
Jornal 'O Regional': E olhando para o futuro, qual é a visão da ACISJM?
Paulo Barreira - A visão é clara: valorizar a nossa identidade comercial, industrial e histórica, e torná-la atrativa para quem cá vive, investe ou visita. Isso só se consegue com uma estratégia integrada, onde estejam alinhadas as empresas, a autarquia, as escolas e as associações locais. Queremos continuar a ser uma ponte entre ideias e ação, a representar os empresários com voz, a capacitar para os novos tempos e a construir um ecossistema empresarial sólido, dinâmico e sustentável.
A ACISJM - Associação Comercial e Industrial de São João da Madeira tem estado muito ativa nos últimos anos. Que balanço faz do trabalho desenvolvido até agora?
Diria que temos consolidado um modelo de atuação assente num tripé muito claro: Pessoas, Bem-Estar e Produtividade. A ACISJM é, hoje, mais do que uma associação comercial e industrial, é um parceiro ativo das empresas, das escolas, das instituições e dos empresários. Trabalhamos para criar soluções úteis, concretas e ajustadas à realidade, desde a capacitação profissional até ao apoio técnico e estratégico, passando pela valorização do comércio local e pela ligação entre escola e empresa.
Gerimos a associação com rigor e responsabilidade. Reconhecemos as nossas fragilidades, mas estamos num caminho de crescimento sustentado. Por isso, já no início do próximo ano, vamos reforçar o nosso quadro administrativo com duas novas pessoas, reforçando a nossa proximidade com o tecido empresarial e, especialmente, com o comércio local.
Os Laboratórios Colaborativos têm sido um dos projetos mais visíveis. Qual tem sido o impacto?
Um impacto imenso. Já envolvemos mais de mil alunos, professores e orientadores em experiências reais de aprendizagem em contexto de chão de fábrica. Este contacto direto com a realidade empresarial permite não só identificar vocações, como criar pontes sólidas entre escolas e empresas.
Temos, atualmente, três laboratórios ativos: o AutoLAB na RaulAuto, o RoboLAB, na CEI&Zipor, e o FriLAB, na Friparque, e posso adiantar que o próximo será instalado numa empresa local de grande dimensão, o que nos permitirá crescer ainda mais. As empresas ficam, assim, mais próximas do talento jovem, conhecem-no diretamente e podem inspirar e captar futuros colaboradores. É uma estratégia de impacto direto e contínuo.
Destaco, ainda, a formação certificada de professores, um dos pilares mais fortes do projeto, e aproveito para agradecer ao corpo técnico do Turismo Industrial pela colaboração fundamental na organização e logística destas visitas.
A capacitação tem sido também uma das áreas mais reforçadas. Que investimentos foram feitos nesse sentido?
A ACISJM está, neste momento, a implementar um projeto no âmbito do Pessoas 2020 de formação modelar, certificada de meio milhão de euros. Com isso, as empresas associadas podem capacitar os seus colaboradores sem custos, em áreas como higiene e segurança, eficiência energética, transformação digital e inteligência artificial. Esta aposta não só responde às obrigações legais, como prepara os negócios para os desafios da economia do futuro.
E, no campo da inteligência artificial, como está a ACISJM a posicionar-se?
A inteligência artificial já está a transformar os métodos de produção, gestão e até de atendimento. A nossa função é descomplicar o acesso a este tipo de tecnologia. Vamos promover sessões de sensibilização, formação prática e apoio personalizado, para que as empresas percebam como podem aplicar a IA com impacto positivo e concreto.
Que outros desafios locais considera prioritários?
Em primeiro lugar, a modernização das zonas industriais. Temos de ter condições para atrair empresas tecnológicas, de base moderna, inovadora e limpa. A ligação direta do IC2 à zona industrial das Travessas é uma urgência há mais de uma década. Os autarcas têm de a desbloquear, não podemos continuar a adiar um investimento que pode ser estruturante para a economia local e para a atratividade do concelho. Depois, é urgente investir na digitalização do comércio local, dotando os lojistas de ferramentas e conhecimento, para competirem com os novos modelos de consumo e para comunicarem melhor com os seus clientes. Não menos importante, a preservação dos espaços comerciais ao nível do rés-do-chão, especialmente nas zonas de maior pressão comercial e com ainda potencial de crescimento. A transformação desordenada destes espaços em habitação é um erro estratégico que compromete a identidade da cidade. É fundamental pensarmos num modelo urbano que valorize o comércio, com acessibilidades bem estruturadas, espaços públicos atrativos, e lojas ou serviços âncora que dinamizem o centro.
