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“São demasiadas horas sem dormir e o desejo é continuar até ao fim”

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Setembro ficou marcado pelos incêndios que lavraram as regiões norte e sul do país, nas quais o distrito de Aveiro esteve incluído. Toda a ajuda foi bem-vinda e a corporação de bombeiros sanjoanense também participou no combate às chamas.

Quando deflagrou o incêndio na aldeia de Vilarinho de São Luís, no concelho de Oliveira de Azeméis, os bombeiros Cristina Ferreira e Hugo Soares estiveram presentes. Cristina Ferreira é bombeira desde 2007 e contou ao jornal ‘O Regional’ que, quando chegou, a equipa onde estava inserida dirigiu-se para a zona junto ao Hotel Rural Vale do Rio. Quando chegaram, a zona mais preocupante era, de facto, a aldeia de Vilarinho de São Luís. “Fomos enviados para lá e, inicialmente, tentamos combater o incêndio. Entretanto, devido à intensidade [das chamas], optamos por defender as habitações porque, a determinada altura, era difícil combater o incêndio diretamente”, explicou a bombeira profissional de 2.ª categoria. Com uma frente ativa de vários quilómetros a ameaçar as residências, Cristina Ferreira contou que tentaram salvaguardar as casas. “Falamos de uma zona com bastantes vales e vegetação muito densa”, descreveu. Hugo Soares, bombeiro há 28 anos, realçou que a própria topografia do terreno não permitia aos profissionais combaterem o fogo. “Tivemos que optar por outra estratégia de combate ao incêndio e, ainda assim, quando nos apercebemos da forma como o incêndio estava a evoluir, sabíamos que este, rapidamente, estaria próximo às habitações”, acrescentou o chefe do corpo de bombeiros sanjoanense.
No meio da devastação e do medo do desconhecido, Hugo Soares destacou um pormenor. “A resiliência por parte dos habitantes; tínhamos pessoas preocupadas, mas também pessoas com espírito de entreajuda que tentavam proteger aquilo que era deles”, afirmou. A entreajuda não se estendeu apenas aos habitantes, mas também aos próprios bombeiros. “Foi um trabalho em equipa, desde os agentes da Proteção Civil até à destreza daquelas pessoas resilientes”, enfatizou. “Faz jus àquilo que temos no hino: «Nação valente»; no fundo, é verdade”, considerou. Cristina Ferreira e Hugo Soares estiveram com os colegas na linha da frente com “as pessoas do seu lado”, algo que, na perspetiva dos profissionais, também influencia o decurso de um incêndio daquela magnitude.
Desde o momento em que saíram de Vilarinho de São Luís para outra ocorrência em Vilarinho de São Roque, no concelho de Albergaria-a-Velha, não havia vítimas a lamentar do incêndio. No entanto, Cristina Ferreira reparou em dificuldades junto às habitações da aldeia de Oliveira de Azeméis por causa de aglomerados de lenha. “Isso dificultou o combate às chamas. Significa que são zonas preocupantes que podem colocar em risco as habitações”, observou. “Foi difícil proteger as habitações dada a violência do incêndio; tivemos que estar ainda mais atentos para que não acontecesse nada ainda mais grave”, admitiu, acrescentando: “Acredito que temos incêndios de uma era diferente. Temos incêndios cada vez mais violentos devido a imensos fatores, como as alterações climáticas que fazem com que a temperatura seja extrema. Este foi um dos grandes incêndios em que já estive – não diria o pior [em comparação a outros] –, de grandes dimensões e bastante violento.”
Foram horas a lutar contra as chamas. No final, o cansaço e a violência do incêndio, cujas rajadas de vento também não ajudaram à sua extinção, resultaram na exaustão destes profissionais. A onda de solidariedade que percorreu as zonas afetadas pelos incêndios de setembro não ficou esquecida. “Felizmente, temos a ajuda da população que compreende o nosso desgaste e está sempre disponível para nos apoiar”, declarou Cristina Ferreira. “Quando se está no terreno, sentimos solidariedade e empatia para com aquelas pessoas que estão a passar por aquele sofrimento e possibilidade de perda daqueles bens que tanto se esforçaram para ter. Naturalmente, não queremos que tenham essas perdas”, descreveu. A determinada altura, é “frustrante” o cansaço físico e mental que, invariavelmente, acabam por sentir. “São demasiadas horas sem dormir e o desejo é continuar até ao fim, mas, na verdade, chega a um ponto em que chegamos ao nosso limite”, completou Cristina Ferreira.

Poderá ter acesso à versão integral deste artigo na edição impressa n.º 4004, de 3 de outubro de 2024 ou no formato digital, subscrevendo a assinatura em https://oregional.pt/assinaturas/
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