Rostos sem Máscara

Rostos sem Máscara - 50 - Deolinda Pinho: “A sapataria Regional foi a primeira loja de sapatos em S. João da Madeira”

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Deolinda Pinho é um rosto conhecido em S. João da Madeira, onde nasceu há 75 anos. Sonhava ser costureira, mas a vida trocou-lhe as voltas, e cresceu entre um balcão, sapatos e malas, com os pais, naquela que foi a primeira loja a vender sapatos

Na semana em que se assinala 50 edições do “Sem Máscara”, conversámos com alguém que nasceu e foi criada atrás de um balcão, naquela que foi a “primeira loja a vender sapatos” em S. João da Madeira.
Quis a vida que Deolinda Pinho, 75 anos, fosse a cara do negócio, que os pais fizeram nascer e crescer há mais de 60 anos. “Uma sapataria de bom gosto, requinte”, que calçava as senhoras da elite da cidade e da região. “Foi por isso que nasceu o nome da sapataria. Vinham muitas pessoas da terra, mas muitas mais da região”.
Localizada junto da antiga a estrada nacional que ligava o Porto a Lisboa, este negócio, “único na altura, só mais tarde é que abriu uma sapataria no mercado”, era um local de paragem obrigatória. “Eu era miúda e já ouvia dizer que éramos a terra dos sapatos”.
Conta a história que Deolinda era a mais pequena da família e sonhava com as costuras, não com os estudos, e muito menos com pares de sapatos. Ainda fez a quarta classe, e depois, numa espécie de “obrigação”, foi, aos 12 anos, ajudar os pais na sapataria. “Eu nunca pensei em sapatos. Queria mesmo era costurar, criar roupa. Ainda hoje gosto. Mas eram outros tempos, e por cá fiquei até aos dias de hoje”.
Lembra que o negócio foi crescendo, e ainda tiveram uma funcionária, mas, a dada altura, já estava Deolinda pronta para receber os seus clientes sozinha.
Em meio século, entre bons sapatos e carteiras elegantes, há muitas histórias para contar. A metalúrgica Oliva ficava a meia dúzia de metros da loja. “Era sempre uma rua com grande movimentação. Quando os trabalhadores saiam da empresa, eram como moscas e vinham sempre por aqui para comprar. Era uma altura em que as pessoas paravam, espreitavam a montra, entravam, reservavam e compravam muito, uma vez que não havia oferta”.
Dos tempos áureos, recorda-se de todas a senhoras da elite que compravam o bom sapato para acompanhar a sua elegância. Contudo, hoje, a rua é quase uma espécie de limite de fronteira. No tempo que corre, isso já não acontece. Há muita oferta, e revela que a sua loja está “na fronteira”. “O fim da rua não atrai ninguém. Os museus não vieram trazer clientes nem o movimento a esta rua com tanta história, como inicialmente se poderia prever”. Curiosamente, “tenho ainda clientes dessa época. São como família. Mesmo que nem sempre comprem, ligam ou passam por cá, para saberem se eu estou bem”, uma sensação “maravilhosa”, garante. Quanto aos jovens, Deolinda diz que não procuram o seu espaço, porque o shopping oferece-lhes temperaturas adequadas e “preços atrativos”.

“A minha idade não é para estar ao balcão, mas que vou fazer para casa?”

Depois de tantos anos lembra uma vida dedicada a esta casa de família, que sempre se orientou por apostar na qualidade dos produtos que ali vendiam,
os anos passam, e já há quem diga que está na hora de Deolinda deixar o balcão. “A minha idade não é para estar ao balcão mas, que vou fazer para casa?, questiona a entrevistada. Assegura que, “felizmente”, não vive deste rendimento, mas “divirto-me aqui, enquanto falo com os meus clientes, que são um acréscimo à nossa família. Mais, ainda, as minhas irmãs brincam comigo, dizendo que venho para o meu entretenimento… brincando, até dizem que venho para a creche” (risos).
O certo é que nem o período “difícil” da pandemia lhe roubou o bem do seu dia a dia. “Até me soube bem estar por casa, e sair desta rotina. Não gosto da palavra crise disto ou daquilo. Não devemos é baixar os braços para nada”, gracejou.
Com sapatos e malas de qualidade, um quadro na parede pintado pelo falecido marido, um sorriso marcante ajudaram ao sucesso da casa, e são a vida desta mulher que queria fugir a sete pés do caçado.
Passo a passo, fez um caminho e, hoje, enche vazios e silêncios com o bom vício das palavras cruzadas. Sustos também teve. Nomeadamente, dois assaltos, durante a noite. De resto, vive em “paz com a profissão que a escolheu”, após uma quarta classe muito bem-feita.

 

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