Construiu os seus próprios brinquedos. Nunca prenunciou o nome dos seus pais, pois “nunca os conheci”. Sonhou e lutou sempre pelos objetivos. Tornou-se homem sozinho, mas nunca desistiu, ou virou a cara a nada. Trabalhou de sol a sol e, hoje, orgulha-se do caminho traçado. Armando Tavares de Almeida, de 87 anos, é muito mais do que um empresário de calçado. Tem um casamento perfeito, desde o serviço militar com a pintura e já perdeu a conta aos quadros que pintou, vendeu ou ofereceu. Acérrimo crítico do trabalho que faz, está a pintar vários quadros para oferecer a S. João da Madeira que retratam a história desta cidade. Foi em sua casa local, onde “desliga de tudo para pintar”, que recebeu ‘O Regional’.
‘O Regional’ – É conhecido pelas suas obras enquanto pintor, antiquário e industrial de calçado durante mais de 50 anos. Pintar para si é uma libertação ou uma necessidade?
Armando Tavares de Almeida – São as duas coisas. Eu tenho dois patamares: a parte laboral e, depois, outra parte da minha vida que dedico à pintura, onde me distancio de tudo. Eu comecei a pintar e a desenhar muito jovem, tão jovem que até fui castigado por pintar nas paredes da escola (risos).
Teve uma vida de empresário, segundo sei, muito intensa. Como se relaciona com a passagem do tempo?
Foi uma batalha muito intensa e que durou muitos anos, um passado de muito trabalho, onde tinha um horário de 20 horas por dia. Trabalhava sábados e domingos. Queria que a minha empresa fosse como uma orquestra. Chegar às 8h e não existirem perguntas, mas só respostas. Neste momento, a minha empresa já tem 63 anos, agora tudo está mudado. Foram anos de muito trabalho e de algum sucesso. Existem novos hábitos, consumos e, aquilo que comercializávamos há 40 anos, hoje já não se aplica e somos obrigados a acompanhar a evolução das coisas. Por isso, este ano, a minha empresa deverá encerrar as portas, mas orgulho-me de ter todas as contas em dia.
Ao fim de todos estes anos, continua a pintar as coisas simples da vida e a buscar inspiração nas coisas da sua cidade?
S. João da Madeira foi sempre, para mim, uma fonte de grande inspiração. Eu conheci muita gente que hoje está retratada nos meus quadros. Tenho muitos quadros de heróis sem nome, que tanto trabalharam, deram de si para que S. João da Madeira seja aquilo que é hoje e destaco ainda um quadro de homenagem ao escritor João da Silva Correia.
87 anos podem ser também uma idade de reflexão sobre a vida e sobre a carreira. Sente-se um homem recompensado com o que criou até agora e com a recepção às suas pinturas?
Não é fácil responder a essa pergunta. Para se fazer, seja aquilo que for, temos que gostar, de nos entregarmos de verdade ao que estamos a fazer. Eu não me posso queixar de falta de reconhecimento por parte de pessoas e entidades, mas o grosso da coluna não está muito motivado. Tenho muitos quadros comemorativos e outros relativos à indústria e à sua evolução.

Manuel Tavares o homem que pinta a história da cidade
A sua pintura, para muitos, é como um livro de História de S. João da Madeira, que proporciona aos mais novos o conhecimento do que era, em muitos quadros que pinta, a terra, instituições e momentos marcantes da comunidade sanjoanense. É um homem orgulhoso com todo este espólio que, na sua maioria, é oferecido?
Claro que me orgulho do meu trabalho e questiono-me, muitas vezes, se fui eu que pintei determinados quadros (risos).
Eu tenho vários quadros que abordam a evolução de S. João da Madeira e estou a pensar oferecê-los à cidade, para lhes reservar um lugar, aquele que considerarem que os mesmos merecem, para que a população os veja e aprecie.
Os meus quadros são a história de S. João da Madeira passada para o pincel. Se a cidade der valor àquilo que eu pinto, fico contente. Se não o fizer, vou continuar a pintar como até aqui, com toda a certeza.
