“Temos de encarar o futuro com os pés bem assentes no chão”, assegura Pedro Ribeiro

“Temos de encarar o futuro com os pés bem assentes no chão”, assegura Pedro Ribeiro

A época 2019/2020 chegou ao final, ainda antes do tempo previsto, em ano de regresso da Sanjoanense ao convívio entre os grandes do hóquei em patins nacional. Um misto de sentimentos numa época que acaba por ser histórica para o clube, que, com um plantel jovem e com o objetivo da manutenção, acabou por superar todas as expectativas iniciais e conseguir um apuramento para as competições europeias. No entanto, este é também um ano bom para parar, olhar para dentro e refletir sobre o futuro que se quer para o clube, que seguramente terá uma nova realidade. Até porque o clube queixa-se de falta de apoio por parte da autarquia, lembrando que tem duas equipas seniores a disputar a 1ª divisão, que levam o nome da cidade a todo o lado.

Em ano de regresso à 1ª divisão do hóquei em patins nacional, a equipa sénior masculina da Associação Desportiva Sanjoanense entrou em competição com um objetivo claro de manutenção, até porque, como assumiu Pedro Ribeiro, responsável máximo da modalidade do clube, no início da época, “este era o ano zero e o objetivo era a manutenção e nada mais do que isso”. No entanto, e com o decorrer da época, foi-se apercebendo do valor do plantel e, no jantar de Natal com a equipa, elevou a fasquia para o objetivo da qualificação para as competições europeias, mesmo tendo a consciência das dificuldades em conseguir vir a marcar presença.
Pedro Ribeiro recorda o momento quando anunciou esse novo objetivo, que acabou por ser uma surpresa. “Todos os atletas ficaram a olhar para mim de uma forma estranha”, mas lembra que justificou a sua decisão com base no campeonato que a equipa estava a fazer, referindo mesmo que “vocês têm qualidade para isso”, recorda.
E do objetivo definido até à concretização do mesmo passaram-se três meses, altura em que o campeonato foi suspenso e com a equipa a apresentar-se na 8ª posição e em lugar de acesso à Taça WS-Europa. Com isto, o sonho tornava-se realidade, no entanto, com a incerteza a pairar no ar.
Pedro Ribeiro lembra que “não sabemos que apoios vamos ter. Se eram escassos, mais escassos vão ser”, lamenta, lembrando que muitos dos patrocínios vão deixar de contribuir, a exemplo do que já aconteceu esta época, com alguns patrocínios, “que eram faseados”, e com a paragem do campeonato a deixaram de contribuir. “Mas eu não tenho coragem de ir pedir”, reconhece, não deixando de dizer que a saúde financeira do clube atravessa momentos difíceis.
Mas, voltando um pouco atrás no tempo, no início da época, e depois da já assimilada a euforia da subida ao primeiro escalão e do título de campeão nacional da 2ª divisão, o homem forte do hóquei em patins alvinegro assegura que já se tinha apercebido da escassez de apoios financeiros para enfrentar uma realidade completamente diferente da dos últimos anos.
Nesse sentido, recorda que, pela primeira vez em seis anos, “pedi uma reunião com a Câmara Municipal a solicitar ajuda, alertando para as dificuldades que íamos ter. Pois, mesmo com a muita publicidade que conseguisse angariar não iria ser suficiente, ficando muito aquém do valor necessário para enfrentar o campeonato da 1ª divisão. Em causa estavam a organização dos jogos, em que os gas­tos são muito maiores”, referiu. Só que, recorda com um misto de mágoa e preocupação, a Câmara Municipal garantiu que ajudava, “e eu convenci-me disso”, mas, para além da já estabelecida verba de 5.000 euros pela subida de divisão, a que lhe juntou 500 euros de prémio pelo título de campeão nacional, “um valor surreal”, a prometida ajuda tardava em aparecer.
Com um orçamento de cerca de 80.000 euros para a equipa sénior masculina, e sendo um dos orçamentos mais baixos da 1ª divisão, o homem forte do hóquei alvinegro esperava muito mais da autarquia, acrescentando um valor substancial ao contrato-programa, tendo em conta o facto de que também a equipa feminina se encontra a disputar o campeonato nacional da 1ª divisão, “levando o nome da cidade por todo o lado”.
Mas, Pedro Ribeiro diz só ter tido resposta da autarquia à promessa feita na reunião de início de época, em fevereiro de 2020. “E porque fui eu que solicitei uma resposta”, lamenta, recordando que a dita ajuda trata-se apenas de um acréscimo ao valor estipulado no contrato-programa, no valor de 8.000 euros. “É no mínimo surreal”, lembrando que “estávamos apenas a quatro meses do final da época, e eu estava a ficar de mão atadas. No entanto, 8.000 euros para uma equipa que compete numa 1ª divisão não dá para nada”, realça. Apesar de ficar muito aquém daquilo que a direção desejava, para colmatar os compromissos que faltam até terminar a época, a verba acabou por chegar ao clube no início de março, mas, entretanto, o campeonato foi suspenso.

