
Após realizar um curso profissional de assistente de cozinha na CERCI, direcionado para pessoas com deficiência e incapacidade, José Pedro Valente conseguiu inserção no mercado de trabalho, mais precisamente um estágio na Padaria Lowminosa.
José Pedro Valente realizou um curso profissional de assistente operacional de cozinha na CERCI de S. João da Madeira (Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades CRL). Esta formação é uma das medidas existentes através do instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), integradas no Portugal 2020, destinadas a pessoas portadoras de deficiência e incapacidade que permite que, através dela, o utente possa ter a possibilidade de ser inserido no mercado de trabalho. O jovem, natural de Arouca, terminou o curso, com duração de 2900 horas, em abril, e realizou o processo de candidatura a estágio, tendo este sido aprovado e iniciado funções, na semana passada, no estabelecimento Padaria Lowminosa. O aprendiz vai permanecer em contexto profissional por um ano, e pode dizer-se que é um caso de integração de sucesso, uma vez que este tipo de procedimentos não são fáceis de colocar na prática, devido às obrigações burocráticas, tal como comunicou a 'O Regional' Sandra Rodrigues, Coordenadora da Formação Profissional da entidade.
“Todos devíamos ter uma oportunidade”
Visitamos as instalações da Padaria Lowminosa onde podemos in loco falar com José Pedro Valente, que admitiu ter tido com esta integração uma “oportunidade fora de série”. “Sinceramente estava à espera de conseguir ser colocado em algum lado”, admitiu, concordando que apesar de este não ser um processo “fácil”, a “experiência está a ser ótima”, pois nunca tinha “trabalhado a sério em lado nenhum”, e está a “adorar”. “Já aprendi algumas coisas, mas a maioria é igual à formação”, esclareceu, referindo que o seu trabalho passa principalmente pela limpeza, no geral, mas também “limpeza de tabuleiros” (…), preparação de “formas”.
No que toca à discriminação, e respondendo a se realmente a sentiu na pele ao longo da vida, nota que sempre se apercebeu da existência de uma grande discriminação pela parte das pessoas “genericamente”, para com os portadores de incapacidade ou deficiência. “Ninguém nos quer ajudar, e muitas empresas não querem mesmo saber”, confessou. “Todos devíamos ter uma oportunidade, mas aqui em Portugal é assim”, asseverou o aprendiz. Relativamente ao seu futuro, José confidenciou que pretende ter a sua “própria empresa”, e que gostaria que fosse “um restaurante”, onde as pessoas pudessem comer as “suas gulodices”, tal como “francesinhas/cachorros”, ou seja, comida que ele próprio gosta, e que por vezes até “inventa”, como confessou a sorrir.
No seu ponto de vista se os empregadores dessem uma oportunidade a pessoas “com este tipo de limitações”, seria possível para elas mostrarem aquilo que “conseguem fazer no trabalho”. Os donos deste negócio foram “cinco estrelas”, mas já tive outras experiências más e em que houve mesmo “algum stresse”. “Pessoas como eu, e até em cadeiras de rodas deviam ter mais oportunidades, pois por vezes superam muita gente que anda por aí”, garantiu.
Sandra Oliveira, Coordenadora da Formação Profissional da CERCI, numa reação dada ao nosso jornal garantiu que o caso do José Pedro é de grande êxito, pois é uma “situação que não é fácil de conseguir”, uma vez que em termos burocráticos “é complicado”. A organizadora revelou que o jovem estagiário vem todos os dias de Arouca para S. João da Madeira, e, que, apesar de ter “membros paralisados” sempre se empenhou, o que levou a que a equipa da CERCI apostasse nele. Existir, de igual modo, uma “entidade” que “aceite formandos com incapacidade” também “é complicado”, revelou. “Tentamos que no final haja uma integração, o que nem sempre é possível de fazer”, pois a nível burocrático as exigências e o preconceito são imensos. “Para ele é muito importante mostrar que é possível, assim como para quem acolhe”, clarificou. Sandra Oliveira revelou que a simples realização de um seguro para o José foi muito difícil, pois não havia “nenhuma seguradora” que quisesse assumir responsabilidade, situação que levou a que o estágio se atrasasse.
Sobre a CERCI
A CERCI S. João da Madeira (Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades CRL) é uma cooperativa de utilidade pública e solidariedade social, constituída em 11 de dezembro de 1979. Desde essa data trabalha para promover o desenvolvimento social, familiar e profissional das pessoas com deficiências e incapacidades, maximizando as suas potencialidades e otimizando a sua qualidade de vida e bem-estar.
Foi também reconhecida como Pessoa Coletiva de Utilidade Pública, em 9 de abril de 1981 (D.R. II série, nº83), como Cooperativa de Solidariedade Social, em 11 de maio de 2000, (de harmonia com o despacho nº13799/99 de 23/6 do Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social), e acreditada como Entidade Formadora, a 31 de março de 2003, (Instituto para a Qualidade na Formação, I.P.).
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