Saúde

“Não adianta querer que a criança coma sopa ou legumes se os pais não o fazem”

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Os diferentes contextos em que crescem influenciam a alimentação das crianças, mas um bom exemplo em casa é meio caminho andado para hábitos saudáveis, conforme aponta a nutricionista Catarina Isabel Costa.

Que mudanças é possível identificar na alimentação das crianças nos últimos anos?
São diversos os motivos que levam a que as famílias nem sempre consigam oferecer uma alimentação saudável ou a supervisionar o que os filhos consomem em contexto escolar. A falta de tempo dos pais para preparar refeições, os hábitos contemporâneos, o surgimento da pandemia causada pelo Covid-19 e, mais recentemente, o aumento dos preços causados pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia, têm vindo a produzir mudanças nos estilos alimentares das populações. Existem evidências que relacionam a adoção de hábitos alimentares desadequados na infância com o risco de doenças crónicas, bem como o seu desenvolvimento em fase adulta. Nomeadamente obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, entre outras. As escolhas alimentares de crianças e jovens estão fortemente condicionadas pelo contexto familiar. Nesse sentido, é imprescindível o envolvimento das famílias na prevenção de comportamentos desadequados e na aquisição de hábitos saudáveis, que se mantenham ao longo da vida. Como consequência destas alterações, algumas crianças podem sofrer de défices e desequilíbrios nutricionais, o que leva a fadiga e cansaço mental, comprometendo o seu normal crescimento e desenvolvimento. Na verdade, a maioria das refeições dos portugueses são pesadas, pouco variadas, altamente calóricas e com baixo valor nutricional. Para bem das gerações futuras, é preciso que todos unam esforços para capacitar as crianças e jovens para que façam escolhas alimentares saudáveis e sustentáveis.

Que cuidados devem ter os pais e encarregados de educação na alimentação das crianças? 
Em primeiro lugar, devem ser o exemplo. O padrão alimentar é fortemente influenciado pelos hábitos culturais e familiares. Não adianta querer que a criança coma sopa ou legumes na hora do jantar se os pais não o fazem. Por outro lado, as famílias que têm na sua rotina alimentar o consumo de frutas e hortícolas tem mais facilidade em conseguir introduzir esses alimentos na alimentação das crianças e a capacitá-las para escolhas alimentares saudáveis. Em segundo lugar, devem confiar na alimentação fornecida pelas escolas. A regulamentação dos dias de hoje, apenas permite a disponibilização de alimentos autorizados, quer isto dizer que existem alimentos, tais como as frutas, os legumes e ainda as carnes ou peixes pouco gordos, que devem ser disponibilizados diariamente. E é com base nesta lista de alimentos autorizados que são planeadas e preparadas as ementas. Por último, não menos importante, a família deve preparar lancheiras com alimentos saudáveis e diversificados, evitando incluir alimentos processados, ricos em açúcares, gordura e sal, como bolachas, doces e refrigerantes.

E que estratégias podem adotar para incentivar as crianças a terem, de forma autónoma, uma alimentação mais saudável? 
As crianças adquirem hábitos pela observação dos adultos, deste modo, é importante que a família também oriente as suas escolhas para hábitos saudáveis de modo que ocorra consolidação dos hábitos que visam promover um estilo de vida saudável. A participação das crianças na preparação das refeições funciona como um estímulo à descoberta de novos alimentos e de novos sabores. É sempre útil convidar os mais novos a participarem na preparação das refeições, desafiando-os a experimentar novas receitas; optar por não comprar alimentos que em termos nutricionais são exatamente o oposto do desejado, como as refeições pré-preparadas, os snacks, as bolachas, os doces e os refrigerantes; planear atempadamente as refeições, para que no momento da sua preparação, a falta de um determinado alimento não o impeça de concretizar o que tinha previsto; valorizar as ofertas alimentares das escolas e não promover o consumo de alimentos proibidos ou o acesso a estabelecimentos nas redondezas das escolas onde estes alimentos são promovidos.

E as escolas, que cuidados devem ter?
As escolas devem promover sessões de educação alimentar, bem como a oferta de ementas equilibradas e variadas. Desta forma, as crianças e os adolescentes vão sendo capacitados para a adoção de escolhas saudáveis. A Câmara de S. João da Madeira tem enormes preocupações na definição das ementas das cantinas escolares. Neste momento somos responsáveis pelas cantinas do pré-escolar e 1.º ciclo e, a partir do próximo ano letivo, a nossa competência alargar-se-á a todo o ensino básico e secundário. Nas ementas escolares, a oferta alimentar disponibilizada consiste em alimentos saudáveis e equilibrados, bem como o acesso a determinados alimentos muitas vezes inexistentes na casa dos alunos. Têm sido produzidas pelo Ministério da Educação em parceria com o Ministério da Saúde diversas orientações para que a oferta de alimentos no interior das escolas seja cada vez mais saudável, sem perder o aspeto apetitoso e saboroso dos alimentos. O papel da escola foca-se no ensino das crianças alertando-as, educando-as e levando-as a adotarem hábitos saudáveis.

Como deve ser uma alimentação de uma criança, por exemplo de sete anos, durante um dia?
Começar o dia com um pequeno-almoço completo, variado e equilibrado é muito importante. Esta refeição tem um grande impacto no rendimento escolar, uma vez que a sua ausência leva a baixos níveis de concentração. Um pequeno-almoço saudável deve incluir alimentos dos grupos de lacticínios, cereais e derivados e fruta. As refeições intercalares, os lanches, contribuem para a aprendizagem e a recuperação de energia nas pausas das aulas, devendo deste modo ter especial relevo nas preocupações das famílias. Em vez de snacks com muito açúcar ou sal, devem oferecer escolhas mais saudáveis como frutos secos, queijo, fruta cortada ou iogurtes e pão (quanto mais escuro melhor). Estes alimentos são nutritivos, saciam e ajudam a criar hábitos de alimentação saudável. Nos lanches da manhã e da tarde, os alimentos a incluir devem ser os mesmos descritos para o pequeno-almoço, ainda que os lanches devam ser refeições de menor volume e ajustados às necessidades de cada criança. O almoço e o jantar devem começar com uma sopa de hortícolas. Deve também ser disponibilizado um prato de refeição contendo carne, pescado ou ovo, um acompanhamento como batata, arroz ou massa e hortícolas crus ou cozinhados.

Ar­tigo dis­po­nível, em versão in­te­gral, na edição nº 3893 de O Re­gi­onal,
pu­bli­cada em 26 de maio de 2022

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