Sociedade

Maria João Santos, de aluna a professora jovem sanjoanense faz percurso no ensino do mandarim

• Favoritos: 80


Maria João Santos percorreu um caminho singular no ensino do mandarim – começou a aprender a língua chinesa num projeto-piloto lançado pelo município de São João da Madeira e, anos mais tarde, regressou às salas de aula da cidade natal como docente. Formada pela Universidade de Aveiro, ensina hoje, num colégio privado, o idioma que a fascinou ainda em criança, quando descobriu o gosto pela língua e pela cultura chinesas. A jovem professora descreve o percurso como uma experiência “profundamente transformadora”, marcada pela transição de aluna a docente, e garante que o mandarim não é uma língua difícil de aprender – apenas é trabalhosa.


Jornal ´O Regional´ - O que a fascinou, ainda em criança, numa língua e cultura tão distantes da portuguesa?

Maria João Santos - No início, a aula de mandarim apareceu como algo obrigatório, não tínhamos muita noção do que estávamos a aprender aos oito anos e muito menos sabia a importância que iria ter no meu futuro, mas a forma como a professora nos ensinava, tanto a língua como a cultura, foi dos fatores mais importantes para me fazer gostar. Depois, o facto de ser uma língua e uma cultura tão diferentes das nossas, mas ao mesmo tempo tão igual e interessante, despertou sempre em mim um desejo de querer saber mais e ir mais além na aprendizagem das mesmas.

Que significado atribui hoje àquele primeiro contacto com o mandarim, anos depois de ter seguido esse caminho profissionalmente?
Sem dúvida que teve um significado muito importante na minha vida profissional. Quanto mais cedo se aprende uma língua, mesmo que seja o básico, mais rápido conseguimos interiorizá-la e percebê-la. As aulas de mandarim que tive do 3º ao 9º ano ajudaram-me a aprender melhor não só a língua, mas tudo o que a envolve. Quando cheguei à licenciatura não senti o mesmo pânico que muitos dos meus colegas que iam aprender mandarim sentiram, e só o facto de nos sentirmos mais seguros é meio caminho andado para o sucesso na aprendizagem. Para além da segurança já trazia muitas noções como a ordem da escrita, os radicais, gramática base…que na licenciatura, por termos de aprender muita coisa, os professores não têm tempo de explicar tão bem. Sinto que tive muita sorte em ter esse primeiro contacto tão nova e pelos professores que encontrei no caminho que sempre me incentivaram a continuar no mandarim.

O que a motivou a manter o estudo de uma língua considerada difícil, quando muitos colegas optaram por desistir?
Acho que tanto eu como os meus colegas que tinham mandarim sempre fomos motivados pelas professoras e pelas atividades que elas preparavam a continuar. As aulas eram sempre interessantes, aprendíamos algo novo e muitas vezes nem nos apercebíamos que estávamos a aprender. Tínhamos aulas de cultura, provávamos comida típica e celebrávamos as festividades deles todos juntos. Tudo isto fez com que a língua se tornasse mais fácil e cativante para além de que, não é uma língua difícil, mas sim trabalhosa.
Já na universidade, o nível é naturalmente mais exigente e, por vezes, o volume de vocabulário é tão grande que pode ser desmotivador. Ainda assim, existem pequenas conquistas que nos fazem continuar: a própria China valoriza muito os estudantes estrangeiros de mandarim e promove bolsas e prémios de mérito. A China investe muito nos alunos que querem aprender mandarim.
Uma dessas motivações foi precisamente o 3.º Prémio Embaixador da China 2025, que tive a felicidade de receber. São reconhecimentos como este que nos lembram que o esforço vale a pena e que cada novo caracter aprendido é um passo em direção a um mundo mais vasto e fascinante.

De que forma esse projeto-piloto em São João da Madeira influenciou o seu percurso académico?
Quando acabei o 9º ano e consequentemente as aulas de Mandarim, pensei que não fosse ter mais contacto com a língua. Fui para o curso de Ciências e Tecnologias no secundário e quando chegou a altura de escolher o curso estava muito indecisa. Havia muito por onde escolher e eu gostava e ainda gosto de fazer um pouco de tudo. Quando pesquisei e me apareceu um curso com mandarim e outras línguas, mas também a parte da gestão de empresas, economia… não hesitei por um segundo, era o curso ideal para mim e não o conseguia tirar da cabeça. Como já tinha tido mandarim, tinha gostado tanto e ainda me lembrava de quase tudo decidi arriscar e não me arrependo até hoje. Até a nível profissional, levo uma vantagem de sete anos de aprendizagem da língua em relação aos meus colegas de curso. É um projeto inovador que me fez sentir privilegiada.