Na minha opinião, São João da Madeira podia e devia afirmar-se como um verdadeiro laboratório de experiências urbanas, uma cidade inteligente, uma smart city, onde se testem soluções de mobilidade, de comércio, de eventos, de vivência cultural. Temos escala, temos identidade, só falta vontade estratégica. E para atrair novos espaços comerciais e gerar movimento, é essencial criar um programa de eventos atrativos, consistentes e estruturados, que permita aos empresários integrarem essas datas no seu próprio planeamento comercial. A previsibilidade e a articulação entre o público e o privado são chave para o sucesso. Não se pode pedir mais investimento ao comércio se não lhe for dada uma base de confiança e planeamento coletivo. No caso do Mercado Municipal, depois de anos de obras e indefinição, é legítimo que os comerciantes exijam uma resposta clara. É preciso pensar o mercado com base em dados reais sobre hábitos de consumo locais, adequando a estratégia à cidade que temos, e àquela que queremos ser. Tudo isto porque preparar o futuro é agir no presente com estratégia.
A ACISJM pretende ou tem promovido eventos?
Sim, mas com visão e critério. A ACISJM não é uma empresa de eventos mas, ao fim de nove anos de atividade, começamos a ter estrutura para lançar algumas iniciativas próprias. Pretendemos organizar desfiles de moda com as lojas locais, relançar os concursos de montras e estamos a preparar ações de dinamização com impacto real, sempre e se assim pretenderem, em articulação com a autarquia. Continuamos também a realizar com grande sucesso a Semana Empresarial, uma iniciativa estruturada em três eixos: capacitação, networking e reflexão estratégica. É uma marca da associação que nos orgulha e que queremos continuar a desenvolver.
Sabemos, no entanto, que a capacidade para dinamizar iniciativas de proximidade, especialmente para o comércio, está naturalmente limitada pela base de associados pagantes. A ACISJM tem de encontrar soluções sustentáveis para poder pensar e concretizar esse tipo de ações com continuidade. Foi nesse sentido que olhámos para outros setores económicos, nomeadamente a indústria e os serviços, como forma de criar estabilidade financeira, o que nos permite agora começar a estruturar iniciativas que envolvam todos os setores. E digo com clareza: nunca a direção da ACISJM se esqueceu da necessidade de apoiar o comércio de proximidade e esta nova fase será também uma oportunidade para reforçar essa ligação.
Quero ainda sublinhar que a direção da ACI sempre esteve alinhada na recusa de ações avulsas nas ruas comerciais. Acreditamos que, se não forem pensadas estrategicamente e com regularidade, não criam o efeito desejado. Fica-se com a sensação de que se gastam recursos sem retorno. O comércio precisa de consistência, visão a médio prazo e um plano que lhe devolva centralidade e confiança.
Como está estruturado o modelo de associados da ACISJM?
Temos, atualmente, dois tipos de associados. Os associados com quota, que beneficiam de um conjunto mais alargado de ações, formações, apoio jurídico, consultoria e eventos. E os associados sem quota, que, apesar de não usufruírem de todos esses benefícios, não deixamos de representar institucionalmente, sempre que assim o pretendam. Optámos por este modelo porque conhecemos bem as dificuldades de muitos pequenos negócios e queremos manter uma postura inclusiva, próxima e justa. Para ambas as opções, o primeiro passo é o mesmo: preencher o formulário de adesão disponível no website institucional da ACISJM.
A ACISJM tem crescido muito. Há necessidade de um novo espaço?
Sem dúvida. O espaço atual já não é adequado ao volume de trabalho e procura que temos. Precisamos de uma nova sede com melhores condições para formações, reuniões, atendimento ao empresário e eventos técnicos. Estamos a estudar soluções, sempre com foco na proximidade com os empresários e com a cidade.
E olhando para o futuro, qual é a visão da ACISJM?
A visão é clara: valorizar a nossa identidade comercial, industrial e histórica, e torná-la atrativa para quem cá vive, investe ou visita. Isso só se consegue com uma estratégia integrada, onde estejam alinhadas as empresas, a autarquia, as escolas e as associações locais. Queremos continuar a ser uma ponte entre ideias e ação, a representar os empresários com voz, a capacitar para os novos tempos e a construir um ecossistema empresarial sólido, dinâmico e sustentável.
Uma última mensagem para os empresários sanjoanenses?
Que continuem a acreditar no potencial da cidade. Há talento, há história, há capacidade. E há uma associação como a ACISJM, com vontade, estrutura e equipa para apoiar. O futuro não se espera, constrói-se com trabalho sério, em rede e com todos à mesa.
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