“É muito ingrato para quem anda nisto por carolice ter de esperar seis meses para obter uma resposta da Câmara Municipal” – Pedro Ribeiro

Com a suspensão e, posteriormente, a decisão de terminar o campeonato, a Sanjoanense apurou-se para as competições europeias, um feito que acontece quase 30 anos depois da última participação. E a pergunta impõe-se: a direção já reuniu de novo com a Câmara para perceber quais as ajudas que podem ser dadas para tornar realidade o sonho europeu? Pedro Ribeiro é peremptório na sua resposta, afirmando que “provavelmente não vou reunir. Não tenho o hábito de andar a pedinchar”, lembrando que em seis anos foi a primeira vez que se deslocou à autarquia a pedir uma ajuda, e “é muito ingrato para quem anda nisto por carolice ter de esperar seis meses para obter uma resposta da Câmara Municipal”, lamentou.
“Depois da última reunião que tive com a Câmara Municipal”, reunião essa que contou com a participação do presidente da Sanjoanense, Luís Vargas Cruz, “disse-lhe, que no final da época ia-me embora”, assegurando que tinha tudo programado para que isso acontecesse. “Só não fui embora porque, entretanto, aconteceu esta situação da Covid-19 e, como as coisas já estavam complicadas, mais complicadas iam ficar”, recuando na sua decisão.
Com todas as condicionantes que o clube enfrenta, a estratégia passou por rever o orçamento e “tivemos de fazer cortes salariais”. Mas, já a pensar na próxima época, para além de ordenados mais baixos, o plantel também vai ser mais reduzido, recorrendo, quando necessário “à prata da casa”.
Pedro Ribeiro lembra que o clube não tem capacidade para fazer grandes transferências, até porque “cada transferência que se faça, indo buscar um jogador, pagamos à volta de 1.500 euros”. Lembra ainda que, para a organização de cada jogo no pavilhão da Sanjoanense, “são 800 euros a que se soma, em média, 600 a 700 euros só em policiamento”, sendo que a nível de receitas em bilheteira elas são muito baixas e não cobrem os gastos. “Apesar do pavilhão estar quase sempre cheio, muitos são atletas do clube que não pagam bilhete”, assegura.
Com tudo isto, sente-se cansado e lamenta o facto de, mesmo só havendo uma equipa na 1ª divisão, não haver o apoio que acontece noutros concelhos. “Se formos aqui ao lado, numa Câmara vizinha e virmos o valor que é atribuído ao clube, só por estar lá a competir, comparado com o que nos deram é surreal. Atribuíram-nos 10% desse valor”, lamenta o vice-presidente do clube e responsável máximo do hóquei em patins alvinegro, que diz até ter levado o boletim municipal para a reunião com a autarquia para demonstrar aquilo que afirmava. “Temos de aceitar que a opção da autarquia seja a formação de atletas e não a competição, mas custa-me às vezes ver dinheiro a ser mal gasto, comparado com aquilo que fazemos ao valorizar o nome da cidade”, apesar de admitir que, em termos de disponibilização de instalações desportivas, não se poder queixar.
Pedro Ribeiro lembra o número elevado de atletas em competição, divididos por 13 equipas, sendo que as duas equipas seniores estão a competir na 1ª divisão. Com todos estes escalões, os custos da secção são realmente elevados, mas “não é minha intenção ser coveiro de nenhuma equipa” e, nesse sentido, diz que “temos de repensar naquilo que vamos fazer na próxima época”.
Mas uma certeza deixou: “quem ficar aqui na Sanjoanense na próxima época não será por dinheiro, mas, sim, por amor ao clube, isso posso garantir”, lembrando que baixaram ainda mais o orçamento. “Eu disse aos atletas que prefiro pagar pouco, e se houver alguma oportunidade de vir a dar algum prémio, darei. Prefiro fazer isso do que estar a prometer mundos e fundos e depois falhar”, assegurou.

