Trabalhar em tempo de coronavírus

Trabalhar em tempo de coronavírus

São outros heróis da resistência à Covid-19. São profissões que também estão expostas ao risco, por serem obrigadas ao contacto constante com o público. São profissões, onde não foi permitida “pausa”. O ‘Regional’ foi ouvir testemunhos de quem nunca deixou de trabalhar e lida diariamente com o medo de contagiar e ser contagiado.

Mesmo com «Portugal fechado em casa», e a recorrer ao teletrabalho, perante uma pandemia, muitos profissionais foram obrigados a sair de casa para trabalhar. Não são médicos, nem enfermeiros, mas também correram, e correm, riscos permanentes de infeção da covid-19.
Manuela Vilar é assistente operacional no Hospital de S. João da Madeira. “Claro que vim sempre trabalhar com medo de ficar infetada, como aconteceu com uma colega minha, principalmente quando se tem uma mãe com 85 anos”.
Os dias não foram fáceis neste Serviço de Urgência. “Recebemos muitas pessoas que diziam apresentar sintomas de covid-19. O receio estava instalado em todos e isso era visível”. Eram estes assistentes operacionais, a primeira cara que os utentes encontravam. A “triagem” começa na verdade ali através de um pequeno questionário para perceberem se existe alguma suspeita do coronavírus. “O Hospital de S. João da Madeira ainda hoje está a receber pessoas de vários concelhos, inclusivamente de Ovar, que preferem vir ao nosso serviço de hospital”, disse-nos Manuela, na passada segunda feira, ao final da manhã, numa altura em que já tinham passado por aquele serviço cerca de 30 doentes, “todos sem qualquer indicação de covid-19”. Esta assistente explica, ainda, que, neste momento, as pessoas “começam já a perder o medo e começam a regressar ao hospital”.

“Somos os lixeiros, mas quem suja são os limpos”

Jorge Soares trabalha há 20 anos na empresa SUMA – Serviços Urbanos e Meio Ambiente, S.A. Reconhece que, à semelhança de outras profissões, a sua teve também um papel fundamental desde março, altura em que surgiu com maior intensidade o surto de covid-19 em Portugal. “Não podíamos parar, principalmente, numa altura em que as famílias estavam em casa e o lixo produzido aumentou”, reconhece este encarregado.
Como em outras profissões, os hábitos e algumas rotinas tiveram que ser ajustadas e adaptadas para que a cidade não tivesse lixo nas ruas. “Existiu sempre articulação permanente entre a empresa e a Câmara de S. João da Madeira, tanto na prevenção dos funcionários, como na recolha de resíduos sólidos urbanos, desinfeção de ruas, contentores, papeleiras e outros equipamentos urbanos”.
Jorge Soares garantiu ainda a ‘O Regional’ que nem todos reconhecem esta profissão. “São poucos ainda os que nos respeitam. Somos vistos como os lixeiros, mas quem suja são os limpos”. Muitas vezes deparamo-nos com o “estacionamento de viaturas que nos dificulta o normal funcionamento do nosso trabalho”.
Jorge Soares fez questão de salientar e destacar o “esforço, a coragem e toda a dedicação dos seus colegas de profissão” que “nunca baixaram os braços” nesta al­tura de confinamento, desempenhando as suas tarefas como o mesmo rigor e responsabilidade”, rematou.
É verdade que os farmacêuticos não estão tão expostos como médicos ou enfermeiros que trabalhem a nível hospitalar, mas não é menos verdade que as farmácias são ainda, nos dias de hoje, a porta de entrada para o SNS, sendo que todos os dias lidam com dezenas de utentes, sem nunca saber quem é que pode estar ou não infetado. “As coisas estão neste momento mais calmas, mas foram dias de grande exaustão, pois as pessoas queriam medicação para vários dias, depois surgiu a procura do álcool, do gel, luvas e máscaras”, explica Tiago Santos, farmacêutico na Farmácia Central, em pleno centro da cidade. Com todas as regras impostas pela Direção Geral de Saúde, assume que deu sempre o seu “melhor” num “corre-corre de medos e receios para clientes e para profissionais”.

“A nossa faturação manteve-se igual”

Paulo Silva, proprietário da padaria e pastelaria Flor do Canadá, em S. João da Madeira nunca parou e teve a mesma ro­tina, com os seus 11 funcionários. “Mantive sempre a mesma rotina e normalidade, seguindo as normas de segurança impostas pela Direção Geral de Saúde” e, perante dias de confinamento, a mensagem que passava aos clientes e funcionários “é que temos que viver um dia de cada vez”, pois entende que de outra forma não seria possível lidar com este tempo, que agora começa já a ganhar alguma normalidade.
Nesta padaria, na Avenida Benjamim Araújo, “pouco ou nada mudou”, pois Paulo Silva assegura que “a nossa faturação manteve-se sempre igual. O modelo das mesas desapareceu, mas foi superado pelo serviço take-away”. Porém, foi ainda necessário “reforçar” os produtos, uma vez que as pessoas “estavam em casa e consumiam mais”, assume o proprietário.

“É importante não mostrar fraqueza nestas alturas”

Fernanda Castro trabalha numa IPSS, que continua a dar apoio aos idosos, assegurando as refeições e a medicação aos utentes. “Nunca tive receio de nada, porque riscos corremos, na verdade, todos os dias. O que mais me fazia confusão era ver a cidade deserta e não me cruzar na estrada com nenhum carro. Era estranho e isso obrigava-me, muitas vezes, a uma reflexão da situação”. Quando chegava ao trabalho, “ali dentro eram dias normais”, o que mudava eram as normas de proteção exigidas, que “sempre foram muito bem asseguradas” na sua empresa.
Fernanda diz que trabalhar numa instituição que acompanha idosos a ajudou neste confinamento e nestes dias difíceis. “Pensava que os idosos necessitavam de mim, dos meus colegas e isso superava o medo e tudo o resto”. A juntar a tudo isto, defende que “é importante não mostrar fraqueza nestas alturas”, pois, só assim, “é que conseguimos vencer a pandemia ou noutras situações na vida”.

“As pessoas começaram a levar tudo das prateleiras”

Ana trabalha num hipermercado em S. João da Madeira há vários anos e esteve sempre na linha da frente e, quando o número de casos em Portugal começou a disparar, viveu tudo menos dias fáceis.
“Nunca tinha visto nada assim. As pessoas começaram a levar tudo das prateleiras, sem controlo algum”. Quando passou a haver limite de pessoas, os clientes “entravam a correr para tirar senhas do talho e da peixaria, muitos deles sem máscara, a tossir”, um cenário que diz não esquecer nos próximos tempos. “Estamos habituados ao stress, mas já tive que ajudar uma colega que entrou em pânico sem saber como lidar com os clientes”.
Ana faz ainda questão de chamar a atenção do seguinte: “poucos pensam nisso, mas somos, na verdade, um dos sectores de maior risco, e a única coisa que nos deram, no início, foi gel desinfetante. Por vezes, acabava e não era reposto e eu cheguei a levar muitas vezes de casa para me proteger. Mais tarde, é que vieram as luvas, as máscaras e os acrílicos de proteção”, garante.

António Gomes Costa

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