Que memórias guarda das primeiras aulas – e que papel tiveram as professoras que a acompanharam nesse início?
Guardo muitas memórias boas. Tenho muito presente uma aula em específico em que uma das professoras chinesas se estava a despedir de nós e ela não sabia falar bem português, mas fez um cartão para todos os alunos a dizer o que mais gostava em nós, mesmo não conversando muito connosco. Tenho-o guardado até hoje. Ou então as vezes em que os canais de televisão nacional nos iam filmar e que ainda hoje consigo ver online, eu e os meus colegas de turma com apenas 9 anos a apresentarmo-nos em mandarim. Também numa das festas organizadas pelo Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro em que eu tinha 13 anos, que a minha professora me deu uma pulseira de pano e só a tirei quando acabei a licenciatura aos 21. Ainda guardo a pulseira e a minha professora agora é minha colega de trabalho. Todas as professoras que tive pareciam mágicas. Fazem a aprendizagem da língua ser divertida e tentavam fazer atividades didáticas para que nos estivéssemos a divertir. E agora percebo o quanto às vezes isso é difícil. Sendo uma disciplina opcional tenho a certeza de que o papel delas e a maneira como nos envolviam foram importantes e ainda hoje lhes sou muito agradecida.

“Tem sido uma experiência profundamente transformadora”

Em que momento percebeu que o mandarim podia ser mais do que uma curiosidade escolar?
Depois de regressar do Erasmus de um semestre em Turim, senti que precisava de algo diferente na minha vida. Num dos eventos organizados pelo Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro, destinado à comunidade académica, fui incentivada pela minha antiga professora do projeto a candidatar-me a uma bolsa de iniciação à investigação que o Instituto tinha aberto.
Candidatar-me foi, confesso, um pouco “na desportiva” já que o objetivo era apoiar na gestão das redes sociais do Instituto Confúcio e estagiar a acompanhar as professoras nas aulas. No entanto, acabou por ser muito mais do que isso. O que era para ser um projeto de seis meses já dura há dez, e tem sido uma experiência de enorme crescimento pessoal e profissional.
Esta bolsa deu-me a oportunidade de aprofundar os meus estudos sobre a língua e a cultura chinesas e, sobretudo, de as poder partilhar com outros.
Entretanto, surgiu a oportunidade de dar aulas de Mandarim no município onde comecei a aprender, e, com o apoio da minha família, das minhas colegas, Sara, Sofia, Helena, Joana, Vera e Inês, que me orientaram, deixaram praticar com elas, esclareceram dúvidas e se tornaram amigas, e também do codiretor do Instituto Confúcio, Leonardo Marcotúlio, que sempre me incentivou e nunca me deixou desistir, decidi aceitar.
Tem sido uma experiência profundamente transformadora.

Que importância atribui hoje ao ensino precoce de línguas menos comuns, como o mandarim, nas escolas portuguesas?
Mais do que o simples domínio da língua o que, por si só, traz inúmeros benefícios ao nível da memória, da concentração e até do atraso do declínio cognitivo, o ensino precoce de línguas menos comuns, como o Mandarim, permite-nos abrir horizontes. Aprender uma língua é muito mais do que aprender palavras e regras gramaticais: é conhecer expressões, costumes e formas de pensar que refletem uma cultura.
Ao aproximar-nos dessa diversidade, tornamo-nos pessoas mais conscientes, tolerantes e respeitadoras. Falar outra língua é como aprender a ver o mundo pelos olhos do outro e isso é uma competência essencial numa sociedade global e intercultural como a de hoje.

Que ideias ou estereótipos sobre a China foram sendo desconstruídos à medida que aprofundava o contacto com a língua e a cultura?
Existem muitos estereótipos sobre a China que fui desconstruindo ao longo destes anos. É verdade que algumas ideias se confirmaram, como o facto de serem, em geral, um povo mais reservado do que nós e de trabalharem em equipa com uma rapidez e organização admiráveis.
Contudo, outras perceções mostraram-se completamente infundadas. Um exemplo muito comum é a ideia de que “na China se comem cães e gatos”, o que não corresponde à realidade cultural do país. Trata-se de um estereótipo exagerado e descontextualizado. A China é imensa, quase do tamanho de um continente, e existem diferenças regionais muito grandes. Em casos isolados e extremos, algumas populações muito pobres poderão ter recorrido a isso por questões de sobrevivência, mas não é algo que faça parte da cultura chinesa contemporânea.
Outro estereótipo que fui desconstruindo é o de que os chineses são “todos iguais” ou pouco expressivos emocionalmente. Pelo contrário, quando criamos laços e ultrapassamos a barreira linguística, percebemos que são afetuosos, curiosos e acolhedores. A convivência próxima permite ver a riqueza e diversidade humana que muitas vezes os estereótipos nos impedem de reconhecer.