Nova época já está a ser preparada com o técnico Vítor Pereira

O homem forte do hóquei da Sanjoanense refere que “temos de encarar o futuro com os pés bem assentos no chão e não dar o passo maior que a perna”. É com este espírito que está a ser preparada a nova época, em conjunto com o treinador Vítor Pereira, numa altura em que se avançam alguns nomes de entrada e saída do clube.
Para já, a única certeza confirmada pelo clube e pelo atleta é a saída de José Almeida. Em nota publicada nas redes sociais, a secção anunciou esta terça-feira, 12 de maio, que, “após três anos a vestir de preto e branco, o nosso Zé Almeida está de partida”. O clube deixa os mais rasgados elogios e agradecimentos ao atleta, mas “os tempos extraordinários que vivemos obrigam-nos a tomar medidas extraordinárias que, em situações normais, não seriam tomadas”. Assegura que foi nesse contexto que o atleta deixa o clube.
José Almeida também reagiu nas redes sociais, lembrando que chegou ao final um período de três anos que o ligou à Sanjoanense, e que foram “incríveis, de muitas conquistas e, acima de tudo, de muita felicidade”, não esquecendo os adeptos, para quem deixou uma palavra especial de carinho, qualificando-os de “maravilhosos”. O atleta só lamenta não ter podido ter feito uma despedida como seria pretendido, mas por força das circunstâncias isso não foi possível.
“Levo no coração este clube e estes três anos de muitas alegrias e conquistas”, refere, terminando a sua mensagem com um agradecimento especial a Pedro Ribeiro, que diz ter sido “incansável comigo e me deu a oportunidade de conhecer e trabalhar num clube incrível”.
Já em relação à manutenções no plantel e possíveis entradas, Pedro Ribeiro garante que está a ser tudo tratado, e que provavelmente esta semana já muito ficará definido.
Em relação a Hugo Santos, jovem atleta formado no clube e que fez parte da época por empréstimo do F.C. do Porto, foi assegurado por alguma da comunicação social que estava confirmado por mais uma época o seu empréstimo à Sanjoanense, no entanto, o dirigente alvinegro não confirma essa notícia. “Até à data não está nada confirmado. Sei que ele quer jogar com mais regularidade e a Sanjoanense é uma equipa que ele conhece bem. Julgo que seria o ideal”, afirma. Nesse sentido, garante que “estamos a trabalhar para formar o plantel, se possível com a prata da casa, e vamos tentar manter a base da equipa. Para já, só temos coisas apalavradas. Se conseguisse ficar com aqueles que tenho, já me dava por satisfeito”, desabafa.
Do ponto de vista técnico, Vítor Pereira já olha para o regresso do campeonato. Está confiante, mas admite que será uma nova realidade, alinhando pela ideologia da direção, que passará pelo facto de ter de repensar o orçamento e partir para uma substancial redução salarial.
Pedro Ribeiro já assumiu essa postura e transmitiu-o à equipa e treinadores. “As dificuldades serão muito maiores para os clubes e com isto espero que a modalidade não saia a perder, perdendo a visibilidade que tinha e o estatuto de melhor campeonato do mundo”, afirma com alguma preocupação. No entanto, também olha para esta nova realidade como a possibilidade de uma maior abertura do campeonato aos jovens portugueses, que, por vezes, sentem a dificuldade em se imporem numa competição recheada de estrangeiros. Algo que já acontece na Sanjoanense, onde o plantel está recheado de bons jovens valores da modalidade.

