evento internacional organizado pela Junta de Freguesia local, que promove a ilustração, com exposições, concursos, oficinas e atividades paralelas. Que contributo lhe parece que este evento tem dado para a promoção de jovens ilustradores?
Estive envolvida no Encontro de Ilustração de São João da Madeira entre 2014 e 2019, primeiro enquanto voluntária, depois enquanto membro da comissão organizadora e finalmente enquanto elemento do júri do concurso de ilustração. Foram anos de muita aprendizagem e estou muito agradecida à Presidente Helena Couto pela oportunidade que me deu. Ao longo desses anos, o concurso era o maior contributo para a promoção de jovens ilustradores. Permitia a participação de ilustradores de qualquer nacionalidade e estatuto profissional, e como consequência muitos ilustradores jovens eram selecionados e expostos entre pares mais experientes, pela qualidade do trabalho que submetiam.

Quem são os seus ilustradores favoritos e porquê?
Custa-me nomear alguns, tenho admiração por muitos ilustradores. Acho o trabalho da Maria Kheil, do João Fazenda e da Amanda Baeza extraordinários. Jillian Tamaki, Nicolas de Crécy, Beatriz Lostalé, Nuria Tamarit, Bill Bragg, Lorenzo Mattotti...

E, para si, qual é e por que razão a obra-prima de referência na banda desenhada?
Não consigo nomear uma só obra, não faz justiça à variedade da banda desenhada. Posso falar de livros que a meu ver são exemplares por razões variadas: ‘Watchmen’ do Dave Gibbons e Alan Moore, ‘Here’ do Richard McGuire, ‘Prosopopus’ do Nicolas de Crécy, ‘My Favorite Thing is Monsters Vol.1’ da Emil Ferris, ‘Black Hole’ do Charles Burns, ‘Building Stories’ do Chris Ware, ‘Celestia’ do Manuele Fior, ‘Sunnymoon’ do Blutch, ‘Dead End’ do Thomas Ott, ‘Saccage’ do Frederik Peeters, ‘Arzach’ e ‘Les Yeux du Chat’ do Moebius, este último com texto do Jodorowski. Podia continuar.

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