
Aos 65 anos, Cristina Marques continua a atravessar a porta da sala de aula com o mesmo entusiasmo que tinha no primeiro dia de trabalho. Natural de S. João da Madeira, a professora de Português é conhecida pela sua criatividade e capacidade de cativar alunos. Contudo, a sua história é marcada por uma luta familiar que, com o pai, um homem de convicções rígidas e tradicionalistas, se tornou um dos maiores desafios que teve de enfrentar para seguir o seu sonho de ser professora.
Mestre em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea, que conquistou após 20 anos de experiência profissional, a sua forma de ensinar não se limita ao conteúdo teórico. Ao longo da sua carreira, a professora sempre procurou sair das quatro paredes da sala de aula onde, para ela, a chave para envolver os alunos se tornou a combinação entre a sua energia criativa e o apoio da escola onde trabalha.
“Não me submeto a rotinas pré-concebidas, e a sala de aula permite-me ser criativa dentro dos limites do ensino”, revelou a docente, que se orgulha de não só transmitir conhecimento, mas também cultivar o amor pela aprendizagem. Uma das estratégias mais marcantes da professora é a dramatização. Quando introduz o estudo de Fernando Pessoa, ela não se limita a falar sobre os heterónimos, entrando na pele de cada um deles, de forma visceral. “Eu entro pela porta dentro e assumo a personagem que quero representar. Se for o Álvaro de Campos, bato a porta, atiro cadeiras, mando livros para o chão, e começo com a famosa frase: ‘Que nenhum filho da puta se me meta no caminho!’”, descreveu com entusiasmo.
Esta abordagem irreverente, um tanto inesperada, garante que os alunos se recordem do momento. “Eu sei que os alunos ainda se lembram de mim a entrar pela porta, mesmo depois de tanto tempo”, afirmou Cristina Marques, com um sorriso.
Para a docente, a paixão pela educação não vem da motivação extrínseca, como o reconhecimento. O que a motiva todos os dias é a experiência dinâmica e desafiante de ser professora. “É esta profissão que me renova a cada passo, que me permite não entrar em rotinas, que me oferece desafios intelectuais. Não quero estagnar. Quero continuar a aprender, e aprendo muito com os meus alunos”, confessou.
A ideia de que o “talento” é a chave para o sucesso não faz sentido, para a professora. A mesma acredita que o que realmente importa é o trabalho e o esforço contínuo e a motivação. “Nós nascemos com características mentais, físicas e emocionais, mas a verdadeira transformação vem do trabalho constante, do investimento e da paixão pelo que se faz”, refletiu.
A sua abordagem ao ensino da língua portuguesa é uma parte central da sua filosofia. “Quem fala bem, estrutura bem o seu pensamento e comunica eficazmente. A língua materna é a base para um bom raciocínio e comunicação, algo que precisamos para o nosso crescimento pessoal e cívico”, afirmou.
Cristina Marques também vê de perto os desafios emocionais que os jovens enfrentam. A frustração, a ansiedade, a pressão social e a pressão parental são fatores que, segundo ela, explicam muito da infelicidade e do desconforto vivido pelos estudantes. “A sociedade impõe metas e padrões que muitas vezes são difíceis de alcançar. Os pais, na tentativa de proteger os seus filhos, acabam por colocá-los no centro de uma educação que, muitas vezes, não os prepara para a realidade”, analisou.
A docente educativa também falou sobre os reconhecimentos que recebeu ao longo da sua carreira, como ser finalista do Global Teacher Prize Portugal. “Pessoalmente, nada mudou, mas socialmente foi um reconhecimento público do meu trabalho, que me agradou. É sempre bom ver que a dedicação a uma causa é valorizada. No entanto, isso não muda a forma como vejo a minha profissão, porque sempre fiz o que acho que é certo com muito rigor e exigência”, concluiu.
Cristina Marques, ao olhar para trás, lembra-se da luta que enfrentou desde muito jovem para continuar a sua escolarização. Ao crescer numa família humilde, com um pai sapateiro, a sua trajetória de vida foi influenciada pela educação tradicional de uma época. “O meu pai tinha interiorizado a lição de Salazar, que dizia que as raparigas não estudam, que devem aprender uma profissão como a costura. Para eu continuar a estudar e ir para o quinto ano, foi uma luta”, recordou. Destacando que, se fosse rapaz, a sua história seria diferente. “A minha família não era um caso isolado. Era o protótipo da família salazarista, e isso marcou-me no resto do meu percurso”, admitiu.
Hoje, Cristina Marques sente-se uma pessoa profissionalmente realizada. “Fazer aquilo de que gostamos é crucial para tudo”, acrescentou, com uma sinceridade que reflete a sua experiência.
Desde muito jovem, a professora sabia que a sua vocação era a de ensinar. “Eu ainda nem tinha ido para a escola primária e já dava aulas, alinhava bonecas e o gato, tudo à minha frente. Sabia o que queria. Sei que os tempos são outros, e o mercado de trabalho é diferente agora, mas o que me ajudou foi sempre seguir a minha paixão”, explicou com clareza.
Em relação ao legado que deseja deixar, Cristina Marques espera ser lembrada como a professora que ajudou os alunos a crescer, a prepararem-se para a vida. “Gostaria que me recordassem como a professora que os ajudava a se entenderem, que os preparava para a vida. Não sou uma pessoa que gosta de se apegar ao fim de uma carreira, porque vou continuar a trabalhar”, afirmou. A sua relação com os ex-alunos, para ela, vai além do período escolar, acabando por manter “uma ligação especial” com todos.
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