Sociedade

Morreu Marçal Correia. Tinha 94 anos

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Faleceu na última segunda-feira Marçal Correia, aos 94 anos, último filho vivo do escritor João da Silva Correia (1896–1973), nome maior da literatura sanjoanense e autor do romance Unhas Negras.
Figura discreta da vida cívica de São João da Madeira, Marçal Correia teve, ao contrário do pai, um percurso marcado pelo envolvimento político e pelo empenho na construção de uma sociedade mais justa, ainda que nunca tenha procurado protagonismo. “Concorri à câmara, mas eu não era pessoa para isso. Teimaram muito, e eu tive de ceder”, recordava em 2023, numa entrevista ao jornal ´O Regional´, por ocasião dos 50 anos da morte do pai.
Nas eleições legislativas de 1969, em pleno Estado Novo, participou na fiscalização das urnas na candidatura de Humberto Delgado. “Tínhamos um cartão com a fotografia da candidatura do Humberto Delgado; aquilo era uma coisa a sério”, relatava, entre a memória e a crítica. As reuniões do Movimento de Unidade Democrática Juvenil, lembrou, “eram feitas em currais”.
Já em democracia, foi candidato à Câmara Municipal de S. João da Madeira, nas autárquicas de 1979, pela Aliança Povo Unido (APU), num ano em que as eleições foram vencidas por José da Silva Pinho. A política, dizia, nunca foi uma paixão. Ainda assim, esteve ativamente envolvido no período pós-25 de Abril, participando em reuniões e ações de esclarecimento.
Observador atento da sua cidade, era crítico, mas justo na análise do que mudou. Elogiava, por exemplo, a transformação urbana impulsionada por Manuel de Cambra. “O indivíduo que maior volta deu à cidade foi ele. Do servente de pedreiro - e o indivíduo era dinâmico, talvez demais -, às vezes também fazia asneiras. Até com estudos também se fazem asneiras”, dava conta.
Marçal Correia acreditava no valor do trabalho e da honestidade como motores de progresso. Defendia que as pessoas “não podem viver de esmolas, têm que viver do seu trabalho, honestidade e honradez”. E reconhecia a evolução das condições sociais, nomeadamente na habitação, e dizia mesmo que, atualmente, “São João da Madeira está bastante razoável. É das terras onde evoluiu mais”, assumia.
Orgulhosamente sanjoa­nense, identificava-se com o espírito de luta da terra. “Era aqui e em Guimarães. Éramos muito bairristas. Não há dúvida nenhuma de que aquilo que metiam na cabeça conseguiam e realizavam”. Guardava, com estima, a memória de quando S. João da Madeira foi elevada a cidade, resultado de uma mobilização local que exemplificava esse mesmo espírito.
Em julho deste ano, durante a apresentação da biografia “João da Silva Correia - O Escritor Inquieto”, Marçal recordou a firmeza e coragem do pai nos difíceis tempos da censura. A obra, da autoria da jornalista Sara Dias Oliveira, foi apresentada na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira e resulta de mais de um ano de investigação. Reunindo cartas e fotografias inéditas, bem como testemunhos familiares, o livro traça um retrato íntimo do autor de Unhas Negras, enquanto homem, escritor e opositor ao regime fascista.
Entre as muitas memórias partilhadas durante a sessão, Marçal Correia destacou uma que assumiu o ter marcado profundamente. “O meu pai escreveu uma carta a Salazar, lamentando o facto de haver tantos presos políticos sem julgamento. Dizia que as famílias passavam fome, que as crianças não tinham o que comer”. Referiu ainda que o seu tio Aurélio, irmão de João da Silva Correia e vizinho próximo, o acompanhava diariamente para a empresa, num tempo em que a solidariedade familiar andava de mãos dadas com a resistência cívica.

PCP destaca Marçal Correia como “ilustre sanjoanense”

A Comissão Concelhia de São João da Madeira do PCP destaca Marçal Correia como um “ilustre sanjoanense, digno filho de João da Silva Correia. A sua vida foi um hino de combate por uma sociedade livre, democrática, humanizada e solidária”.
Em nota enviada à nossa redação, o partido recorda que, desde muito novo, Marçal arriscou a sua liberdade e “foi um ativo militante contra a repressão do regime fascista”. Acrescenta que aderiu à organização juvenil do Movimento de Unidade Democrática (designada MUD Juvenil), tendo também participado, além da campanha de Humberto Delgado para a Presidência da República, em diversas organizações da oposição democrática, entre elas o MDP.
A mesma nota dá ainda conta de que, após o 25 de Abril, integrou a segunda Comissão Administrativa da Câmara Municipal. O PCP recorda que foi candidato, pela APU, à presidência da Câmara nas eleições de 1979, bem como mandatário das listas da CDU às autárquicas locais. Foi também cofundador do jornal “Abril” e seu diretor.
“Foi um companheiro do PCP, amigo e inspirador de gerações de militantes e simpatizantes, que o sentiram sempre ao seu lado na reivindicação de uma sociedade mais justa e solidária. É com tristeza que o vimos partir, mas é com certeza que afirmamos que tudo aquilo porque se bateu será prosseguido”, refere a Comissão Concelhia do PCP.
A estrutura local do partido afirma estar “grata por o ter como companheiro e amigo” e expressa “profunda tristeza”, com a partida deste sanjoanense.

 

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