
Depois da visita performativa, no Museu do Calçado, o projeto Interferências 1.0 está a preparar uma instalação sobre as mãos que fizeram chapéus, que estreia na próxima sexta-feira, no Museu da Chapelaria, com direção artística de Cláudia Ribeiro.
“Invisíveis” é uma instalação artística, que foi criada para o Museu da Chapelaria e partiu das histórias partilhadas, desde janeiro, no projeto Interferências 1.0, e de outros elementos da história da cidade, como fotografias de uma recoveira e da banda de música.
Conforme explica Cláudia Ribeiro, a investigação contou com entrevistas a ex-trabalhadores dessa indústria e ao professor Daniel Neto, que mostrou muitas das fotografias que serviram de inspiração.
“Mostrou uma fotografia de uma recoveira, lindíssima, com fato preto muito pesado, com uma rodilha preta lindíssima — visualmente porque aquilo depois transporta uma dose tão negra — onde levava chapéus”, conta a figurinista a ‘O Regional’.
O objetivo do projeto não era tanto “dar uma carga negativa”, mas “pegar nessa ideia dos unhas negras e transportá-la” para a criação. “Vamos tapar a máquina que veio substituir o trabalho dos unhas negras”, refere, explicando que, ao todo, trabalham com cerca de 400 chapéus de feltro, recortados em pedaços, construindo assim “um objeto escultórico”.
Outra ideia presente na instalação é a de relicário: “a ideia de que os museus e todos nós somos um relicário e que a cabeça onde o chapéu entra tapa um relicário”.
As mãos foram trabalhadas, fotografadas e desenhadas. Há mãos que “vão ser colocadas na parte de baixo do objetivo, que são as mãos invisíveis, que trabalharam nos chapéus”.
“Vamos olhar para a peça e tentar perceber o que ela nos diz”, deseja Cláudia Ribeiro, informando ainda que a instalação integra igualmente um livro.
“Tem uma capa em feltro, com uma frase que o filho de uma das senhoras escreveu, dentro estarão as fotografias de toda esta gente, das mãos”, partilha a figurinista, esclarecendo que não será um catálogo, mas um objeto artístico por si mesmo.
Ilan, de 11 anos, escreveu: “a minha vida foi um futuro, para toda a minha família”.
No total, participaram 22 pessoas na criação e construção de “Invisíveis”. A diretora do museu, Joana Galhano, esclarece que algumas transitaram da primeira fase do projeto, “quiseram dar continuidade à sua participação” e há “participantes novas, que não tinham tido a possibilidade de participar no primeiro ou que estavam especificamente interessadas em trabalhar a temática da chapelaria”.
A responsável também informa que o projeto Interferências 1.0 continua a trabalhar com comunidades migrantes, bem como antigos chapeleiros, o grupo de tricot do Bairro do Orreiro, elementos da associação Ecos Urbanos e outras pessoas, “amigas de outras que participam”. “Já temos pessoas que trazem os filhos a participar”, destaca ainda.
A instalação é apresentada na próxima sexta-feira, às 20h30, e tem repetições no sábado e no domingo. A entrada é gratuita, mas limitada à lotação do espaço e carece de levantamento prévio de bilhete.
O projeto Interferências 1.0 foi desenhado pela Divisão de Ação Social do Município de S. João da Madeira e é desenvolvido pelo Teatro da Didascália e financiado pelo programa “Cultura para todos” do Norte 2020. Decorre em S. João da Madeira, em cinco fases, cada uma com uma temática, até julho de 2022.
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