“Por muito que me custe, até porque eu gostava de levar o nome da Sanjoanense pela Europa, mas, se não há ajudas, obviamente que eu não vou fazer mais do que aquilo que já faço pelo clube. Temos de ser
realistas”

Em relação à possível participação da Sanjoanense na WS – Europa, Pedro Ribeiro não quer levantar falsas expectativas, e deixa o aviso aos adeptos que “não quero hipotecar o futuro do clube. Se já estamos com dificuldades em participar no campeonato nacional da 1ª divisão, quanto mais imaginarmo-nos a andar aqui pela Europa fora a viajar. Quem paga?”, deixa a perguntar no ar. “Por muito que me custe, até porque eu gostava de levar o nome da Sanjoanense pela Europa, mas, se não há ajudas, obviamente que eu não vou fazer mais do que aquilo que já faço pelo clube. Temos de ser realistas”.
O dirigente recorda o momento difícil que se vai atravessar e, por isso, compreende que será mais complicado os empresários ajudarem. E, se não houver essa ajuda nem apoio da autarquia, “tudo se torna muito mais difícil”, lamenta. “Espero que a autarquia não nos corte as verbas previstas no contrato-programa, e que pelo menos se mantenham”, refere.
Apesar desta incerteza quanto a uma possível participação nas competições europeias, Pedro Ribeiro garante que a equipa “vai entrar no campeonato com a mesma vontade e determinação”, com o sentimento de este ano ter mais garantias pela experiência adquirida ao longo de todas esta época. “Já falei com o Vítor para definirmos a equipa e vamos ver como as coisas vão correr”.
Mas nem só de falta de ajudas financeiras se queixa o dirigente. Também a falta de apoios humanos na estrutura do clube, para apoiar todos os escalões, é outra das evidências que lamenta estar a acontecer. “Toda a gente gosta do hóquei na cidade, mas quando chega a hora das contas e do apoio organizativo do clube, toda a gente salta fora”, lamenta Pedro Ribeiro, que fala numa “carência de pessoas para ajudar o clube na formação”. E recorda o caso da equipa de Sub-23, que durante toda a época apenas tinha nos treinos os jogadores e o treinador. “Se não aparecer ninguém para ajudar é complicado. Não peço para meterem lá dinheiro, apenas peço que possam vir ajudar”, lembrando que a secção “não é só os seniores”. Até porque, garante, a aposta na formação é para continuar, estando a ponderar substituir a equipa de Sub-23 por uma equipa B, que irá competir no campeonato nacional da 3ª divisão, de forma a “dar continuidade a estes miúdos, porque temos uma formação excelente”.

Vítor Pereira realça o campeonato feito “acima das expectativas”

Em ano de regresso à 1ª divisão de hóquei em patins, a Sanjoanense entra com o “patim direito” numa época que, apesar de todas as contingências, acabou por ser francamente positiva para os alvinegros. “Fizemos um campeonato acima das expectativas”, refere o treinador, Vítor Pereira, perante os resultados alcançados, com base numa equipa bastante jovem. O técnico enfrentou o campeonato sem receios, tendo mesmo conseguindo bater o pé aos grandes da modalidade.
Com isto, alcançou a 8ª posição e o acesso às competições europeias, um feito que já não acontecia quase há 30 anos, quando em 1991 esteve a competir na antiga Taça CERS.
Por mérito próprio e com o sexto jogador, que foi uma grande mais-valia em todos os jogos, mesmo os disputados fora de portas, alcançou o acesso para disputar na próxima época a WS-Europa. E, acima de tudo, fez aumentar o amor dos sanjoanenses pela modalidade, fazendo relembrar os bons velhos tempos da década de 1980, quando o clube alcançou a Taça das Taças, com o pavilhão a “rebentar pelas costuras”.
Colocado o ponto final nesta época, e com novas perspetivas para o futuro, que podem passar pela Europa, Vítor Pereira alimenta esse sonho, mas é também realista, ao perceber que as questões financeiras poderão ditar o caminho a seguir no próximo ano. “Seria um grande orgulho poder representar as cores da Sanjoanense nas competições europeias, no entanto, só com a ajuda de todos esse objetivo pode ser alcançado”, refere o técnico, deixando o apelo aos empresários da terra para que se possam unir e contribuírem para a concretização desse sonho.
Em relação à forma como o campeonato teve de terminar, o treinador, apesar da tristeza, concorda com a decisão. “Gostaria de continuar o campeonato até ao fim, com os nossos fervorosos adeptos a apoiarem-nos de forma incondicional, mas isso não foi possível, e com muita tristeza tivemos de encostar os patins. Mas o mais importante era garantir a saúde de todos”, assegurou.

Paulo Guimarães

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