Esses quadros que revelam a história de S. João da Madeira servem também de alerta para os jovens perceberem as dificuldades desses tempos?
Claro que sim, pois a maioria deles não sabe do sofrimento destas pessoas. Não foram rosas – eram mesmo espinhos e eu conheci muita gente, desses, muitos andavam a pedir.
Nessa altura existia o dia da esmola, não era?
Existia, sim. As pessoas iam nesse dia destinado às fábricas pedir as esmolas.
Ao longo de todos estes anos, que pinturas quer destacar?
Todos os que pintei e os que revelam as qualidades e virtudes dos sanjoanenses.
De que virtudes fala dessa altura?
Iniciativa, amizade, honestidade e entre-ajuda são apenas algumas.
“Para pintar tenho que me desligar de tudo”
Está habituado a retratar para várias personalidades e entidades, como instituições ou sanjoanenses mais marcantes. De que forma se inspira nestes quadros tão pessoais?
Inspiro-me nas memórias, nos sacrifícios de muitas pessoas, heróis sem nome. Pergunto-me muitas vezes: O que vais fazer hoje, Armando? E era nessa altura que saíam os melhores trabalhos. A inspiração surge num simples subir das escadas. Para pintar, tenho que me desligar de tudo.
E como se inspirou para pintar vários locais no interior da Esquadra da PSP de S. João da Madeira?
Foi um desafio que aceitei com muita satisfação. Existe ali, na entrada, logo um antagonismo que coloca quem ali chega a pensar, quando olha para a pintura, porque existe sempre uma distância entre a polícia e o cidadão, e isso não é fácil trazer e traduzir em pintura, pois a mensagem pela imagem conseguida é uma forma mais atrativa.
Desenhei ali um coração dividido com as duas mãos. E a grande mensagem que deixo é que, se existir equilíbrio das duas partes, está tudo resolvido. Os meus quadros têm todos mensagens.
Recorda-se do primeiro quadro que fez com mais visibilidade pública?
Lembro-me e está cá em casa. Pintei-o quando cumpria o Serviço Militar. Um quadro camponês de uma senhora a pastar as vacas. Uma pintura simples e, na altura, os meus graduados gostaram do que viram e até cheguei a fazer no quartel exposições.
E como é que atraía os compradores?
Boa pergunta (risos). Tinha lá uma janela numa arrecadação, precisamente na direção, onde se fazia o render da Guarda. Colocava-me lá dentro com a janela aberta, exibia as pinturas e as pessoas iam comentando e acabava por vender tudo.
“Eu conhecia as minhas limitações”
Que materiais usa para pintar?
A pintura a óleo acompanha-me desde os tempos da tropa.
Como foi gerir a vida de empresário com a de pintor?
Eu tive sempre uma vida muito ativa enquanto empresário. A pintura era uma compensação. Eu desligava completamente da parte empresarial. Existia uma barreira, mas isso também só era possível porque, felizmente, tudo estava no lugar, enquanto empresário.
Mas quer com isso dizer que sempre reconheceu ser difícil fazer vida através da arte?
Eu conhecia as minhas limitações, mas sabia que tudo o que pintava vendia, mas era muito difícil arriscar. Mas ainda hoje tenho uma palavra que gosto de utilizar quando acabo de pintar um quadro: conseguiste.
Entre a sua atividade de empresário, colecionador de arte, que lugar é que ficou para o pintor?
Restava sempre tempo para o pintor e para o empresário. Eu, ao longo da vida, fui sempre uma pessoa muito organizada e soube sempre gerir tudo muito bem para nunca falhar. Viajei muito. Visitei muitos museus e confesso que aprendemos muito quando levamos os olhos.
O que sente, quando, carinhosamente, lhe chamam o artista plástico Armando Tavares?
Acho que todas as homenagens que me fizeram foram imerecidas e, por vezes, fazem-me elogios que considero exagerados. Tenho muito para fazer e pouco para falar.
“Nunca pronunciei o nome dos meus pais, pois nunca os conheci”
Quem o conhece descreve-o como um homem discreto e pouco dado às luzes da ribalta. Gostou sempre de passar ao lado da fama?
