Sociedade

Vendedores sobrevivem às grandes superfícies e ao passar dos anos

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Às seis da manhã, o cheiro do peixe fresco mistura-se com o dos legumes. As portas do Mercado Municipal em São João da Madeira abrem-se lentamente, e com elas começa mais um dia para quem há décadas vive atrás da banca. São vendedores que resistem ao tempo, à concorrência das grandes superfícies e às mudanças nos hábitos de consumo, mantendo vivo um espaço onde a tradição ainda tem lugar.

Maria Luísa, 74 anos, é uma dessas figuras incontornáveis do Mercado Municipal. Está ali desde que se lembra. O negócio do peixe faz parte da família há gerações e continua, pois, o seu filho também já tem a sua banca de peixe. “A minha bisavó era natural de Barcelos e já vendia lá peixe à cabeça. A minha mãe deu continuidade a esse negócio e, quando veio viver para São João da Madeira, começou a vender no mercado. Eu cresci aqui. Tenho memórias de tudo”, recorda.
Hoje, partilha a banca com o marido, Fernando Santos, de 78 anos. O casal mantém uma rotina marcada por horários exigentes – deitam-se cedo, pois por volta da uma da manhã já se levantam e às três estão na lota de Matosinhos para garantir o peixe mais fresco. “É uma vida difícil, mas já estamos habituados”, admite Fernando. Acrescenta ainda que “o que havemos de fazer com esta idade, parar seria pior – pelo menos sentimo-nos úteis”.
Apesar do esforço, Maria Luísa reconhece que os tempos mudaram. Afirma que “as grandes superfícies vieram roubar clientes ao mercado, não é só no peixe, é em tudo”, lamentando que muitas vezes sintam que estão “a pagar para trabalhar”, com o número de clientes a diminuir ano após ano. Ainda assim, garante que não pensa desistir. Fernando recorda os tempos áureos do mercado e admite que “era tanta gente que, por vezes, as pessoas tinham dificuldade em circular – isto era uma verdadeira loucura”.
O Mercado Municipal de São João da Madeira mantém-se como um espaço de proximidade e identidade local. Apesar das bancas recentemente renovadas, continua a ser um lugar onde as rotinas diárias se transformam em laços humanos e onde o tempo parece abrandar. Entre rostos conhecidos e produtos frescos, resiste uma forma de estar que se confunde com a própria comunidade. Como resumem alguns comerciantes, “no mercado somos como família, conhecemo-nos todos”.

“O mercado ainda vale a pena”

Maria de Lurdes, 75 anos, vende há mais de quatro décadas no mercado de São João da Madeira. Todos os legumes que expõe na banca são de produção própria e sem recurso a químicos. “Tenho uma estufa e tudo o que vendo, à exceção das cenouras, vem do meu quintal, do meu trabalho”, sublinha.

A ligação ao mercado começou cedo. “Eu vinha para cá pequena com a minha mãe. Isto era um mundo, as pessoas tinham dificuldade até em circular”, recorda. Herdou a banca materna e hoje marca presença apenas às quintas-feiras e sábados, os dias em que diz há mais movimento. “Não se justifica estar cá todos os dias, mas clientes não me faltam. Raramente levo coisas para casa”, mostrando orgulhosamente a banca já com pucos legumes.
Reconhece, no entanto, que há menos procura. “Nota-se uma quebra. As pessoas compram apenas o que necessitam, mas compram”, explica, acrescentando que o facto de ser produção própria permite-lhe ajustar os preços.
Natural de São Martinho da Gândara, não esconde a paixão pela lavoura. “Gosto da terra, de ver as estufas bonitas. É também uma forma de passar o tempo, não posso parar”, afirma, frisando que a motivação não é financeira. “Tenho que me mexer” diz entre sorrisos. “O segredo para aguentar é gostar disto e das pessoas. O mercado ainda vale a pena. Mesmo quando vimos maldispostas, mesmo quando chove lá fora e não entra ninguém”.
Para Maria de Lurdes, os clientes são quase família. “Vêm cá há tantos anos que já percebemos se estão bem ou mal. Esta é a magia de vender no mercado”, assume com um sorriso marcado pelo tempo.
É este espírito de dedicação e familiaridade que dá vida ao Mercado Municipal. Aqui, os vendedores conhecem os clientes pelo nome – e, muitas vezes, pelos nomes dos filhos e dos netos.

“Sou muito feliz todos os dias no mercado”

Maria Laura, florista há 40 anos, é testemunha da continuidade geracional no Mercado Municipal de São João da Madeira. Vende flores para momentos especiais de muitas famílias e admite sentir satisfação em partilhar essas ocasiões. “Eu amo aquilo que faço. Trato as flores por tu. Sou muito feliz todos os dias no mercado”, afirma.

O negócio começou com a mãe e hoje é já assegurado pelo filho, que trabalha ao lado da mulher. “Tenho duas lojas aqui no mercado e comprei outra onde trabalha o meu filho com a mulher”, refere, orgulhosa de poder chamar-lhe um negócio de família. “O meu marido gosta de cuidar delas na terra, eu gosto de lhes tocar e a minha nora já ganhou o gosto também”.
A rotina, contudo, é exigente. Horas intermináveis de pé, manhãs frias ou dias de calor intenso marcam a profissão. Ainda assim, Maria Laura sente uma forte ligação à terra, às pessoas e às memórias que se acumulam no mercado. “Não tenho falta de clientes. A produção é minha e vendo muito porque estes espaços permitem ter muita oferta”, sublinha.
Explica que, desde a pandemia de covid-19, ganhou força o hábito de comprar flores frescas semanalmente. “Tenho pessoas que vêm todas as semanas comprar flores para os jarros de casa”. Está presente no mercado três dias por semana; nos restantes, considera que não se justifica.

Mercado mantém-se como espaço de encontro e resistência

O Mercado Municipal, situado na Avenida Renato Araújo, é mais do que um espaço de compras. É também um ponto de encontro, onde se vai comprar fruta ou peixe fresco e, muitas vezes, conversar com vizinhos.
Apesar das dificuldades, há negócios que resistem. Um comerciante com mais de 40 anos de experiência, que pediu para não ser identificado, mantém-se firme. “Apesar de ser um negócio antigo, ainda há quem prefira a qualidade dos nossos produtos”, assegura.
Reconhece que o mercado já viveu dias mais prósperos, mas recusa qualquer visão fatalista. Afirma que “claro que o mercado não é como antigamente – o mundo também não. Se podemos fazer mais e melhor, podemos, mas temos de ser nós a agir. É sempre mais fácil apontar o dedo aos outros”. Admite que a atividade tem passado por altos e baixos. “Já não vendo o que vendia, mas vendo, e os meus clientes sabem e confiam. Mais vale pouco do que nada”, sublinha.
Ainda assim, mantém a esperança num futuro mais dinâmico para o espaço. “Quando abrirem a restauração, o entra e sai de pessoas vai dar vida a este mercado. Vamos todos ganhar com isso”, acredita.

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