“O mandarim não é uma língua difícil de aprender, é trabalhosa”

Como descreve a experiência de passar de aluna a professora de mandarim na mesma cidade onde tudo começou?
É uma sensação muito especial. Depois de alguns anos fora, a estudar em Aveiro, voltar à minha cidade e iniciar aqui o meu percurso como professora tem sido uma experiência enriquecedora e desafiante a vários níveis.
Com apenas 21 anos, assumir a responsabilidade de ensinar e responder a tantas perguntas, perceber se os alunos estão a compreender e refletir constantemente sobre a forma como explico os conteúdos tem sido um grande exercício de crescimento pessoal e profissional. Muitas vezes surpreendem-me com dúvidas e curiosidades que nunca me tinham ocorrido, e isso é especialmente interessante tendo em conta que me separa menos de dez anos de idade dos meus alunos. Essa proximidade gera uma ligação especial, mas também me desafia a encontrar o equilíbrio entre empatia e autoridade sendo que eu mesma ainda estou a estudar.
Dar aulas na cidade onde cresci, mesmo que numa escola diferente da que frequentei, transmite-me um sentimento de conforto e pertença. É como se o percurso se fechasse num ciclo bonito: comecei aqui como aluna e hoje tenho a oportunidade de inspirar outros a iniciarem o mesmo caminho.

O que a experiência no Instituto Confúcio lhe ensinou sobre a forma como Portugal se relaciona com a cultura chinesa?
A experiência no Instituto Confúcio ensinou-me muito sobre a forma como Portugal se relaciona com a cultura chinesa, mas também sobre como a China se relaciona com Portugal e, curiosamente, percebi que são olhares muito diferentes.
Em Portugal, a China é muitas vezes vista através de estereótipos ou de uma imagem distante, marcada por diferenças linguísticas e culturais que podem parecer intransponíveis. Contudo, no Instituto Confúcio, percebi que existe uma curiosidade crescente e genuína, sobretudo entre os jovens, por conhecer melhor esta cultura milenar, não apenas pela utilidade económica ou profissional do mandarim, mas pelo fascínio pela arte, pela filosofia e pelos valores que ela transmite, como o respeito, a harmonia e a perseverança.
Por outro lado, também aprendi muito sobre a forma como os chineses olham para Portugal: com admiração e afeto, especialmente pela nossa cultura pela nossa maneira acolhedora de estar. Há uma vontade real de compreender o nosso país e de construir pontes de cooperação cultural e educativa.
Esta vivência mostrou-me que a relação entre Portugal e a China não é apenas institucional ou económica, mas também profundamente humana e simbólica. Cada projeto, cada aula e cada interação intercultural é uma oportunidade para derrubar barreiras e aproximar realidades. No fundo, o Instituto Confúcio tem sido um verdadeiro espaço de encontro entre duas formas de ver o mundo, onde ambos os lados aprendem e se transformam.

É, afinal, o mandarim uma língua difícil de aprender?
Não, o mandarim não é uma língua difícil de aprender, é trabalhosa. Costumo dizer que é uma língua para quem gosta de lógica e raciocínio, quase como a matemática: tudo tem uma estrutura e uma razão de ser.
É verdade que exige muita prática e repetição, sobretudo na escrita dos caracteres, mas, no fundo, não é assim tão diferente de quando aprendemos a escrever o nosso próprio alfabeto também começámos por repetir letras vezes sem conta até as dominarmos.
Talvez o facto de ter tido contacto com a língua desde muito nova me tenha ajudado a encará-la de forma natural, mas acredito sinceramente que, com motivação e curiosidade, qualquer pessoa pode aprender mandarim. É uma língua profundamente rica, lógica e culturalmente fascinante, que nos desafia e, ao mesmo tempo, nos abre a uma nova forma de pensar.

80 Recomendações
569 visualizações
bookmark icon

Farmácias abertas

tempo