Tem toda a razão. Sempre fui assim como diz. Reconheço que existe sempre quem faça mais e melhor do que eu. Gosto de ficar sempre na segunda fila como observador.
Mas isso também se aplicou enquanto Armando Tavares empresário?
Como empresário a batalha era muito diferente. Eu, como empresário, trabalhei com quatro sistemas de fabrico e cada um teve a sua época. Um deles patenteei-o. Durante 10 anos fui um rei. A minha empresa produzia 800 pares de calçado por dia, eu só aprovava modelos que tinham que ser rápidos, económicos, bonitos e eficientes para garantir o sucesso.
Aquilo que muitas pessoas não sabem é que já trabalhou numa farmácia…
É verdade. Está muito bem informado (risos). Trabalhei na Farmácia Laranjeira, uns dois ou três anos, tinha eu uns 10 anitos. Depois arranjei outro emprego e saí. Foram sempre meus amigos e ganhei lá um grande amigo para a vida, o Zeca da Farmácia.
Eu fiz apenas a 4.ª classe, mas eu tinha um amigo que andava a estudar e emprestava-me livros, muitos deles até de medicina. Eu fiz questão sempre de aprender.
Como pintor, troquei ideias com o professor e mestre Alves da Silva e aprendi que uma pincelada dada não se toca mais, pois vai perder qualidade, vida, brilho. Ensinamentos fáceis, mas fundamentais, ajudaram-me a ser aquilo que sou hoje.
Fale-me desses tempos do jovem Armando Tavares?
Eram tempos muito difíceis. Nunca pronunciei o nome dos meus pais, pois nunca os conheci. Era um Armando órfão. Fui criado e educado num colégio em S. João da Madeira e, aos 18 anos, saí e tive que me lançar na vida. Sempre apostei em mim só. Tinha que mostrar que, apesar de todas as dificuldades da vida, eu era capaz.
“As tecnologias estão a distanciar as pessoas”
Está a dizer-me, então, que teve uma infância tudo menos feliz, é isso?
Fui eu sempre a criar os meus brinquedos e recordo-me que até uma moto de pedais eu construí. Ao longo da vida, tive que criar o meu mundo. Posso dizer que a infância foi tudo menos feliz.
Como era S. João da Madeira nessa altura?
Era uma terra onde todos se conheciam, existia uma ligação e uma forte amizade entre todos. Confesso que tenho boas recordações. Era uma terra que passou por várias dificuldades, porque aqui eram produzidos essencialmente chapéus e algum calçado.
Em 1950, já existiam mais de 40 fábricas, todas de produção diferente. Foi nessa altura que S. João da Madeira começou a empregar muitas pessoas, pois vinham cerca de 20 mil pessoas todos os dias para cá trabalhar. Recordo-me que nesse tempo nós vivemos muito com a entreajuda entre empresas. Muitas empresas dessa altura já não existem mais, ainda existe uma ou outra que está a laborar.
O que está a pintar atualmente?
Tenho lá um esboço, mas já lhe digo que não gosto dele e nem sei o que vai sair dali (risos).
Oferece muitos quadros que pinta…
Sim, sempre ofereci ao longo da minha vida. E tenho ali um já para oferecer à Tuna. Para ter uma ideia, só os bombeiros devem ter cerca de 30 quadros meus.
Acha que a S. João da Madeira já lhe fez a homenagem merecida?
Como lhe disse, gosto de ficar sempre na segunda fila (risos).
Como vê as novas gerações das artes, numa altura em que o mundo vive um tempo em que a própria definição de arte é muito mais aberta, passando já pelas novas tecnologias?
Temos gente muito interessante a pintar e o leque de oferta é muito maior, pois as novas tecnologias assim o permitem. A arte de pintar evoluiu muito. Mas deixe-me dizer-lhe que tenho muito receio do futuro e vejo-o com muita preocupação.
As tecnologias estão a distanciar as pessoas, as famílias e, a cada dia que passa, perdemos valores. Estamos a ser dominados por máquinas e só nos lembramos da família quando temos uma dor de barriga e isso é muito preocupante.
António Gomes Costa
