
Ano após ano, a procissão em honra de S. João Batista, padroeiro de S. João da Madeira, enche as ruas da cidade com fé e tradição. Para muitos dos que nela participam desde tenra idade, esta manifestação é a expressão viva de uma caminhada interior e comunitária. É o caso de Bernardo Fonseca, de 20 anos, e de Isabel Leite, catequista há várias décadas. Ambos partilham não só o percurso feito nas ruas, mas também o percurso
pessoal que os liga profundamente à paróquia e à vida cristã.
Bernardo Fonseca participa na procissão desde os 5. Ainda antes de iniciar o percurso da catequese, já integrava a procissão como menino Jesus, num quadro da Sagrada Família. “Tenho até uma fotografia disso”, recordou. Desde então, o seu envolvimento nunca mais cessou, tendo participado como catequizando, como membro do grupo juvenil da paróquia, como músico da banda e, atualmente, como responsável do grupo juvenil.
“O meu sentimento é obviamente de orgulho”, afirmou. “Cada vez mais pessoas estão aliadas à nossa participação pública neste dia. Gostam de ver, gostam até de participar, e isso faz-me muito contente. E como disse, começamos a preparar quase de ano para ano aquilo que podemos melhorar no ano seguinte.”
Esse planeamento contínuo é parte essencial da vivência da procissão. O jovem é também catequista, o que o coloca diretamente no centro de toda a preparação que antecede a festividade. “Logo que termina a procissão, começamos a pensar no que poderemos fazer no próximo ano.” Cada grupo de catequese representa, durante a procissão, os ensinamentos que foram transmitidos ao longo do ano. “É uma forma de expressão pública daquilo que normalmente vivemos apenas dentro da igreja.”
Mais do que apenas um evento festivo, a procissão é vista como uma ponte entre o interior da fé e o espaço público, uma forma de testemunho visível. “Conseguimos mostrar à sociedade aquilo em que acreditamos. O entusiasmo, o orgulho, a nossa fidelidade a Jesus e ao nosso padroeiro, São João Batista.”
A mesma visão é partilhada por Isabel Leite, que cresceu numa família católica e cuja ligação à procissão e à paróquia remonta aos tempos da sua própria infância na catequese. “Sempre participei na procissão. Quando acabei os meus anos de catequese, acabei por ficar na paróquia como catequista. Comecei por ajudar a minha madrinha e depois fiquei efetivamente como catequista.”
Com o passar dos anos, o seu papel na organização da procissão foi-se intensificando. Começou por levar andores, o que considera “uma expressão de fé”, e viu de perto as transformações que foram sendo feitas. Um dos marcos foi a chegada do padre Álvaro à paróquia, há cerca de oito anos. “Tentou-se que o tema da procissão estivesse ligado ao ano pastoral. A partir daí, começou-se a trabalhar de forma mais coordenada”, com as catequistas a prepararem os grupos com base nas catequeses dadas ao longo do ano.
Essa mudança fortaleceu ainda mais o envolvimento comunitário e intergeracional. “Cada ano de catequese participa. É um trabalho feito em conjunto, que culmina no dia da procissão. Sentimos que o nosso trabalho voluntário vale a pena, mesmo com os momentos de desânimo. Quando vemos tanta gente a assistir, percebemos que o esforço, a dedicação e a fé que colocamos são reconhecidos.”
Ambos, em conversa com o ‘O Regional’ destacaram também a importância do apoio e envolvimento das famílias. A participação dos pais e a sua colaboração ativa são sinal de um compromisso que vai além da catequese das crianças. “Conseguimos envolver os próprios pais. É um trabalho em conjunto: catequese com os pais também”, sublinhou Isabel Leite.
No dia da procissão, o percurso é mais do que simbólico, tornando-se numa afirmação de fé partilhada. As ruas cheias, o silêncio respeitoso, os olhares atentos ao longo do trajeto são um estímulo para quem caminha. “É muito bom ver aquela multidão de pessoas a assistir. Ficamos ainda mais motivados para continuar a fazer esta demonstração todos os anos”, confessou Bernardo Fonseca.
A procissão das festas da cidade tornou-se “numa construção viva e dinâmica, feita de memórias, de fé, de encontros e de compromisso”. Para quem nela participa desde pequeno, como Bernardo Fonseca e Isabel Leite, é também “um espelho da nossa própria caminhada espiritual”. Um sinal de que a fé, quando vivida em comunidade, cresce e ganha força com o tempo.
Mas mais do que tudo, é uma forma de passar um legado. “Vemos hoje crianças que levam as imagens, tal como nós fizemos quando tínhamos a idade delas”, referiu Isabel Leite.
Outro rosto familiar na procissão é Rui Maia, que também vive desde muito novo, primeiro como figurante, ainda adolescente, e agora como membro da equipa de organização. “Comecei a participar ainda em idade escolar, como muitos outros jovens. Depois, naturalmente, quando se sai da cidade e se vai para a faculdade, acabamos por estar mais ausentes. Mas no regresso, ao tornar-me mais presente na comunidade paroquial, fui convidado para integrar a organização”, como referiu ter acontecido este ano.
Professor de profissão, Rui Maia sente que a sua missão enquanto cristão também passa por contribuir para esta celebração. “Sinto uma grande felicidade por ajudar a dignificar a procissão e, naturalmente, a minha missão enquanto cristão e católico.” Para ele, a diferença nota-se na forma como vivia a procissão enquanto jovem e como a vive hoje. “Há hoje uma grande preocupação em desenvolver temas que sejam atuais e transversais à sociedade”. A paróquia tenta, todos os anos, definir um tema específico que possa ser trabalhado com as crianças, os jovens e toda a comunidade, para que a procissão passe uma mensagem importante.
É neste exemplo do esforço voluntário, na dedicação silenciosa, no compromisso assumido que a procissão ganha novo sentido todos os anos, num ciclo que recomeça, e que, com cada passo dado nas ruas da cidade, fortalece os laços entre gerações.
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